Três Dimensões | 11-05-2022 10:00

“Os empresários das pedreiras têm hoje maior consciência social e ambiental”

Ana Luís diz-se orgulhosa por ter dado seguimento ao negócio das pedreiras iniciado pelo seu avô em Pé da Pedreira

Ana Luís, 46 anos, é subdelegada da delegação de Santarém da Ordem dos Engenheiros, administradora da Pedramoca e Mocapor, empresas onde é responsável técnica e directora de qualidade. Nasceu no mundo das pedreiras, um negócio familiar iniciado há quase oito décadas por um avô. A engenheira de minas diz que o sector está melhor organizado e que tem havido uma preocupação ambiental crescente.

Trabalhar numa empresa familiar é uma realidade complexa que exige maior habilidade na gestão das emoções e conflitos. É difícil tomar decisões divergentes e ao mesmo tempo dissociarmo-nos dos laços familiares. No meu caso, trabalho com o meu pai, mãe e irmão, mas se me dessem a escolher não trocava esta experiência.
Tenho muito orgulho em ter ajudado a dar continuidade ao negócio do meu avô. A sua primeira licença de exploração é de 1946. Foi uma das primeiras pedreiras da região. Os meus pais trabalhavam na agricultura e criação de gado antes de agarrarem no negócio. Ainda me lembro de ir com eles entregar o leite ao posto de tratamento que havia.
Gosto de ser organizada mas reconheço que hoje, com uma vida tão acelerada, tem sido difícil. Por outro lado, confesso que gosto de trabalhar sob pressão, pois sinto que me foco mais nos objectivos que tenho para cumprir. Não sou daquelas pessoas que desiste quando algo na vida fica difícil.
Integrar a Ordem dos Engenheiros devia ter carácter obrigatório como acontece com os médicos ou advogados. Integro a Delegação Distrital de Santarém da Ordem dos Engenheiros, na qualidade de subdelegada, desde 2019, e este continua a ser um dos principais desafios. Muitos não sabem que os licenciados que não integram a Ordem não são engenheiros nem podem assinar como tal.
Entristece-me olhar para o centro histórico de Santarém, cidade onde resido e da qual gosto. Faz-lhe falta uma reabilitação. Não vou atribuir culpas a ninguém mas não ajuda o facto de Santarém se ter transformado numa cidade dormitório de pessoas que trabalham em Lisboa ou de pessoas que não são de lá.
O sector das pedreiras viveu na sombra durante muito tempo. Todos queriam uma bancada de mármore na cozinha mas ninguém queria saber de onde vinha aquela matéria-prima. É como a questão do lítio. Mas a verdade é que as pedreiras são um sector relevante para a economia do país.
Os empresários das pedreiras têm hoje uma maior consciência ao nível social e ambiental que não existia antes. Hoje o sector está melhor organizado. Há prospecção científica antes de haver exploração, olha-se para o ordenamento de território e garante-se a recuperação paisagística. A Pedramoca e a Mocapor, por estarem inseridas no Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros, têm obrigações acrescidas a nível ambiental, nomeadamente uma caução com garantia bancária para a recuperação da área da pedreira e obrigatoriedade de realizar medições de som e poeiras.
Comparados com a construção civil os acidentes de trabalho nas pedreiras são significativamente menores. Em muitos dos casos quando acontecem deve-se, infelizmente, ao excesso de confiança por parte do trabalhador. Para nós a segurança sempre foi uma prioridade.
A vida de trabalho nas pedreiras já não é dura nem pesada como antigamente. Estamos munidos com equipamentos tecnologicamente avançados que facilitam muito as tarefas e que trouxeram incremento na produção, que é hoje assegurada por menos trabalhadores. No entanto, há falta de mão-de-obra porque o trabalho continua e vai continuar a fazer-se na rua com ou sem intempérie.
Estudar em Itália fez-me perceber que em Portugal não somos tão atrasados como nos fazem crer. Fui a primeira do curso de Engenharia de Minas, do Instituto Superior Técnico de Lisboa, a fazer Erasmus. Em Turim havia quem não soubesse que Portugal era um país independente.
Não sou pessoa de condenar quem erra, a menos que o erro seja cometido sucessivamente. Por norma dou sempre uma segunda oportunidade e tento ajudar a encontrar uma solução. Valorizo a sinceridade nas pessoas. Não suporto quem se faz passar por alguém que não é, só para agradar. Todos somos diferentes e devemos assumir quem realmente somos.
Tenho um feitio intragável quando estou com fome. Por isso nunca saio de casa sem tomar o pequeno-almoço, nem consigo entender aquelas pessoas que não comem de manhã. Nos meus tempos livres, que não são muitos, aproveito para pôr as lides domésticas em dia. Na minha vida não pode faltar companhia. Todos os dias, na viagem de regresso a Santarém ligo a um dos meus filhos e falamos sobre tudo e mais alguma coisa.
Não sou contra o aborto mas é um tema que mexe muito comigo, com a execepção de casos como a violação. Tive duas gravidezes não programadas, uma delas confirmada a três meses do casamento. Fazer um aborto jamais me passou pela ideia. Para mim, o amor pelos filhos começa assim que a mulher sabe que está grávida.
Fui nascer ao Hospital de Santarém mas fui criada em Pé da Pedreira. As melhores memórias que guardo da minha infância são os Verões a festejar os santos populares, a apanha da azeitona, do milho e das nozes. Os transportes para Pé da Pedreira foram e são escassos. Lembro-me de apanhar o autocarro às 06h40 em Alcanede. No meu baile de finalistas, no Liceu Sá da Bandeira, a minha mãe ficou o tempo todo à porta para me levar de volta a casa porque senão não tinha como regressar.
Toda a vida fui muito ligada à minha avó. No tempo em que estudei em Lisboa ia comigo na época de exames e tratava da roupa e da alimentação para que me pudesse focar nos estudos.
Não conheço nada da vida nocturna de Lisboa porque vivi focada nos estudos. Assumi com o meu pai o compromisso de tirar o curso em cinco anos e cumpri-o. Licenciei-me em Engenharia de Minas depois de o meu pai ter dado boleia ao professor Mouraz Miranda, do Técnico de Lisboa, que nessa viagem me falou do curso. Noto que tem havido um decréscimo no interesse dos jovens pela engenharia. A forma de ensinar Matemática acaba, a meu ver, por criar receio nos alunos levando-os a fugir deste tipo de cursos.

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