Três Dimensões | 18-01-2022 18:00

“Nesta pandemia do que sinto mais falta é do convívio com os amigos”

“Nesta pandemia do que sinto mais falta é do convívio com os amigos”

Delfim Baptista, 72 anos, proprietário da Carlos&Delfim, Benavente.

Delfim Baptista é uma cara conhecida em Benavente, onde tem uma loja de venda de molduras, estores, vidros, fechaduras e cabines de duche, entre outros materiais. O trabalho nunca escasseia mesmo quando a saúde prega partidas. Nasceu no Carregado, trabalhou como soldador em plataformas petrolíferas espalhadas pelo mundo e quando regressou a Portugal recusou passar os dias nos bancos de jardim e nos cafés. Diz adorar Benavente e as suas gentes e é aí que tem a maior parte dos seus amigos. Não acredita em políticos e a ingratidão tira-o do sério.

Para mim, Alenquer é apenas um dormitório porque é em Benavente que tenho os meus amigos. Vou todos os dias para Benavente, para a loja, e regresso a Alenquer. Fui soldador em plataformas de petróleo durante 25 anos e passei por Angola, Congo e África do Sul, entre outros países. Fazia seis semanas lá e passava outras seis semanas em Portugal. Nos soldadores os olhos e as mãos são fundamentais e quando sentimos que já não estamos a cem por cento mais vale sair. Enquanto cá estava passei a ocupar os meus tempos livres numa loja desta actividade com o meu ex-sócio e comecei a aprender e a interessar-me pelo ofício. Ganhei-lhe o gosto e abracei este negócio para não andar nos cafés e nos bancos de jardim. Não estou arrependido.
Não sei se o que nos torna melhores são os anos que demoramos a aprender um ofício ou o gosto que colocamos no que fazemos. Gosto muito de Benavente e das suas pessoas. Costumava fazer a passagem de ano em casa de um casal amigo em Benavente e nas festas venho sempre cá. O ponto de honra é que vou dormir sempre a casa. Sou um homem feliz. Já fui mais e cheguei a ser muito brincalhão e simpático mas hoje sinto-me diferente, a nível da saúde e do cansaço. Sou viciado em trabalho e casado há 50 anos. É no trabalho que também consigo desanuviar e ocupar a mente com outras coisas. Sou um perfeccionista.
Os chineses e as grandes superfícies dão cabo dos pequenos negócios. Vendem molduras de medidas estandardizadas mas com pouca qualidade, à base de madeiras prensadas. Aqui somos diferentes, fazemos tudo por medida à vontade do cliente e apostamos forte na qualidade. Quando abri esta casa houve quem vaticinasse que estaríamos fechados dentro de poucas semanas. Dezasseis anos depois cá continuamos. Podemos meter a nossa vida dentro de uma moldura. Tenho pedidos para emoldurar tudo o que se possa imaginar, desde chocalhos a barretes de forcado, camisolas de jogadores, chuteiras, pinturas, cartazes, fotografias…
Deixei de trabalhar com empreiteiros. Uma vez um deles ficou a dever-me mais de dois mil euros de 15 estores térmicos com motor que instalei numa vivenda e nunca vi a cor do dinheiro porque ele fugiu para França. Desde esse dia nunca mais. Em Benavente há muita gente boa mas também há algumas pessoas sem escrúpulos que se aproveitam de pessoas como eu, que não sabem dizer que não. Tento ajudar sempre que posso e acabo prejudicado. Tira-me do sério a ingratidão.
Já não acredito em políticos e sei à classe que pertenço. Vejo muita ingratidão na política. Basta ver esta pandemia: não atingiu os políticos, só quem trabalha, vai para o supermercado e tem de ganhar a vida diariamente. Nunca vi um político pobre ou desempregado. A democracia e a liberdade é o melhor que nos podia ter acontecido mas também ajudou a criar muito bandido.
Já não tenho sonhos por concretizar. Casei, tenho dois filhos e três netos maravilhosos. Agora é viver até ao fim e enquanto puder. Já não tenho vontade de viajar, por ter passado mais de 1.500 horas de avião enquanto trabalhava nas plataformas. Era passageiro frequente da TAP. Cheguei a viajar para a Madeira e Suíça à borla, à conta das milhas que acumulava.
Sinto saudades dos meus amigos por causa da pandemia. Ela separou-nos. Tenho saudades de ir a casa deles, conviver, rir e ninguém se chatear. Perdemos isso tudo e lidar com essas saudades é o que custa mais. Tenho saudades desse reencontro. Não tenho medo de andar sozinho à noite na rua mas já não ando. Há muito tempo que não saio de noite e raramente vou ao café.
Somos um país de doutores e engenheiros. Não que isso seja mau mas acaba por dificultar e tornar quase impossível conseguir encontrar quem queira e saiba trabalhar nestas profissões. Éramos um país de cavadores, pedreiros, electricistas. Hoje somos doutores. É a evolução da sociedade. O problema é saber quem é que vai querer continuar a fazer este trabalho, que é uma profissão que obriga a ter muito gosto e paixão pelo que se faz. Nunca consegui recusar trabalho por estar muito ocupado.

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