Três Dimensões | 19-09-2021 07:00

“Prefiro fazer 150 km pelo campo do que estar horas no trânsito em Lisboa”

“Prefiro fazer 150 km pelo campo do que estar horas no trânsito em Lisboa”
Rui Salomé é um apaixonado pela leitura e coleciona livros antigos

Rui Salomé tem 46 anos e é transmontano. Vive em Coruche e faz todos os dias cerca de 150 km entre a vila onde vive e a Golegã, onde é notário no cartório. Prefere viver no campo, onde diz ter mais qualidade de vida. É apaixonado por coisas antigas e se tivesse mais tempo adorava viajar pelo mundo. Apesar do seu pai ter sido presidente de câmara, nunca teve o bichinho da política. Diz que nos partidos há muita competição e disputa de lugar e que prefere ficar sossegado no seu canto.

Sou transmontano, trabalho na Golegã e vivo em Coruche. A minha esposa é de Seia, na Serra da Estrela, e viemos para Coruche por causa do seu trabalho. Ela também é notária e ficou colocada, em 2008, em Coruche. Vivíamos no Porto e resolvemos viver no Ribatejo. Eu trabalhava noutra área e comecei a ser seu assistente no cartório notarial.

Aos 36 anos fui tirar a licenciatura e mestrado em Direito. Durante o dia trabalhava e ao final do dia viajava até Lisboa, onde estudava. A vantagem de se tirar um curso depois dos 30 anos é que temos outra maturidade e não temos as inseguranças da juventude. Foi muito cansativo mas quando se gosta do que se faz tudo se consegue.

Estive indeciso em seguir a carreira de juiz mas o amor à família falou mais alto. Fiz a formação da magistratura judicial no Centro de Estudos Judiciários. Poderia ter seguido a carreira de juiz, que é apelativa, mas o notariado permite-me estar mais próximo da família e os juízes nem sempre conseguem ficar colocados perto de casa. Foi isso que me fez escolher. Tenho um filho com sete anos e outro com sete meses.

Prefiro ser notário de província do que numa grande cidade. Faço todos os dias cerca de 150 quilómetros entre Coruche e Golegã. A minha primeira colocação como notário foi em Ponte de Sôr, onde estive a substituir uma notária. Entretanto, em 2019, escolhi a Golegã e consegui ficar. Gosto da vila, que já conhecia. Gosto de conversar com as pessoas. Prefiro fazer 150 km pelo campo do que estar horas no pára-arranca do trânsito em Lisboa. No campo há muito mais qualidade de vida. Aproveito as viagens de carro para descomprimir do dia de trabalho a ouvir música.

Sou apaixonado por coisas antigas. Se não fosse notário poderia ter sido historiador ou arqueólogo. Tenho interesse por genealogia e já fiz a árvore genealógica da minha família e fiquei encantado com o que descobri dos meus antepassados. Gosto muito de ler. Quando era mais jovem chegava a ler enciclopédias inteiras. Tento coleccionar livros antigos que compro em leilões online a preços muito acessíveis.

Não sou uma pessoa muito religiosa mas aprecio o sagrado. Gosto de entrar em igrejas mas existem outros locais onde se encontra o sagrado como, por exemplo, no Egipto ou o templo de Angkor Wat, no Camboja. Adorava ter tempo para viajar. Machu Picchu, no Peru, Stonehenge, no Reino Unido, ou ver os vestígios da civilização Maia são locais que adorava conhecer.

Um dia estava no Porto, peguei no carro e fui sozinho até Algeciras, em Espanha. Depois apanhei o barco e fui até Tânger, em Marrocos. Gosto de conhecer novas culturas, outras pessoas diferentes de nós. Enriquece-nos. As últimas férias têm sido na praia, na zona de Aveiro, por causa dos miúdos e para eles estarem com os avós, que são transmontanos e beirões.

Gosto de ver pessoas felizes e ao cozinhar sei que as estou a fazer felizes. Cozinhar é dos maiores actos de amor que podemos ter. Sei fazer um pouco de tudo. Desde pratos de caça, comida italiana, marisco ou cozinha tradicional portuguesa. Na infância passei muito tempo com os meus avós maternos e passei muitas horas com a minha avó na cozinha e apanhei esse gosto. Quando ela faleceu fiz questão de ficar com as receitas escritas pelo punho dela. Um ano antes de falecer pedi-lhe para me fazer alheiras e lá fui ter com ela um fim-de-semana em que ela me ensinou a cozinhar alheiras, embora ainda não o saiba fazer muito bem. (risos)

O voto não deve ser obrigatório porque as pessoas não devem ser obrigadas a nada. Não gosto de impor nada a ninguém. Devemos é ter outro tipo de educação cívica e os partidos têm que mudar para que as pessoas se identifiquem com eles, o que não acontece actualmente. Quem não vota é porque acha que não vale a pena, que não vai mudar nada. Precisamos de pessoas de todas as camadas da sociedade que se importem e se identifiquem com o que está a ser feito e o que é dito. Existe um problema de base que tem que ser resolvido e que já deveria ter sido começado a trabalhar.

Nunca tive o bichinho da política. O meu pai foi presidente da Câmara de Mogadouro mas, apesar de eu o ter acompanhado sempre nas campanhas eleitorais na minha adolescência, nunca tive o apelo para me filiar num partido. Descobri cedo que não gosto de tribos e até é por isso que não gosto muito de futebol. Nos partidos há muita competição e disputa de lugares. Prefiro estar no meu canto.

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