Três Dimensões | 11-10-2023 07:00

“O que me dá mais prazer na vida é trabalhar”

“O que me dá mais prazer na vida é trabalhar”
TRÊS DIMENSÕES
Manuel Rodrigues Fernandes é um rosto conhecido em Alhandra onde explora há 46 anos a popular pastelaria Tijuca

Manuel Rodrigues Fernandes, 77 anos, sócio-gerente da pastelaria Tijuca, Alhandra

A pastelaria tradicional, como a que ainda se faz na Tijuca, em Alhandra, está em vias de extinção, ultrapassada pelos bolos congelados e pré-fabricados que saem mais baratos aos comerciantes. Um lamento de um homem apaixonado pela arte que teima em ir contra a corrente fazendo tudo como aprendeu há mais de sessenta anos. Manuel Rodrigues Fernandes é um rosto conhecido em Alhandra e há quem diga que é dos melhores pasteleiros do concelho.

Aos 16 anos aprendi o ofício de pasteleiro em Lisboa e nunca me vi a fazer outra coisa. Em 1965 embarquei para Moçambique para fazer a tropa lá quando toda a gente estava a ir para fora. Um tio tinha uma pastelaria e a ideia era quando eu estivesse despachado da tropa ficar com o negócio dele e ele vir embora. Acabou por não acontecer. Costumo dizer que arranjei lá três fortunas: dois filhos e a minha mulher. Vim de mãos a abanar como toda a gente naquela altura. Para as pessoas com mais de 60 anos que estavam no fim da vida e vieram sem nada foi complicado. Eu tinha 30 anos, não me podia queixar, podia recomeçar.
Sou do Alto Minho, concelho de Ponte da Barca, mas já não me vejo a sair de Alhandra. É aqui que tenho os amigos, os netos e os filhos. Sempre que posso regresso às raízes, mas ir sozinho para lá com a mulher não. Tinha de desistir de tudo e isso está fora de hipótese. Cheguei a Alhandra depois de andar a procurar pastelarias na zona de Lisboa quando regressei e onde o trespasse não fosse muito caro. Foi então que encontrei esta pastelaria, que era de umas pessoas naturais do bairro da Tijuca, no Brasil, daí o nome da casa, que mantive. Fez em Abril 46 anos que estou à frente do negócio.
O que me dá mais prazer na vida é trabalhar. Também gosto de conviver com amigos e família mas vivo para o trabalho. Todos os bolos na vitrine somos nós que fazemos na nossa fábrica. Os médicos não dizem para não comer doces, dizem para não abusar deles. Tudo na vida tem de ter conta, peso e medida. Há anos tive um Acidente Vascular Cerebral e um enfarte e mesmo assim não parei, só parei dois meses antes do Natal (risos). Custou-me muito os dias em que não pude vir trabalhar. Três semanas depois de ser operado comecei logo a vir para cá, a andar devagarinho. Se não fosse o gosto por isto já cá não estava. Parar é morrer.
Nunca aprendi a jogar à sueca. Não era capaz de me ver a passar os dias reformado num banco de jardim. Gosto de conviver com a família e os amigos e compro dois jornais por dia e três aos fins-de-semana. Gosto de ler ao fim de semana o Expresso e O MIRANTE, do qual sou assinante. As coisas têm mudado muito nos últimos anos. Antigamente tínhamos aqui uma grande cintura de empresas e quase toda a gente vinha buscar bolo-rei no Natal, por exemplo. Agora é diferente. Os bolos que mais gosto são os pastéis de nata e as bolas de Berlim. Orgulho-me de fazermos os bolos com carinho como aprendi há 60 anos.
Hoje vê-se os jovens a terem tudo de mão beijada. As minhas viagens de finalistas foram na Tijuca e os fins-de-semana também. Trabalhei muito durante a vida e o meu filho aos 10 anos também já ajudava na fábrica. Se o primeiro-ministro entrasse aqui atendia-o normalmente mas aproveitava para lhe dizer para deixar de dar dinheiro às pessoas sem elas trabalharem; as que têm saúde, obviamente. Porque isso está a provocar uma enorme falta de gente disponível para trabalhar com todos os problemas que isso acarreta. Fui criado e só ganhei dinheiro com trabalho e gosto de dar o melhor possível aos que me rodeiam.
Tenho muita dificuldade em perceber qual vai ser o futuro. Fazemos tudo de origem mas por este caminho a única forma destas casas conseguirem sobreviver é se comprarem tudo congelado e venderem. A pastelaria tradicional está a passar dificuldades. Tira-me do sério as coisas não funcionarem bem e ainda não recuperámos totalmente da pandemia. Há hábitos das pessoas que mudaram. Chegávamos a fechar à meia-noite, depois às 22h00 e agora fechamos às 20h00. A partir dessa hora já não compensa. Com a pandemia as pessoas compraram máquinas e cápsulas e deixaram de vir.
Felizmente já cumpri todos os sonhos de vida. Agora é deixar passar os dias e ver bem estas pessoas que trabalham comigo. Gosto muito de viver em Alhandra. Só gostava que houvesse maior civismo em algumas coisas como as beatas dos cigarros. É proibido mandar beatas para o chão mas quantas vezes vejo os cantos das ruas cheios delas. Não estou contra os fumadores mas a lei está aí e há que vigiar. Uma melhor limpeza das ruas também era preciso porque de resto somos uma vila bonita e tradicional.

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