Três Dimensões | 07-05-2024 07:00

“Os antigos combatentes sentem-se muito esquecidos”

“Os antigos combatentes sentem-se muito esquecidos”
TRÊS DIMENSÕES
Luís Moita é presidente do Núcleo da Liga de Combatentes do Entroncamento e Vila Nova da Barquinha há seis anos

Luís Moita, 57 anos, dedica-se ao mundo do associativismo como presidente do Núcleo da Liga de Combatentes do Entroncamento e Vila Nova da Barquinha há seis anos.

Cresceu num bairro camarário e foi sargento no Exército até 2015. Considera que os dirigentes associativos não devem ser remunerados e que os antigos combatentes merecem ser reconhecidos.

Cresci no Bairro Padre Cruz, em Lisboa, com os meus sete irmãos. A minha infância foi marcada pelas brincadeiras na rua em que dávamos cabo da cabeça às senhoras vizinhas de mais idade. A melhor memória que recordo era quando andávamos a fugir à professora para irmos para o outro lado da escola conversar com as meninas, além de fazermos barracas no bairro, onde passávamos a tarde a comer atum e pão.
Desde criança que queria ser militar, polícia ou GNR. Quando acabei o secundário concorri para a Escola de Sargentos do Exército, GNR e PSP. Fui para a tropa aos 19 anos e entrei como soldado de recruta em 1987 para a Escola dos Sargentos do Exército, porque o meu pai sempre me disse que ir para sargento era melhor. Hoje em dia, não sei se foi uma boa opção. Aos 24 anos mudei-me para Belas e casei-me com a mulher que conheci quando fui dar aulas de natação a deficientes no Lumiar durante os tempos Livres. Estive dois anos na Escola Militar de Electromecânica em Paço de Arcos, onde estudei a especialidade mecânica de equipamentos electrónicos e de mísseis.
Nunca fui a nenhuma guerra. Quando acabei o curso fui colocado em Queluz num grupo de artilharia a dar formação aos militares, enquanto fui tirando outros cursos ligados à electrónica. Depois voltei para a escola em Paço de Arcos onde vivi oito anos numa casa militar, de que ainda hoje tenho muitas saudades porque tinha vista para a praia. Estive sempre ligado à área de logística do exército e operações de segurança. Em 2005 vim viver para o Entroncamento e fui colocado no Regimento de Manutenção com o mesmo serviço.
Nunca gostei de ser mandado. Uma das grandes dificuldades que tive foi a hierarquia da tropa. A nível militar as dificuldades eram poucas. A convivência dos militares antigamente era diferente da dos militares de hoje, que encaram como um emprego. Em 2015, saí da tropa quando surgiu uma lei que permitia que continuássemos com os mesmos direitos. É complicado ser militar e ser casado com um militar. Quando o meu filho nasceu eu estava na tropa. Entristece-me não ter aproveitado o tempo com o meu filho quando era mais novo.
Quando vim para o Entroncamento comecei a ligar-me ao associativismo no desporto. Fui treinador de futebol de equipas da região. Sempre gostei de lidar com o público e conviver com as pessoas. Em 2016, surgiu a oportunidade de vir para o Núcleo da Liga dos Combatentes como vogal para ocupar o meu tempo. Sou presidente do Núcleo da Liga dos Combatentes do Entroncamento e Vila Nova da Barquinha há seis anos. Renovamos recentemente a direcção por mais três anos e coloquei uma mulher militar com o propósito de, quando ela quiser, assumir o cargo de presidente.
Temos cerca de 500 sócios de vários concelhos da zona centro. O Núcleo da Liga dos Combatentes não pode acabar porque os nossos combatentes merecem que tomemos conta deles, porque têm reformas miseráveis. O nosso objectivo é ajudar todos os nossos antigos combatentes e viúvas em tudo o que é preciso, porque o Estado não lhes dá nada. Muitos ainda têm o trauma de guerra. Temos médicos e psicólogos, visitamo-los frequentemente e organizamos vários convívios. Queremos que todos se sintam integrados na sociedade, até já ajudamos na recuperação de casas. Os sócios têm direito ao passe social, temos protocolos com várias entidades, entradas livres nos museus, entre outros. A nossa relação com as autarquias do Entroncamento e Vila Nova da Barquinha é excelente, nunca recusaram ajudar-nos.
Os antigos combatentes sentem-se muito esquecidos, não basta serem reconhecidos moralmente. Eles têm que ser reconhecidos no dia-a-dia com acções, não é com estatutos em que os combatentes não são tratados todos por igual. O núcleo tem os apoios da direcção central da Liga dos Combatentes, mas o estatuto dos antigos combatentes tem diferenças entre a área de residência dos combatentes. Os antigos combatentes ainda ficam muito incomodados de falar da guerra onde estiveram porque tiveram de matar pessoas. Hoje, a guerra é feita pelas fábricas de armamento que estão a enriquecer, mas estas guerras são completamente diferentes de antigamente.
Não acho que os dirigentes associativos devam ser remunerados, porque é para fazer o bem e não se está preocupado em ganhar. As quotas dos sócios, 20 euros anuais, têm que ser aplicadas neles. Não temos problemas com a sustentabilidade do núcleo, mas daqui a uma década vamos ter poucos sócios vivos e se as pessoas novas não se associarem à Liga dos Combatentes quase que vai desaparecer. Julgo que nunca irá acabar porque os militares novos vão perceber a importância.
Entrar na política é um projecto futuro. Nas últimas eleições fui candidato pelo PS, como independente, para perceber como a política funcionava. Agora, juntamente com outros habitantes do Entroncamento criámos um Movimento de Cidadãos para nos candidatarmos às eleições de 2025. Queremos mudar o que está mal e melhorar o que está bem. O Entroncamento, neste momento, é uma terra morta, mas eu não culpo a presidência da câmara culpo o poder central.
Não gosto de estar parado, aliás levanto-me todos os dias às 06h00 da manhã. Valorizo muito a verdade, tira-me do sério a mentira e o egoísmo. A minha esposa é a pessoa que mais admiro pela paixão que tem pela sua profissão de enfermeira. Sou amigo do amigo, sem querer nada em troca. Ainda me falta viajar muito na vida, tenho de ir a África, ver o meu filho casar e talvez ter um neto.

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