Três Dimensões | 29-04-2022 12:00

“Já tive atletas e treinadores a pedirem-me dinheiro para comer”

Luís Pereira é filho de mãe angolana e pai português e vive há sete anos no bairro da Icesa, em Vialonga

Luís Pereira, 43 anos, presidente do Grupo Desportivo Os Patuscos de Vialonga.

Luís Pereira é um rosto conhecido em Vialonga e em particular no bairro da Icesa, onde comprou casa há sete anos. Tem sido a pessoa que, em quatro anos, revolucionou o Grupo Desportivo Os Patuscos de Vialonga levando-o de quatro atletas para os mais de 105 que hoje tem. Chefe de mesa de profissão tornou-se motorista da Uber quando a pandemia apertou e nunca mais olhou para trás porque o negócio tem corrido bem. Nunca virou as costas ao trabalho e confessa que o sonho do associativismo é feito de sangue, suor e lágrimas, que lhe humedecem a vista sempre que algum jovem atleta ou treinador lhe pede dinheiro para comer. Associativismo é, diz, entregar o coração à colectividade em todas as horas.

Nunca fui pessoa de fugir das responsabilidades e estou sempre a trabalhar. A minha mulher diz que estou mais tempo fora do que em casa. Aos 17 anos quis desistir da escola e o meu padrasto, que tinha uma empresa de construção civil, avisou-me que ou ia para as obras ou ia tirar um curso. Acabei por tirar um curso profissional remunerado de empregado de mesa e fui abrir o Pestana Palace Hotel na zona de banquetes. Fui bagageiro e quando nasceu o meu primeiro filho estava cansado da hotelaria e saí. Ainda trabalhei num supermercado e numa cadeia de electrodomésticos antes de voltar à hotelaria, que é a minha profissão.
Quando a pandemia estalou vi-me sem trabalho e fui forçado a fazer-me à vida. Virei-me para motorista da Uber. Nunca tinha sido motorista na vida. Foi uma experiência boa e diferente e não me vi a voltar à profissão de chefe de mesa. As coisas têm corrido tão bem que abri uma empresa com um sócio e comprámos um carro exclusivamente para esse serviço. Só me mantenho na Uber por causa dos Patuscos. Ser motorista permite-me ter maior facilidade de tempo para dedicar ao clube e trabalhar de madrugada. Por norma começo o serviço à meia-noite no concelho mas pelas 02h00 vou para Lisboa para apanhar os serviços dos bares. Já apanhei muitas histórias insólitas. Uma vez transportei um rapaz que estava com medo de sair do carro temendo ser agredido numa discoteca…
Vim morar para Vialonga há sete anos e não me vejo a sair do bairro da Icesa. Tenho mãe angolana e pai português. Sou um pai orgulhoso de quatro rapazes, dois jogam futebol, um gosta de ser árbitro e o outro não liga nada a isso (risos). Decidi meter os meus filhos nos Patuscos e nunca mais saí. Um dos meus sonhos era, precisamente, ser presidente de um clube.
Quando me convidaram para a direcção o clube estava desorganizado e em reestruturação, sem direcção, era praticamente um clube clandestino. Tive de tratar de toda a legalização junto das Finanças e Segurança Social. Aprendi sozinho a gerir uma associação fazendo o melhor que conseguia. Falar de associativismo é muito fácil mas na verdade é tudo muito duro e difícil. É preciso dar muitas horas a estas colectividades, entregar-nos totalmente, dar o coração à casa. Perdi muitas horas da minha vida para ter o clube como está hoje.
Já tive atletas e treinadores a pedirem-me dinheiro para comer. Fico com lágrimas nos olhos quando isso acontece. Eu próprio já passei por isso e sei como custa. Tentamos sempre dar um lanche aos miúdos, há dificuldades no bairro, não é segredo nenhum. As coisas estão a melhorar mas ainda não está fácil. A pandemia foi terrível e a redução dos apoios da câmara e da junta também não ajudaram. Tira-me do sério a incompetência ao volante e irrita-me profundamente não ter capacidades financeiras para ajudar todos os miúdos que estão connosco. Eles merecem.
Tenho pena de não ter visto os primeiros passos do Ivan Cavaleiro ou do Pany Varela. O Ivan apoiou-nos muito ao longo destes anos e não nos esquecemos dele. O meu objectivo é que toda a gente de Vialonga possa conhecer o clube. Com muito esforço de muitas pessoas isso já começa a acontecer. Tivemos de abrir o clube à comunidade. Hoje não temos capacidade para ter mais atletas. Não nos considero um clube de bairro, somos um clube de toda a freguesia. O que me motiva é ver os sorrisos dos miúdos e lutar pelo seu bem-estar. Temos jovens que recusaram ir para o Benfica por gostarem de estar connosco.

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