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Brucelose deixou marcas de desgraça em Aveiras de Cima
Guilhermina Canteiro diz a O MIRANTE aguardar com esperança que os responsáveis pelos casos de brucelose sejam punidos pela justiça

Brucelose deixou marcas de desgraça em Aveiras de Cima

Um foco de infecção atingiu o concelho de Azambuja no último Verão afectando dezenas de pessoas e causando um morto. Vítimas pedem justiça e queixam-se de terem sido esquecidas. O MIRANTE ouviu os testemunhos de Adelaide, que ainda não voltou ao trabalho, e de Guilhermina, que perdeu o marido.

Edição de 01.01.2020 | Sociedade

É raro ver Adelaide Pratas na peixaria. Agora é o marido que mantém o negócio a funcionar. A doença deixou sequelas e as emoções vêm ao de cima sempre que alguém lhe pergunta se está melhor. Saiu há quatro semanas do Hospital Santa Maria, em Lisboa, onde esteve quase três meses a curar-se da brucelose. “Ainda não tenho forças para trabalhar, continuo à espera que as tonturas passem. A doença abalou-me bastante. As dores nos ossos eram horríveis, nem com morfina passavam”, diz.
Em Junho passado, o concelho de Azambuja, com especial incidência na freguesia de Aveiras de Cima foi afectado por um surto de brucelose que infectou pelo menos duas dezenas e causou uma morte. O Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SINAVE) tem registados nove casos, com análises positivas à brucelose. A O MIRANTE, o médico assistente de saúde pública, João Pedro Machado, diz que apenas têm conhecimento dos casos notificados pelos médicos. Apesar de serem obrigados por lei a fazê-lo, “quando os médicos que fazem o diagnóstico não notificam, não temos conhecimento dos casos”, refere.
Para Guilhermina Canteiro ainda é difícil lembrar o dia 13 de Agosto. “Ligaram-me do hospital a dizer que tinha piorado. Quando cheguei já não o vi com vida”, recorda entre suspiros a morte do marido. Luís Canteiro tinha mulher, dois filhos e uma neta. Morreu com leucemia aos 65 anos, depois de a bactéria Brucella se ter alojado na medula óssea. “Era uma pessoa cheia de vida. Aconteceu tudo muito rápido, ninguém esperava”, diz Guilhermina.
As dores nas costas, a febre e o mau estar começaram em Abril. Foi várias vezes ao hospital e veio para casa medicado com analgésicos. Nessa altura, em Aveiras de Cima, onde morava e de onde era natural, nunca se tinha ouvido falar de brucelose. Em Junho foi ao Hospital Vila Franca de Xira. Depois de alguns dias internado teve alta e em casa continuou o tratamento para a brucelose. Mas “as dores continuavam e começou a ficar cada vez mais fraco e sem cor. Voltou ao hospital e foi então que lhe diagnosticaram a leucemia”, recorda a viúva.
Do Hospital Vila Franca de Xira foi enviado para o Hospital dos Capuchos, em Lisboa. A quimioterapia para tratar a leucemia só podia ser feita quando estivesse curado da brucelose. Passou quase um mês até poder iniciar os tratamentos. Sete sessões de quimioterapia, 10 transfusões de sangue até dar entrada nos cuidados intensivos, a 12 de Agosto. “Estava a fazer hemodiálise e com uma máscara de oxigénio. Não podia falar. Disse-me adeus com as duas mãos. É a imagem que me fica”, lembra Guilhermina.

“Já passaram quatro meses e nunca mais nos contactaram”
Na sua casa, onde nos recebe na companhia das três gatas, Guilhermina pergunta se vai ser feita justiça. Nunca foi contactada pela ASAE, entidade que em Agosto, depois de fiscalizar o local onde estavam os animais da espécie caprina e onde eram produzidos os queijos, instaurou um processo, constituindo cinco arguidos. Guilhermina não pondera, para já, avançar com queixa ou pedido de indemnização, mas diz aguardar com esperança que os responsáveis sejam punidos pela justiça.
Entre as vítimas e familiares com quem O MIRANTE falou paira uma sensação de abandono. “A nós ninguém diz nada. Já passaram quatro meses e nunca mais nos contactaram”, diz Edite que ainda não se livrou da bactéria. “Os testes continuam a dar positivo, fiz uma cintigrafia óssea mas ainda não descobriram onde está alojada”, conta.
As dores continuam a atormentá-la e iniciou sessões de fisioterapia para evitar maior perda de mobilidade. Está a aguardar marcação de consulta para a especialidade de doenças infecciosas no Hospital Curry Cabral. Miguel Amaro, que chegou a pesar 55 quilos, já se viu livre da doença e voltou ao trabalho.

Queijo continua a ser produzido

Na vila ainda se fala da brucelose e queijo fresco já ninguém quer comprar. Há, no entanto, quem garanta que o casal, residente em Vale Coelho, que produzia os queijos com leite de animais infectados com a bactéria, continua a fazê-lo com leite comprado a outros produtores locais.
“Não é justo. Depois disto devia haver mais fiscalização, diz Guilhermina que na altura quando “ia comprar o pão encomendava o queijo”, o tal que continha a bactéria.

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