Três Dimensões | 14-09-2022 12:00

“Já se fala em 5G quando em Mação ainda há locais onde não existe rede de telemóvel”

Margarida Lopes é vereadora na Câmara de Mação desde 2017

Margarida Lopes, 41 anos, técnica superior de Comunicação e vereadora da Câmara de Mação

Margarida Lopes tornou-se uma pessoa diferente desde a morte do seu pai, aos 46 anos, atropelado em Mação. O acidente foi há quase três décadas mas para ela é como se tivesse sido ontem. Licenciou-se em Comunicação Social e é técnica superior na Câmara de Mação desde 2003. Foi nos corredores dos paços do concelho que se apaixonou pela política. Tornou-se militante do PSD e desde 2017 é vereadora. Diz que a política nos meios mais pequenos tem a vantagem da proximidade aos eleitores. Todos se conhecem e há quem lhe bata à porta de casa a pedir ajuda para resolver um problema. Lamenta que já se fale em 5G quando em municípios do interior do país, como Mação, ainda existem locais que nem rede de telemóvel têm.

Costumo dizer que existe uma Margarida antes da morte do meu pai e depois. Tinha 12 anos quando o meu pai foi atropelado em Mação. Tinha 46 anos. Foi um choque muito grande. Quando uma pessoa está doente temos tempo para nos despedirmos e mesmo assim é muito difícil. Quando é algo inesperado é uma dor tremenda. É uma dor que o tempo ameniza mas que não se supera. Foi em 1993 mas para mim é como se tivesse sido ontem. É como perder um membro do nosso corpo. Costumo dizer que a dor do “nunca mais” é extremamente complicada porque nunca mais vamos ver nem estar com essa pessoa. É a cadeira na mesa que fica sempre vazia. No entanto, sinto um privilégio enorme por ter vivido 12 anos com o meu pai que disse-me coisas que se tornaram lições para a vida.
Zanguei-me com Deus. Perguntei muitas vezes porquê a nós? Se Deus é nosso amigo porque fez isto? Tenho a minha fé, não deixei de acreditar mas zangamo-nos bastante. A minha mãe ficou sozinha com duas filhas adolescentes e tanto eu como a minha irmã, que é mais velha dois anos e meio, crescemos mais rápido e tornámo-nos responsáveis mais cedo porque quisemos ser um apoio para a minha mãe. Tenho um filho, o Duarte, de cinco anos. Tenho muita pena que ele não tenha convivido com o avô mas falo-lhe muito nele, como também falo no avô paterno, que também já faleceu, e mostro-lhe muitas fotografias. Quero que os avôs sejam uma presença na vida do Duarte.
Sempre quis ser professora de Inglês mas no 12º ano mudei de ideias. Gostava muito da disciplina e achava que iria gostar de leccionar mas hoje percebo que não seria assim. Quando cheguei ao 12º ano mudei de ideias e quis ir para Comunicação Social, mas não queria ir para Lisboa porque nunca gostei de grandes centros urbanos. Na véspera de me candidatar, quando estava já convencida a ir para Lisboa, percebi que havia o curso em Coimbra, cidade para onde sempre quis ir estudar. O curso permitia depois escolher outros ramos da área da comunicação. Nem pensei duas vezes.
Quando estava na universidade vinha a casa todos os fins-de-semana. Eu, a minha mãe e a minha irmã éramos muito unidas. Ainda mais depois da morte do meu pai. Fazia questão de vir a casa todos os fins-de-semana apesar da distância. Só não vinha quando tinha que estudar para as frequências porque sei que não iria estudar se viesse para Mação.
A política surgiu por acaso na minha vida. Depois de concluir a licenciatura estagiei durante seis meses na SIC Notícias. No final vim para Mação e entretanto surgiu vaga para técnica superior de Comunicação Social no município. Concorri e consegui entrar. Desde 2003 que sou funcionária pública. Fui ganhando gosto por fazer a comunicação da Câmara de Mação e ao ganhar experiência fui ganhando o bichinho da política. Tornei-me militante do PSD por me rever nas suas ideologias e políticas. Desde 2009 que fazia parte das listas do partido à câmara e em 2017 tornei-me vereadora. Fui em quarto lugar e o PSD reforçou a maioria absoluta nessa ano colocando mais um vereador.
O primeiro dia de trabalho enquanto vereadora foi igual porque estava numa casa que não me era estranha. O facto de conhecer os cantos à casa é meio caminho andado porque conhecemos melhor a dinâmica do local em que trabalhamos e sei como as coisas funcionam. Sente-se a diferença porque sou funcionária e, de repente, passo a vereadora. Existem situações que se alteraram mas a minha postura é sempre que me apoiem a desenvolver e desempenhar as minhas funções o melhor possível enquanto cá estiver.
O que mais gosto é do contacto com as pessoas e a possibilidade de as poder ajudar. Quando vim para estas funções de vereadora diziam-me que as pessoas não gostam dos políticos. Respondo que depende da forma como se está na política. Nos meios mais pequenos, como Mação, existe maior proximidade com as pessoas. É uma vantagem as pessoas conhecerem-nos e sabem quem somos. Falam connosco na rua. Ainda ontem um senhor bateu-me à porta de casa a pedir ajuda para lhe resolver um problema.
Acreditei sempre que os filhos não mudavam em nada a nossa vida. Vivi até aos 36 anos a pensar que já sabia alguma coisa da vida e depois veio um ser pequenino dizer-me que afinal não sei nada e que ele é que ‘manda’ e nós é que aprendemos com ele. Temos que alterar as nossas rotinas em função dos horários dele mas é a melhor coisa do mundo. Nos tempos livres aproveito para estar em família e tenho que arranjar tempo para recomeçar com as minhas caminhadas.
Já se fala em 5G e em Mação há locais onde não existe rede de telemóvel. É inadmissível que as pessoas que vivem no interior não tenham as mesmas oportunidades e acessos de quem vive nos grandes centros urbanos. Durante a pandemia houve pessoas que se mudaram para o concelho de Mação mas não ficaram porque não existe Internet com a mesma rapidez que em Lisboa ou no Porto. Enquanto isto não mudar é claro que o interior não vai ser igual ao litoral.

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