Três Dimensões | 27-12-2022 21:00

“É desumano viver com pensões tão baixas depois de uma vida de trabalho”

“É desumano viver com pensões tão baixas depois de uma vida de trabalho”
TRÊS DIMENSÕES
Sérgio Conceição abriu a Habicuidados em Alverca há nove anos

Sérgio Conceição, 51 anos, sócio-gerente da Habicuidados de Alverca do Ribatejo

Natural de Trancoso, São João dos Montes, Sérgio Conceição teve de dar um rumo à vida depois da crise financeira de 2008 e focou-se no negócio do apoio domiciliário. É um homem que não tem medo de desafios e muito raramente alguma coisa o tira do sério. Diz que nunca o carinho e o amor foram tão importantes como agora.

Sou natural de Trancoso [aldeia de São João dos Montes] mas aos 9 anos fui para Arruda dos Vinhos. Há quatro anos voltei para Alverca e gosto de viver aqui. O meu primeiro emprego foi como carpinteiro. Trabalhei numa empresa de fabrico de móveis durante cinco anos. Depois passei por um escritório de contabilidade e acabei a trabalhar numa outra empresa em Alverca ligada à área da certificação de qualidade. Quando chegou a crise de 2008 fiquei sem emprego.
Não tenho medo do trabalho e de desafios. As coisas vão surgindo com alguma, maior ou menor, naturalidade. O desafio de criar a Habicuidados surgiu da crise financeira. Decidi apostar tudo neste franchising de apoio domiciliário depois de ver que não existia esta resposta na zona. Já estamos em Alverca há nove anos. Damos apoio à higiene, alimentação e medicação de quem está dependente em casa. Conseguimos até colocar alguém em permanência com a pessoa dia e noite para a ajudar nas suas necessidades diárias. E não são apenas idosos, já nos surgiram jovens que fracturaram braços ou pernas, ficaram incapazes de lidar com as tarefas básicas da vida e nós ajudámos. Também vendemos e alugamos alguns equipamentos, como camas articuladas, cadeiras de rodas, andarilhos e gruas de transferência.
Nunca como agora foi tão importante o carinho. Os idosos vivem hoje em maior isolamento. Antigamente viviam com os filhos e hoje isso é raríssimo. Temos muitas situações de casais e pessoas sozinhas a quem a nossa presença naquelas horas é fundamental para se manterem lúcidos e activos. Procuramos sempre em todas as situações ter um afecto com as pessoas que acompanhamos e ter disponibilidade para as ouvir e estar presentes nesta fase mais delicada das suas vidas, para que tenham dignidade no seu fim de vida.
Um empresário tem de saber arriscar e sair da sua zona de conforto. Não durmo com a empresa mas não tenho nenhum destino que gostasse de visitar. Tiro férias e quando o faço gosto de conhecer o nosso país, viajar para o interior e o Alentejo. É fundamental tirar uns dias para descansar. Sou uma pessoa bastante calma e dificilmente alguma coisa me tira do sério.
A solidão nos mais velhos entristece-me e preocupa-me. Tenho, felizmente, bastantes histórias de efectiva preocupação dos familiares que mostram estar presentes. Há muita gente que sente que há carências porque não há lares nem unidades de cuidados continuados em quantidade suficiente. A maior dificuldade que sentimos é sermos uma entidade privada. Infelizmente, em mais de 80% das pensões elas não têm capacidade para pagar os nossos serviços. Em algumas situações são os filhos que ajudam. É vergonhoso viver num país onde a pensão mínima é tão baixa.
É desleal existir apoio do Estado às associações e misericórdias e não ser dado directamente aos utentes para que sejam eles a escolher onde e com quem querem ficar: se em casa com cuidadores ou nas instituições. Sei que esse diploma sai da gaveta sempre que há eleições mas depois desaparece porque o lóbi das mutualistas e das santas casas é muito forte. Julgo que nunca iremos conseguir ir pelo caminho da liberalização. Em vez disso, o Estado está a financiar os lares quando poderia entregar à pessoa a escolha sobre o serviço que quereria.
É desumano viver com pensões tão baixas depois de uma vida de trabalho. Temos na nossa empresa a vertente social de tentar ajudar de alguma forma as pessoas que sentem maiores dificuldades mas é de facto difícil. Queremos fazer melhor dentro das nossas possibilidades e continuar a fazer a empresa crescer.
Não tenho medo de envelhecer. Tenho expectativa de chegar a velho mas não me preocupa vir a ser velho. Um dia de cada vez. É preciso uma sensibilidade especial para fazer este trabalho. Temos várias situações em que as pessoas que colaboram connosco têm de ter capacidade de lidar com situações desafiantes e há muitos idosos que passam horas em frente à TV e ficam muito ansiosos, preocupados e deprimidos com tudo o que está a acontecer no país e no mundo.
Gosto do Natal mas procuro fugir ao consumismo desregrado da quadra. Há algum tempo que o faço. Tenho na família a prática de fazer apenas ofertas simbólicas, não monetárias. O que mais gosto no Natal é o convívio entre a família. Nesta época festiva tentamos sempre arranjar uma forma de unir a família e desfrutar.

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