Três Dimensões | 29-06-2022 15:00

“Ainda existe preconceito em procurar a ajuda de um psicólogo”

Catarina Almeida é psicóloga e proprietária da Clínica Sentidos, na Golegã

Catarina Almeida, psicóloga, 39 anos, gerente da Clínica Sentidos, Golegã.

Catarina Almeida ainda tentou seguir a área da arquitectura para dar continuidade à empresa de construção do seu pai. No entanto, a meio do curso percebeu que não seria feliz. Licenciou-se em psicologia clínica e apaixonou-se pela profissão. Em 2012 abriu a clínica Sentidos, na Golegã, de onde é natural, por não haver nada nessa área. Actualmente, concilia as consultas de psicologia, a gestão da clínica e o trabalho como directora técnica num lar do concelho da Chamusca. Lamenta que ainda exista algum preconceito na hora de recorrer a um psicólogo e diz que a pandemia veio agravar a saúde mental.

Ao fim de três anos na licenciatura de Arquitectura descobri que não era esse o meu caminho. O meu pai é construtor e tem uma empresa. Eu achava que poderia dar continuidade ao negócio de família. Foi por isso que entrei no curso de Arquitectura. Depois de três anos entendi que não era feliz e mudei para psicologia. Sempre gostei da área e assim que comecei a estudar adorei. Em criança sonhava ser professora primária, porque sempre gostei de crianças, mas a vertente do ensino não era para mim. Tirei psicologia clínica no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa, e direccionei sempre a minha formação para trabalhar com crianças.
Quando terminei o curso regressei à Golegã mas foi difícil encontrar emprego. Mandei vários currículos até que comecei a trabalhar no Centro de Saúde do Entroncamento, em part-time. Nessa altura o meu pai tinha uma loja vazia na Golegã e surgiu a ideia de abrir a minha própria clínica. Sabia que o retorno financeiro iria demorar a chegar, mas como entretanto consegui colocação como directora técnica num lar do concelho da Chamusca decidi arriscar porque não existiam clínicas na Golegã. A clínica Sentidos abriu em 2012 e temos diversas especialidades além de psicologia.
Ainda existe preconceito em procurar ajuda de um psicólogo. Ainda é uma área que muitas pessoas olham de lado e nos meios mais pequenos acontece com maior frequência. Temos muitos clientes que vêm de fora para a consulta, sentem-se mais à vontade. Os pais quando trazem a criança ao psicólogo têm que colaborar. Se sentem que o seu filho precisa de ajuda têm que perceber que é um trabalho conjunto: do psicólogo, da criança e dos pais. Quando há esta união a criança ultrapassa o seu problema. A família precisa de se ajustar e apoiar o filho.
A pandemia veio prejudicar a saúde mental dos mais novos e também dos adultos. Há crianças que têm fobia de sair de casa porque têm medo de apanhar o vírus. Ensinaram-lhes que não podiam sair de casa e agora não entendem, têm medo de ir para um novo mundo. Muitas vezes os pais também precisam de apoio de um psicólogo, mas não é fácil aceitarem. É a própria pessoa que tem que perceber que precisa de ajuda de um especialista. O psicólogo não é o médico dos malucos, isso não existe. Todos passamos por situações na vida em que precisamos de ajuda especializada. Fazer terapia com um psicólogo pode ser muito saudável.
Os tempos livres são dedicados aos filhos e à família. Tenho dois filhos, um com seis anos e outro com seis meses. Com o nascimento dos filhos deixamos de ter tempo para nós, são eles que fazem as regras. De vez em quando lá consigo ter um fim-de-semana com o meu marido mas também temos noção que isto passa tão rápido que queremos aproveitar todos os momentos enquanto eles ainda são pequenos. A minha vida é uma correria entre a gestão do lar, as consultas e gestão da clínica e a vida familiar. Tenho dificuldade em desligar dos assuntos do lar. São trabalhos diferentes mas complementares e não me poderia sentir mais realizada profissionalmente.
Existem idosos que querem viver isolados e temos que respeitar essa decisão. Temos casos de pessoas que não têm família e que a Segurança Social encaminha-os para o lar. A adaptação nem sempre é fácil porque há muitas pessoas que viveram toda a vida sozinhas e estão habituadas a essa solidão. Muitas ficam sempre no quarto sozinhas, não querem conviver. Temos que respeitar a vontade de cada um.
Conhecer Nova Iorque foi um sonho e adorava conhecer o Brasil. A viagem para Nova Iorque não foi programada. Uma amiga desafiou-me e aceitei sem pensar muito. Fiquei deslumbrada. É tudo enorme. Senti-me em casa, senti-me segura, as ruas não estão sujas e havia sempre alguém que falava português nos cafés (risos). Tenho uma paixão pelo Brasil, acho que é um país lindo, com tanta coisa bonita, mas tem o problema da insegurança. É isso que tem adiado essa viagem.
Não suporto falsidade. Tenho dificuldade em voltar a confiar quando as pessoas mostram ser uma coisa e na realidade são outra. Só confio uma vez. Quando me aparece um imprevisto primeiro observo e tento perceber como se pode resolver a situação. Não sou impulsiva e gosto de observar antes de reagir.
É bom criar os filhos em meios pequenos e rurais. Há mais liberdade, não usam tanto as novas tecnologias e podem andar à vontade na terra e na casa dos vizinhos, como eu fazia quando era criança. Mas também gostaria de viver numa grande cidade. Acho que é possível ter uma vida em liberdade numa cidade como Lisboa. O problema são os preços, a cidade está muito cara.

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