Três Dimensões | 02-10-2022 21:00

“Cada vez é mais difícil encontrar pessoas que queiram trabalhar”

Maria José Oliveira começou a trabalhar aos 15 anos e há várias décadas que é vendedora no Mercado Municipal de Coruche

Maria José Oliveira, 62 anos, é uma mulher de trabalho. Começou aos 15 anos a vender as hortaliças que o vizinho plantava. Foi assim que deu os primeiros passos no mundo empresarial. Tem banca no Mercado Municipal de Coruche há 45 anos onde vende hortaliças, frutos, flores e também tem um espaço de venda de carne. Tem três filhos e seis netos que diz serem a luz dos seus olhos. Se pudesse não tinha telefone e não é adepta de novas tecnologias. Diz que as pessoas não têm noção da crise económica que se avizinha com o aumento dos preços e a falta de produtos alimentares para vender.

Comecei a trabalhar aos 15 anos quando o meu vizinho me desafiou a vender hortaliças. Sempre gostei de desafios. O senhor plantava hortaliças perto de minha casa mas não lhes conseguia dar saída. Desafiou-me a vender-lhe as hortaliças. Foi assim que comecei a trabalhar. Depois comecei a vender fruta no Mercado Municipal de Coruche. Já lá vão 45 anos. Cinco anos depois comecei a vender flores, também no mercado. Ia apanhar as flores ao campo e vendia aos clientes. Os dias mais movimentados são a sexta-feira e o sábado. Normalmente, às 05h30 já estou no mercado pronta para mais um dia de trabalho.
O melhor da minha vida são os meus filhos e netos. Casei aos 15 anos e fui mãe aos 17 anos. Talvez devesse ter aproveitado melhor a minha mocidade mas não me arrependo nada de ter sido mãe jovem. Tenho três rapazes que são a luz dos meus olhos. Todos vinham comigo para o mercado quando a minha mãe não podia ficar com eles. Quando estava grávida do mais novo trabalhava num restaurante. Saí de lá depois dos almoços e o menino nasceu minutos depois. Foi sempre a trabalhar até à última. Também cheguei a trabalhar em part-time na cooperativa, no enchimento das latas de tomate.
Se pudesse não tinha telemóvel. Sou muito avessa ao telefone, é uma grande dependência. Foi a pior coisa que inventaram mas acaba por ser um bem necessário. Só por isso é que tenho um, por causa do trabalho e para falar com a minha família. O telemóvel controla-nos muito. Não tenho internet nem redes sociais. Não tenho tempo para isso. As redes sociais aproximam as pessoas mas há muita cusquice e o quererem saber da vida alheia. Não gosto disso por isso opto por não ter.
As flores continuam a estar na moda. Vendo muitas flores, de todo o tipo, mas as mais procuradas são as margaridas e as gerberas. Durante a pandemia houve uma diminuição da procura até porque estava tudo fechado. Lembro-me de clientes que compravam flores que deixavam à porta do cemitério porque estava fechado. Com a pandemia aumentou a venda das frutas e hortaliças. As pessoas ficaram com medo de ir às grandes superfícies comerciais e optaram pelos mercados.
A morte da minha mãe foi um grande desgosto mas perder o meu pai, aos 17 anos, foi o meu maior desgosto. Sinto muito a falta da minha mãe, que morreu há 17 anos mas o maior desgosto da minha vida foi perder o meu pai. Já lá vão 46 anos mas sinto como se tivesse sido ontem. São faltas que não se recuperam e são insubstituíveis. A vida tem que continuar com os filhos e os netos.
Gosto de cozinhar mas não sei receitas. Adoro inventar. Faço tudo a olho. Cozinho sobretudo carne porque aproveito o que sobra do talho para cozinhar em casa. Quando tenho tempo faço canja e batatas fritas para os meus netos, que é o que eles mais gostam (risos). O facto de criar galinhas e patos faz com que não falte comida para cozinhar.
Há cada vez mais pessoas a não quererem trabalhar quando há postos de trabalho para serem preenchidos. Pode haver pouco trabalho mas o pouco que existe não tem pessoas interessadas. Defendo que o Centro de Emprego deveria acabar. As pessoas preferem ficar a receber o subsídio de desemprego do que irem trabalhar. Claro que estou a generalizar mas há uma minoria que prefere ficar em casa, a sujeitar-se ao subsídio, do que ir trabalhar. É algo que me faz muita confusão.
As pessoas não têm noção da crise económica que aí vem. Vai faltar comida. As pessoas só se preocupam com os preços elevados mas não percebem que a maioria dos produtos são importados e há dificuldades em chegar à banca. Se formos aos hipermercados já notamos que as prateleiras estão mais vazias do que o habitual. No Inverno vão faltar produtos como cenouras, batatas ou feijões. Não aumento a minha horta em casa por causa da seca. Vivo na Fajarda, concelho de Coruche, e temos tido falta de água. Este ano a água do poço secou e é com essa água que rego a horta.
Não suporto mentiras. Quando me mentem não consigo voltar a confiar e consigo perceber quando as pessoas estão a ser falsas. Sou impulsiva e tenho o coração na boca. Falo antes de pensar mas se erro peço desculpa. No entanto, normalmente quando abro a boca é porque sei que tenho razão. Se percebo que não tenho razão prefiro calar-me. Se tenho algum problema com uma pessoa digo directamente o que penso na cara, não digo nada pelas costas.

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