Três Dimensões | 07-10-2022 11:59

“Faz falta acelerar o processo de modernização<br>das escolas por uma questão de equidade”

Luísa Carvalho é professora há mais de 40 anos e actualmente é directora do Agrupamento de Escolas de Samora Correia

Luísa Carvalho é professora há mais de quatro décadas e directora do Agrupamento de Escolas de Samora Correia há oito. A calma e a ponderação são dois dos valores que regem a sua vida pessoal e profissional. Defende que colocar licenciados a dar aulas deve ser uma solução apenas transitória e que nenhum professor pode entrar e sair de uma sala de aula sem tentar criar uma relação humana com os alunos. Gosta de ler e viajar e ser mãe foi o melhor que lhe aconteceu na vida.

A primeira vez que entrei numa sala de aula na qualidade de professora tinha 21 anos e os alunos 18. Não havia grande diferença entre mim e eles em termos de aparência e nessa fase não sabia bem o que esperar. Hoje, quase 41 anos depois, continuo a vir todos os dias para a escola bem-disposta e com a certeza que estou onde deveria. Cativa-me ver as crianças crescer e tornarem-se adultos bem sucedidos.
Tal como todos os professores andei aos pulos pelo país. Era normal já na época, pois, tirando o curso de ciências, mais nenhum tinha estágio integrado, o que nos obrigava a concorrer a vagas que eram mínimas. Sabíamos que iríamos andar muitos anos nesse constante saltar de escola em escola.
Uma das maiores fragilidades do ensino actualmente tem a ver com a carreira e a fixação de professores. Temos um quadro docente que varia todos os anos e que dificulta a gestão dos agrupamentos e dos projectos a desenvolver. Ter professores a mudar constantemente de escola é prejudicial a vários níveis. Esta solução que se arranjou de licenciados pós-Bolonha poderem leccionar para que os alunos não fiquem sem aulas exige muito cuidado na selecção. Ir buscar pessoas que tiveram uma ligeira informação sobre uma área de conhecimento e colocá-las a dar aulas não será bom para os alunos nem para quem o vai fazer. Espero que esta solução seja apenas transitória.
Em termos sociais a profissão de professor perdeu respeito e valorização. No entanto, acho que essa perda foi transversal a muitas outras profissões. Tem a ver com a sociedade em que estamos inseridos, mais dinâmica com demasiados estímulos. Há uns anos, quando entrávamos numa profissão, seguíamo-la a vida toda.
Hoje compramos um telemóvel e um dia depois já quase que é considerado uma antiguidade. Esta rapidez com as mudanças reflecte-se naquilo que é a nossa profissão e trabalho com os alunos.
A família tem a responsabilidade de educar mas a escola tem que ser um complemento. Em casa as crianças aprendem a relacionar-se em grupos restritos mas é na escola que está o grande espaço de socialização. A escola educa, sim, mas há uma parte da responsabilidade que é dos pais.
Procurei toda a minha vida ter uma postura de honestidade e frontalidade mas não aquela que magoa. Acho que o que há para ser dito deve sê-lo, mas com respeito, no momento certo. Tento sempre alinhar-me para nunca perder a verticalidade, a coerência, a consistência e a capacidade de ouvir. Há princípios e valores que são universais e que não têm a ver com política ou religião. Se os conseguirmos transmitir somos todos muito mais felizes.
O meu avô paterno e os meus pais foram e continuam a ser os três maiores exemplos na minha vida. O primeiro pela sua postura de calma aparente e por saber ouvir os outros com respeito. Depois a minha mãe, pela força da natureza que sempre foi, e o meu pai pela sua calma a lidar com as situações.
Os filhos não são um prolongamento dos pais, são seres humanos com ideias e vontades próprias. Temos que lhes dar o máximo para que cresçam preparados para o mundo mas libertando-nos daquela ideia de que são nossos e nos pertencem, na acepção de posse. Tenho dois filhos e sou muito orgulhosa deles. Os dias em que nasceram foram os mais marcantes da minha vida.
Um professor não pode entrar numa sala, debitar a matéria e sair sem criar uma relação com os alunos. Tive vários professores que me marcaram muito pela positiva. A parte humana de um professor é fundamental e tem que estar sempre presente.
Trabalho na Escola Dr. João Fernandes Pratas há 18 anos e estou como directora do Agrupamento de Escolas de Samora Correia há oito. Parei de leccionar quando me tornei directora porque não seria justo para os alunos ficarem sem aula sempre que tivesse que estar numa reunião. A parte mais difícil é gerir as relações humanas num universo com vários intervenientes com objectivos e formas de ser muito diferentes.
Fechar-me em casa sem nada para fazer seria abdicar de mim enquanto ser humano. Faltam-me quatro anos e uns meses para me reformar e até lá tenho que descobrir o que vou fazer porque parada não vou ficar. A última vez que fiz férias com mais de três dias foi em 2003.
Nasci em Macau em 1960 e quando regressei fui residir para Castelo Branco. A minha infância foi passada a brincar na rua. Hoje as crianças crescem de maneira diferente, super estimulados com a Internet e com muita dificuldade em se focarem em algo específico.

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