Presidente dos Bombeiros de Alcanede confirma desconforto com empresa criada por bombeiros e comandante de Pernes
A polémica em torno da Ambulâncias 24 tem um novo episódio depois de o presidente dos Bombeiros de Alcanede revelar que só soube da criação da empresa quando os bombeiros envolvidos já a tinham constituído, e que lhes disse de imediato que não podiam acumular funções. Um deixou de ser profissional da corporação e o outro diz que saiu da empresa, mas o portal dos actos societários não tem o registo da transmissão da quota. O dirigente diz que a ANEPC já pediu explicações sobre os bombeiros da corporação.
A notícia publicada na edição semanal de O MIRANTE sobre a constituição da empresa Ambulâncias 24 por dois bombeiros profissionais de Alcanede e pelo comandante dos Bombeiros Voluntários de Pernes, Paulo santos, teve novos desenvolvimentos. Nelson Durão, presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros de Alcanede, confirma que só soube da criação da empresa depois de os bombeiros envolvidos o informarem, já com a sociedade constituída, e que lhes disse de imediato que não podiam estar a trabalhar na corporação e numa empresa privada ao mesmo tempo.
Segundo o dirigente, um dos bombeiros, Luís Miguel Reis, saiu como profissional e mantém‑se apenas como voluntário, mas o dirigente admite que mesmo assim “a situação pode levantar questões de compatibilidades”. O outro, Luís Miguel Jesus, sub‑chefe, alegou ter saído da empresa, mas nos registos oficiais apenas consta a renúncia ao cargo de gerente, sem que seja evidente a transmissão da quota, surgindo, entretanto, um novo gerente, cunhado do bombeiro, também sem registo de quota associado.
Nelson Durão afirma que ficou “incomodado” quando soube da constituição da empresa e que, após a publicação da notícia, o Comando Sub‑Regional da Lezíria da ANEPC pediu explicações formais sobre a situação dos bombeiros da corporação. O dirigente sublinha que “toda a gente tem direito a governar‑se”, mas considera que “não fica bem à imagem dos bombeiros quando se misturam funções”.
A Ambulâncias 24 – Transporte de Doentes Não Urgentes, Lda., sediada em Alcanede, foi criada no final de 2023 por dois bombeiros profissionais de Alcanede e por Paulo Santos, actual comandante dos Bombeiros Voluntários de Pernes, que já comandou Alcanede e Santarém. A empresa entrou no mercado apesar de pareceres negativos da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil (ANEPC) e da Federação dos Bombeiros do Distrito de Santarém, que alertaram para incompatibilidades legais e morais, bem como para a inexistência de necessidade de novos operadores no concelho de Santarém, onde só Alcanede tem 35 viaturas e Pernes 19, integradas no consórcio que domina o transporte de doentes não urgentes na Lezíria.
O INEM atribuiu o alvará à empresa apesar de todos os pareceres técnicos apontarem no sentido contrário. No pedido de licenciamento, Paulo Santos surge como gestor da frota da Ambulâncias 24, ao mesmo tempo que comanda a corporação que fiscaliza e coordena o socorro na área onde a empresa actua, situação que a Lei das Incompatibilidades proíbe de forma explícita. A Federação Distrital de Bombeiros de Santarém foi taxativa ao alertar para o conflito de interesses: “Os sócios da empresa serão também bombeiros, alguns profissionais, assim como o responsável pela empresa que será comandante de bombeiros”.
A empresa começou a tratar do alvará em Março de 2024 e, no segundo semestre de 2025, já tinha obtido um contrato por ajuste directo com a Unidade Local de Saúde do Médio Tejo, seguido de outro em Janeiro deste ano, num total de 30.500 euros. Em Junho, anunciou uma parceria com o Instituto Português de Oncologia de Coimbra, apresentando‑se como empresa de referência no transporte de doentes oncológicos.
Contactado por O MIRANTE, José Viegas, ex‑comandante dos Bombeiros de Pernes e actual responsável pelo transporte de doentes não urgentes da corporação, desvalorizou o conflito de interesses, afirmando que Paulo Santos “não gere directamente o sector de transportes”. No entanto, pela sua posição e experiência acumulada em Alcanede, Santarém e agora Pernes, poderá ter acesso a informação privilegiada num sector onde a corporação que dirige é prestadora dominante.


