Três Dimensões | 28-05-2024 07:00

“Ainda há quem olhe para o lado e finja não ver outras realidades sociais”

“Ainda há quem olhe para o lado e finja não ver outras realidades sociais”
TRÊS DIMENSÕES
Ana Luísa Proença é da Beira Interior e escolheu Santarém para estudar, viver e trabalhar

Ana Luísa Proença tem 35 anos e é responsável pelo Gabinete de Apoio ao Estudante do ISLA Santarém. Nascida e criada na Beira Interior mudou-se para Santarém aos 18 anos para prosseguir estudos e encontrou na cidade oportunidades para traçar o seu percurso profissional. Define-se como uma pessoa humilde que valoriza a amizade e que pouco ou nada se importa com a opinião alheia.

Nasci no Telhado, uma aldeia que pertence ao Fundão, na Beira Interior. Tenho muito boas memórias da minha infância, principalmente passadas com os meus avós. Do tempo em que saía da escola e ia a pé ter à casa deles e a minha avó já me esperava sempre com um lanche preparado. Sou daquelas pessoas que sente uma certa nostalgia da infância, porque estou longe. Para o ano farei mais um ano de Santarém do que de Telhado e isso cada vez me traz mais nostalgia.
Vim para Santarém aos 18 anos para tirar a licenciatura em Educação Social na Escola Superior de Educação de Santarém. Na verdade queria ir estudar para o Porto e na segunda fase voltei a candidatar-me mas depois já não quis deixar esta cidade onde já tinha feito amigos. Na altura era uma cidade muito amiga dos estudantes, agora é diferente... já não se vê tanta vida académica. Fiz parte da associação de estudantes e participava bastante na vida académica, na organização de semanas académicas e outros eventos.
Fiz muito voluntariado durante a juventude, no Fundão, com pessoas mais velhas e crianças, num programa da junta de freguesia para ocupação de tempos livres. Por isso sempre soube, desde cedo, qual era a área que queria seguir. À época havia menos actividades nos lares e nós íamos entreter os utentes. Sempre tive muita ligação aos meus avós e por isso fascinava-me o contacto com os mais velhos.
Começa-se a tratar melhor os idosos em Portugal mas há ainda muito caminho a percorrer. Ao nível das instituições temos alguma falha nas respostas mais específicas. Ao nível das famílias há um desgaste grande, têm menos tempo e menos predisposição para cuidar dos seus. Mas hoje já não há justificação para uma família abandonar os seus idosos, pelas instituições presentes que podem prestar esse apoio.
Trabalhei 11 anos na Santa Casa da Misericórdia de Santarém. Entrei para um estágio profissional para fazer acompanhamento a toxicodependentes e alcoólicos em reabilitação ou com consumos activos. Embora tivesse alguma noção, não estava totalmente preparada para essa realidade, que é dura. Tive de lidar com situações difíceis mas que me tornaram uma pessoa diferente, com mais estratégias para o futuro. Havia muita mentira e lidar com isso fez-me crescer. Passei ainda pelo lar de grandes dependentes e, por último, pela equipa de inserção.
Saí da Misericórdia de Santarém de olhos mais abertos para as diferentes realidades sociais do concelho. Santarém tem muitas zonas rurais e a maior preocupação está aí, porque é onde as pessoas têm menos acesso a serviços, no desenvolvimento de algumas competências e até na parte económica. Ainda há muito quem olhe para o lado e finja não ver outras realidades sociais. Depois há outras que pecam pelo exagero. As pessoas cada vez estão mais disponíveis para fazer doações e temos instituições sedimentadas, mas falta uma interligação forte entre elas. E essa é para mim a principal falha. Relativamente às pessoas, há uma falta de confiança nos serviços porque nem sempre têm noção de que o trabalho feito é o necessário naquela fase. Podemos ter muita preocupação com quem vive na rua, mas há quem o faça por opção. E nós temos de aceitar que não conseguimos ajudar quem não quer ser ajudado.
O que sou enquanto pessoa deve-se muito ao meu percurso profissional. Há dois anos saí da Misericórdia para abraçar um novo desafio no ISLA Santarém. Sou a responsável pelo Gabinete de Apoio ao Estudante, onde faço acompanhamento aos alunos e ajudo a desenvolver vários projectos, alguns para melhorar a integração dos estudantes sobre os estudos mas também sobre a cidade. Apoiamos as ideias dos alunos e damos resposta às suas dificuldades.
Alguns alunos têm vontade de ficar em Santarém. Percebe-se isso através dos estágios que vão desenvolvendo. Outros olham para o futuro como sendo algo distante e algo com que não têm de se preocupar para já. O ISLA tem muitos protocolos de colaboração com empresas do concelho e do distrito, e o que se pretende é continuar esse caminho de procurar sempre novas sinergias.
Santarém é uma cidade estrategicamente bem localizada e que tem crescido ao longo dos anos. Há cada vez mais oportunidades, mais sítios para se visitar, mais coisas para se fazer, cada vez tem mais vida. Hoje tenho mais a tendência de sair, porque há mais vida em Santarém. Recebi com tristeza a notícia de que o novo aeroporto não vinha para cá. Tinha essa expectativa, ia ser um factor impulsionador para a criação de novos postos de trabalho, para a vinda de mais pessoas e para o desenvolvimento do turismo.
Sou uma pessoa muito sincera e humilde, porque fui ensinada a ser assim. Venho de um meio humilde onde as pessoas sabem olhar para as outras. Valorizo muito a amizade; aqueles que vão passando por nós e os que vão ficando são pilares importantes da nossa vida. Sou apologista de que se deve dizer tudo o que se pensa, mas deve-se saber dizê-lo. Peço desculpa com facilidade, não guardo rancor e ligo zero ao que os outros dizem sobre mim. Pauto-me pelos meus princípios, os juízos de valor que os outros fazem não me interessam.
É fundamental sentirmos que há espaço para crescer no nosso local de trabalho, para nos sentirmos valorizados. A curto prazo quero continuar a crescer profissionalmente e sinto que no ISLA tenho essa oportunidade. Sempre tive muito presente um ditado da minha terra: quem aos 30 não é, aos 35 não tem, aos 40 não é ninguém. Quando fiz 30 senti esse peso, mas percebi que estava no caminho que queria estar. Agora, antes dos 40, quero aumentar a família e fazer uma viagem que tenho programada há algum tempo.

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