“A inovação nasce de sonharmos com algo que ainda não existe”
Filipa Caetano tem 24 anos, nasceu e cresceu em Santarém e está a concluir o mestrado na área de Engenharia Química. É coordenadora-adjunta do Grupo de Jovens Engenheiros da Ordem dos Engenheiros da Região Sul e acredita que a inovação nasce do equilíbrio entre sonhar e manter os pés na terra.
Nasci e cresci em Santarém e desde pequena que o campo e os cavalos fizeram parte da minha vida. A paixão pelos cavalos veio da minha mãe e foi o meu avô materno que me ensinou a montar, apenas pela prática e pela confiança. Cresci assim, entre a liberdade de andar a cavalo e sempre com uma curiosidade constante pelo que me rodeava. Ainda hoje, já com 24 anos, sempre que volto a Santarém, regresso também a esse lugar onde tudo começou, pois ali encontro equilíbrio.
Cresci com dois irmãos mais novos, um de 19 anos e outro de 7, e sempre com o apoio incondicional da minha família. Durante algum tempo não soube bem o que queria ser. Pensei em veterinária, influenciada pelo amor aos cavalos, mas percebi que não tinha estômago para lidar com animais doentes. Ao mesmo tempo, sempre fui boa a matemática e ciências e no secundário, um professor de Química cativou-me de tal forma que me fez perceber que queria seguir Engenharia Química, escolhendo conscientemente uma área exigente, que me desafiasse.
Fui para Lisboa estudar no ISEL. Foi uma saída grande da zona de conforto, mas que foi essencial para crescer, ganhar autonomia e perceber quem sou. Estou a terminar o mestrado no ramo de processos químicos e encontro-me a desenvolver uma tese sobre a síntese de complexos de ferro com potencial anticancerígeno. É um trabalho muito ligado à investigação e numa área que me diz algo também a nível pessoal, pois o meu avô paterno tem cancro há dois anos. Gostava de poder ajudar pessoas que sofrem desta doença. Apesar disso, não me vejo na investigação pura e dura. Gosto de dinamismo, de desafios constantes e resolver problemas reais, pois eles vão existir sempre, o que muda é a forma como lidamos com eles.
Sonhar é o que nos faz arriscar. Querer ir à procura de algo melhor, algo que faz toda a diferença, é inerente à engenharia. Desde pequena, sempre tive tendência para sonhar muito e ir à procura daquilo que não está imediatamente à vista, mas que pode vir a transformar-se em algo concreto. Em casa, esse lado mais sonhador sempre foi equilibrado com uma forte ligação à realidade, pois os meus pais são pessoas mais com os pés na terra. O meu pai é PSP e a minha mãe é gerente de um supermercado, então trabalham diariamente com dados e factos. Na engenharia também trabalhamos com isso, mas precisamos de ter uma ideia do que pode vir a acontecer, de antecipar cenários e garantir segurança, para que o pior não aconteça. A inovação nasce daí, de sonharmos com algo que ainda não existe.
A engenharia ensinou-me a resolver problemas, mas o meu percurso tem-me ensinado a trabalhar com pessoas. Talvez por isso o meu primeiro emprego tenha sido fora da engenharia tradicional. Estagiei no MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, onde fazia visitas guiadas, workshops e lidava diariamente com públicos muito diferentes. Foi um ponto de viragem, pois como era bastante introvertida, o contacto directo com pessoas obrigou-me a comunicar e adaptar-me a diferentes personalidades. Hoje sei que essas competências são tão importantes como qualquer conhecimento técnico e foi também essa faceta mais activa e dinâmica que me levou à Ordem dos Engenheiros.
Inscrevi-me na Ordem dos Engenheiros há cerca de dois anos. No início foi mais por criar contactos e porque a quota de estudante é só 15 euros anuais, mas com o tempo conectei-me mais com a importância da Ordem em dar credibilidade à profissão, defender os engenheiros e promover formação contínua. Hoje sou coordenadora-adjunta do Grupo de Jovens Engenheiros da Região Sul, um núcleo que nasceu apenas em Julho de 2025, mas que já é muito activo e que envolve jovens dos 18 aos 35 anos. No grupo trabalhamos em equipa, sem hierarquias rígidas, com o objectivo claro de valorizar a engenharia, aproximar os jovens da Ordem e preparar o futuro da profissão.
A engenharia em Portugal perdeu valorização e muitos jovens acabam por emigrar porque não vêem condições para ficar. Falta reconhecimento, salários ajustados à formação e oportunidades reais de progressão e eu sinto a falta de engenheiros em Portugal no próprio dia-a-dia e desenvolvimento do país. A nível regional, também há muito potencial por explorar.
Santarém é uma cidade calma, com qualidade de vida, forte ligação à agricultura e às estruturas agrárias. Podia beneficiar muito mais da engenharia, seja na reabilitação urbana, na gestão da água ou na agricultura sustentável. Para tal acontecer, acho que se deve também apostar numa articulação mais eficaz entre empresas e instituições de ensino, pois se as empresas investissem mais cedo nos jovens, através de estágios e parcerias, seria mais fácil fixar talento na região.
O meu irmão de 19 anos quer ser engenheiro agrónomo e ficar a trabalhar na região. Há esse interesse da parte de muitos jovens, mas muitas vezes não é aproveitado pelas empresas. Falta saber capitalizar essa vontade genuína dos jovens, criando oportunidades concretas que os permitam construir aqui o seu futuro. Não sei exactamente onde estarei daqui a um ou dez anos, mas sei que quero um trabalho dinâmico, com impacto e ligado às pessoas. Gostava de ficar em Portugal e, se possível, também manter uma ligação à minha terra. Sempre acreditei que é preciso ter um pé assente na terra, mas o outro deve estar a voar e foi isso que sempre fiz desde criança: pensar para lá do óbvio, questionar, imaginar soluções. A engenharia é muito isso - pessoas que resolvem problemas, mas que também se atrevem a pensar mais alto e inovar. E Portugal e o mundo precisam urgentemente disso.


