Três Dimensões | 19-03-2023 07:00

“Pais protegem demasiado os filhos e isso expõe-os a outros perigos”

“Pais protegem demasiado os filhos e isso expõe-os a outros perigos”
TRÊS DIMENSÕES
Teodoro Roque é de Vila Franca de Xira, cidade onde vive e encontra a paz de espírito necessária para viver o dia-a-dia

Teodoro Roque, 61 anos, professor na Escola Básica Pedro Jacques Magalhães, em Alverca do Ribatejo

Formado em Engenharia Química, desde jovem percebeu que o seu futuro era dar aulas. Ser professor é uma profissão que o preenche e não se vê a fazer outra coisa. Diz-se orgulhoso pela forma unida como os professores têm lutado pelos seus direitos. Defende que a educação tem de vir de casa e que os pais são demasiado protectores das crianças. Sente-se livre e aproveita a viagem de carro para casa para passar em revista o dia de trabalho. A família é a sua maior força e a mentira tira-o do sério.

Comecei a gostar do ensino quando na primária uma professora ficou doente e fiquei encarregue de ajudar alguns colegas a aprender. Quando me formei em Engenharia Química tive a clara consciência que queria ser professor. Não estou arrependido, ainda que tenha havido uma clara desvalorização social da profissão. Dou aulas de Físico-Química e tento recriar o mundo que vemos levando os alunos à descoberta e interpretando com “óculos do conhecimento” a realidade que nos rodeia. A disciplina tem dificuldades acrescidas porque os alunos têm hoje dificuldades ao nível do português e da utilização da matemática como forma de comunicação. Da Física, gosto sobretudo do universo, de perceber que estamos num cantinho do nosso planeta e que fazemos parte de algo muito maior.
Estou orgulhoso dos professores. Estamos hoje juntos de uma forma muito intensa e a testemunhar perante uma sociedade as fragilidades que a escola tem há muito. Estes tempos que estamos a passar são singulares e traduzem injustiças que existiram no passado. É um tempo de união e justiça. A educação vem de casa e a instrução vem da escola. É preciso toda uma aldeia para educar uma criança e nessa aldeia a escola tem um papel nuclear. Hoje compreendemos a situação social de muitas famílias, mas sou contrário à ideia de que tudo tem de ser feito na escola. Os jovens também aprendem com os amigos, nas associações desportivas, nos grupos de jovens. Se o aluno estiver todo o tempo na escola há depois toda uma sociedade que desconhece.
Os pais são super-protectores. Quase que fomos do oito ao oitenta. Por vezes encontro pais quase ao pé do portão da escola podendo achar que os jovens entre os escassos metros entre o portão e o carro poderão fazer um qualquer desvio. E isso desprotege os jovens para outras situações. Esta é uma geração que vai tomar conta do futuro. Mais escolarizada mas nem por isso mais conhecedora. Temos vindo a aumentar a escolaridade mas precisamos que seja mais sólida. Ainda estamos a precisar de melhorar as exigências e conhecimentos que os alunos têm de alcançar. Tenho receio que se possa vir a verificar uma clivagem e falta de equidade, em que os bons serão sempre bons e aqueles que têm dificuldades ficam para trás.
Sinto-me uma pessoa livre mas reflicto bastante. Normalmente faço isso quando vou de carro na auto-estrada. Penso no que correu bem e mal no meu dia para poder voltar no dia seguinte e melhorar. Sou viciado em trabalho e tenho sempre o meu tempo ocupado. Ainda assim vou conseguindo desligar. Houve períodos em que não conseguia, mas tenho imposto a mim próprio esse tempo livre.
Sou de Vila Franca de Xira, sou bairrista e gosto muito da minha terra. A mais-valia da cidade é a vida que nos permite ter, de nos reconciliarmos connosco próprios, sentir uma expressão de comunidade, valorizar algumas das tradições e o bem-estar. Estão aqui todos com quem gosto de estar. É uma boa terra para viver ainda que haja coisas a melhorar como a necessidade de ter mais vida e novas dinâmicas.
Encontrei bons profissionais no Hospital de Vila Franca de Xira mas também um serviço que deixa muito a desejar e que não era aquele que eu tinha assistido há algum tempo. Não vou adjectivar porque quero acreditar que são todos bons médicos, mas com uma experiência recente o serviço deixou a desejar na forma como ficámos sujeitos num momento de maior fragilidade.
Faço parte de um conjunto vasto de pessoas que sente necessidade de se actualizar lendo jornais. Leio online mas prefiro o papel. Sou um acérrimo defensor dos jornais. Preciso de ler mais e admito que não leio tudo o que desejaria. Gosto de ler sobretudo no sofá fazendo-o de forma tranquila sabendo que à minha volta tudo está sereno e calmo. Comecei a ler “O vendedor de passados”, de José Eduardo Agualusa.
Gozar a vida é aproveitar as oportunidades, as que vamos tendo e as que provocamos. É trabalhar, estar com os nossos e sentir que ganhamos força para o dia seguinte. Não sou pessoa de promessas, sou mais de acções. Considero-me uma pessoa terrena e do concreto. Tenho medo de perder os que me são queridos, que alicerçam e dão força. Tenho sempre as mãos prontas para amparar quem precisa e gosto de sentir o mesmo. A família é a minha maior força e tira-me do sério a mentira.

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