Três Dimensões | 04-09-2023 21:00

“O maior elogio que me podem fazer é demonstrarem reconhecimento pelo que faço em prol do outro”

“O maior elogio que me podem fazer é demonstrarem reconhecimento pelo que faço em prol do outro”
TRÊS DIMENSÕES
Rosa Garret é psicóloga e proprietária do Positiva.Mente, gabinete pensado no equilíbrio e bem-estar, no Entroncamento

Rosa Garrett é psicóloga e proprietária do Positiva.Mente, um gabinete criado a pensar no equilíbrio e bem-estar, no Entroncamento.

Natural de Lisboa a residir em Vila Nova da Barquinha prepara-se, aos 61 anos, para fazer crescer o espaço que é porto seguro para muitas famílias. Diz que as pessoas ainda têm medo de falar de emoções e que o prazer feminino ainda é tema tabu mergulhado em desconhecimento. Quando deixou de agir para agradar aos outros passou a ser uma mulher mais realizada e feliz.

Hoje as crianças estão excessivamente resguardadas, não ganham competências para saber estar na relação com os outros, são cada vez menos autónomas. Nasci em Lisboa e vivi lá até praticamente ao final da minha adolescência até me mudar com os meus pais para Almada, onde fiquei até aos 28 anos. Guardo muito boas memórias da minha infância sobretudo as brincadeiras na rua com os miúdos do bairro. No contexto à época, por ser mulher, não foi para os meus pais aceitável estudar longe de casa. Não me deixaram ir para Coimbra tirar o curso de Medicina para o qual tinha concorrido e entrado. Recebi muito mal a decisão. Repeti o 12º ano, subi a média, mas a do curso, em Lisboa, subiu mais e não entrei. Depois descobri a Psicologia. Fui informar-me sobre o curso e fiquei fascinada. Quando cheguei a casa perguntaram-me para que é que aquilo servia.
Licenciei-me em Psicologia no ISPA e durante o percurso escolar conheci o meu marido, também psicólogo. Ainda durante o curso passei pelos Hospitais de Santa Maria, Júlio de Matos e Miguel Bombarda, onde - neste último - senti o peso da saúde mental ao ver os doentes de pijama às riscas internados há anos sem ninguém os visitar. Não era aceitável dizer-se que alguém na família tinha problemas mentais e uma depressão não era algo que os homens pudessem ter. Evoluímos muito e hoje posso dizer, com orgulho, que se há cinco anos tinha homens a vir à consulta arrastados pela mulher e depois desistiam porque achavam que não precisavam, agora metade dos atendimentos que faço são a homens. Mas ainda há muita gente que não quer assumir que precisa de apoio.
As pessoas ainda têm muito medo de falar de emoções. Saber geri-las é fundamental, mas é um processo complexo. Temos de as saber identificar e perceber o que desencadeiam em nós. Um minuto de raiva liberta cortisol no nosso corpo que leva seis horas a sair da circulação sanguínea, o que faz com que durante esse tempo tenhamos mais pré-disposição para ficar irritados. Temos de ser capazes de aceitar que nem tudo corre bem e que o amanhã é mais um dia em que podemos melhorar. Estamos num processo constante de aprendizagem e evolução. Houve um tempo em que fiz por agradar aos outros, porque era um pressuposto na minha educação, até perceber que estava errada. Desde que mudei essa atitude vivo mais facilmente o meu dia-a-dia. Sou uma mulher feliz. Não somos passíveis de agradar a todos nem devemos fazer o que os outros esperam que façamos se isso não nos deixa felizes.
Ainda há muitas mulheres que não sabem o que é o orgasmo. Algumas por não conhecerem o seu corpo não conseguem dar ao outro elemento o mapa para que possa ajudar nesse processo. Pensam que nem se deve fazer muitos comentários sobre o assunto, ainda é tabu. É um tema complexo também pela acessibilidade que se tem a visualizar muita coisa - na Internet - e que leva as pessoas a ficar com uma ideia errada sobre o que é preciso fazer para se chegar ao orgasmo. Há muitas questões ligadas à saúde mental relacionadas com a sexualidade.
Quando terminei o curso e procurava trabalho recebi telefonemas a perguntarem-me se fazia rezas e deitava cartas. As pessoas não percebiam o que era ser psicólogo, não foi fácil arranjar trabalho. No início de carreira fui colocada pelo Ministério da Educação no concelho de Tomar com 60 escolas do 1º ciclo numa altura em que a Psicologia nunca tinha entrado nos estabelecimentos de ensino. Foi um desafio muito interessante, até o projecto acabar por falta de verba. As políticas educacionais às vezes têm esse problema de deitar tudo fora e não se aproveitar o que foi feito de bom. Vinguei-me do facto de ser filha única e tive quatro filhos rapazes em oito anos. Os do meio têm 17 meses de diferença. Quando me casei, aos 28 anos, já estava a ficar fora de prazo à época. Quando fui mãe percebi que voltar para Lisboa não era solução fiz subir a família. De Tomar fomos para Vila Nova da Barquinha e por lá ficamos até hoje.
Fui durante 12 anos vereadora na Câmara de Vila Nova da Barquinha, saí há seis. Tive o pelouro da Juventude e a CPCJ, embora não estivesse a tempo inteiro. Foi uma experiência importante, mas achei que tinha de mudar. Estive ligada ao associativismo, nomeadamente na Associação de Paralisia Cerebral, e fui um bocadinho mãe do projecto Ocupação de Tempos Livres da Barquinha, direccionado aos jovens.
No Positiva.Mente quem entra é de casa. Este gabinete de intervenção terapêutica na família nasce em 2017 no Entroncamento. Era um projecto que tinha na gaveta e que quis transformar numa casa para as famílias. Desde a terapia da fala, nutrição, psicologia, hipnoparto, yoga, oficinas terapêuticas, orientação vocacional, este é um espaço onde se trabalha em prol do bem-estar. Acredito que o Universo traz de volta o que semeamos. Estou a construir um espaço novo, um sonho que está a ganhar corpo numa dimensão que nunca tinha previsto. Estou a dar tudo de mim neste espaço que vai ter novos padrões de abordagem para eliminar o sofrimento e que deverá abrir em Outubro, no Entroncamento.
Quando juntei quatro filhos na Universidade tinha a conta bancária nos cuidados intensivos. Foi difícil. Sou muito concretizada por ter conseguido dar à família o que foi necessário e muito orgulhosa dos meus filhos. Já sou avó, saiu mais um rapaz. O maior elogio que me podem fazer é demonstrarem-me gratidão e reconhecimento pelo trabalho que faço em prol do outro, neste investimento diário no cuidar. Quem tem o meu contacto sabe que me pode ligar a qualquer hora e que vou atender. Nas relações com o outro valorizo o respeito, a empatia, o saber comunicar sem criar conflito.
Há aspectos da nossa vida que não devíamos partilhar nas redes sociais. Cada vez é preciso mais cuidado na forma como nos expomos. Conheço pessoas que ficam stressadas porque não tiveram muitos likes numa publicação. Vive-se no parecer ser. Tenho página pessoal nas redes sociais, mas utilizo-a muito pouco. Todos os dias me deito com algo projectado para fazer no dia seguinte. Termos um objectivo para o dia é fundamental. Não sei quanto tempo vou estar saudável para fazer tudo o que me proponho fazer, mas também não vale a pena fazer grandes projectos a longo prazo, o importante é ir fazendo o dia-a-dia e saber viver.

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