“O papel da escola é incentivar os alunos a serem eles próprios”

Júlia Bernardino, 54 anos, professora de inglês e técnicas de tradução, é natural de Lisboa e vive desde 2003 em Vialonga, onde dá aulas. Mãe de duas filhas, de 32 e 15 anos, lecciona actualmente no 7º e 10º ano. Com uma carreira que começou cedo, sempre foi apaixonada por ensinar e procura transmitir aos alunos valores como o companheirismo e a solidariedade. Além de professora, é escritora e cronista. Alguns dos seus textos são publicados no O MIRANTE.
Nasci e fui criada em Lisboa. Estudei na Escola Eugénio dos Santos e no Liceu Rainha Dona Leonor. Quando fui para a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, com 18 anos, já estava casada. Conheci o meu marido quando ia a passar na rua. Ele viu-me e já vão 35 anos de casamento e 38 desde que nos conhecemos.
Tive uma professora magnífica do ensino primário, Odete Pinheiro. Queria ser como ela. Nunca tive dúvidas de que queria ser professora de Português. Era uma excelente aluna e distinguia-me. Eu não fiz a quarta classe, passei da terceira classe para a preparatória porque estava avançada. Há cerca de ano e meio, encontrei uma composição escrita por mim na terceira classe sobre Thomas Edison. Pensei como é possível uma gaiata escrever o que eu escrevi na altura. Fui para Estudos de Português e Inglês, Línguas e Literaturas Modernas, na Universidade Nova de Lisboa, onde cheguei a ter aulas nas cavalariças do Exército. Fiz o estágio integrado e a minha filha mais velha, hoje com 32 anos, nasceu quando eu estava no quarto ano.
Nunca fiz um currículo. Estudei e comecei logo a trabalhar enquanto docente. Comecei a dar aulas em São João da Talha de manhã e à noite, já com um bebé. Foi difícil. Gostava de dar aulas de Português, mas só a partir do 9.º ano. A gramática está muito diferente daquela que aprendi. Com o acordo ortográfico mudou muita coisa e há coisas que, em Português, me deixam completamente fora de mim, até mesmo na televisão. Uma guerra que tenho com os meus alunos, por exemplo, é dizerem “vou na reprografia” em vez de “vou à reprografia”. O maior disparate que já fiz na vida foi ter sido convidada, em 1999-2000, para fazer parte de uma comissão executiva e ter recusado. Custa-me ter ido dar aulas com a minha filha pequena.
A minha paixão é ensinar. É desafiante tentar fazer com que os alunos gostem de estar na sala de aula, que consigam aprender conteúdos, e que lhes consiga passar também valores. A nossa sociedade está a perder muitos valores como o companheirismo, a solidariedade e o amor uns pelos outros. Antigamente, o professor era aquele que expunha e transmitia conhecimento, o que avaliava. Hoje, o professor é mãe, pai, avó, amigo, alguém que os alunos sabem que podem sempre contar. Estamos ali para tudo.
A inteligência artificial nunca pode substituir-me nem a nenhum professor. Falta-lhe a parte humana. Mas é uma óptima ferramenta quando bem utilizada. No entanto, os miúdos aprendem é com as pessoas. Eu lia Florbela Espanca quando estava na escola primária e a primeira coisa que escrevi foi um poema. Escrevia e fazia histórias para as bonecas. No 11.º ano, por causa do filme “E Tudo o Vento Levou”, pensei em escrever uma história sobre os direitos humanos e guerras civis. Escrevi em Inglês.
Nunca li nada de grandes autores. Gosto de Frances Burnett, livros de crianças e histórias cor-de-rosa, como o meu mundo. Sou uma pessoa muito feliz. É nosso dever sermos felizes e aproveitar todos os bocadinhos. Quem me incentivou a escrever e a enviar textos para O MIRANTE foi a minha colega professora e amiga, Maria do Carmo, a quem chamo de Carminho. Ela leu uma acta escrita por mim e pensou que estava a ler um conto de fadas. A “Ode à Amizade”, segundo texto que escrevi para o jornal, é uma homenagem a ela.
Houve sempre uma força superior que nunca me fez cair. Acredito em Deus porque nunca houve nenhum obstáculo no meu caminho que não se tivesse diluído por completo. Fico triste por ver que as pessoas não se respeitam umas às outras. Fico triste por ver a guerra na Ucrânia, a violência. Fico triste por ver as adolescentes de hoje em dia. Estou apreensiva com o futuro. Estão-se a deixar iludir como há 40 anos, há um retrocesso completo. Há adolescentes que colocam uma aplicação nos telemóveis dos namorados/as para verem onde eles estão em tempo real. É triste.
O papel da escola é incentivá-los a serem eles próprios e a não deixarem que nada nem ninguém lhes tire a identidade. É isto que eu tento fazer todos os dias, ando sempre a chateá-los, tipo mãe (risos). Escrevi um romance em que pus tudo cá para fora e tem o título do último texto que escrevi para o jornal: “Rostos de Mulher”. Esse romance há-de ser editado.
Não saio de casa sem ver a meteorologia. Tenho redes sociais mas peço ajuda à minha filha. Partilho pouca coisa. Como fico um pouco vaidosa, que também tenho direito, partilho os meus artigos que saem no jornal. Recordo as histórias que a minha mãe contava. O meu coração está dividido em quatro pedaços: marido, duas filhas e falta-me o da minha mãe, que perdi há mais de uma década. Mas exorcizei a tristeza com o romance que escrevi. O poeta é um fingidor. Um escritor, mesmo amador como eu, finge tanto (risos), mas sempre com a verdade. Gosto dos heterónimos e adoro Ricardo Reis e Caeiro, que me dão muita paz.