Três Dimensões | 21-01-2026 21:00

“É inadmissível haver tribunais administrativos e fiscais a decidir processos em 20 anos”

“É inadmissível haver tribunais administrativos e fiscais a decidir processos em 20 anos”
TRÊS DIMENSÕES
Ana Arsénio, 39 anos, advogada na M Advogados, em Santarém - foto O MIRANTE

Ana Arsénio é advogada na M Advogados, em Santarém. Criada em Fazendas de Almeirim, define-se como uma pessoa alegre por natureza e mais empática desde que foi mãe. Diz que as pessoas têm de ter mais confiança no sistema judiciário, mas reconhece que a Justiça, nalguns casos, continua a ser muito lenta.

Nasci em Santarém mas vivi e cresci em Fazendas de Almeirim. Fiz o meu percurso escolar entre as Fazendas e Almeirim, até aos 18 anos. Foi uma infância feliz. As melhores memórias que guardo são as brincadeiras com os meus avós. Andava de bicicleta, corria, brincava, fazia muitos jogos com eles na terra. Foi uma infância de muita brincadeira livre na rua que já não conseguimos transportar tanto para os dias de hoje. Dantes não havia perigos e riscos como os carros ou a presença de estranhos. Havia um sentimento de comunidade onde todos se conheciam.
Sou filha única e fui a primeira licenciada da família. Soube desde cedo que queria seguir Direito, talvez por ser muito pragmática. Sempre quis fazer parte da solução e não do problema. É assim que vejo e levo a vida. Não tinha na família ninguém ligado ao meio e confesso que foi difícil. Logo na primeira aula, na Universidade Nova, em Lisboa, senti que estava a entrar num novo mundo, onde nem os termos utilizados pelos professores conhecia. Tinha sido boa aluna até então, mas ali era apenas mais uma.
Não tinha o desejo efectivo de voltar a Santarém depois dos estudos, mas por circunstâncias da vida regressei e ainda bem. Consegui estágio no escritório M Advogados, agora sediado no Largo do Seminário, em Santarém, onde trabalho há 15 anos e do qual sou associada. Foi neste escritório que conheci o meu marido, Ramiro Matos, de quem fui estagiária e com quem tenho duas filhas de sete e quatro anos. A minha área é o Direito Administrativo e Direito Público, mas também gosto de trabalhar casos de Direito da Família. Um dos casos que mais me marcou envolvia uma alienação parental muito forte exercida por um dos progenitores, sendo que o outro acabou por ficar sem as crianças.
Ser mãe tornou-me mais empática e mudou a minha forma de trabalhar e de organizar o tempo. Ter duas crianças é muito exigente e se dantes levava trabalho para casa, hoje tento resolver de outra forma para poder estar tempo com elas a 100%. Levanto-me mais cedo para começar a trabalhar ou, quando consigo, depois delas adormecerem. Os meus pais sempre exigiram muito de mim e acho que projecto isso nas minhas filhas sendo exigente com elas. Às vezes tenho de me pôr um travão. Como trabalho com o meu marido muitas vezes há conversa sobre trabalho às refeições. É difícil fugir, mas lidamos bem com isso.
As pessoas têm de ter mais confiança no sistema judiciário. Mas talvez essa confiança esteja dependente da necessidade de respostas mais céleres. Há tribunais administrativos e fiscais a decidir processos em 15 e 20 anos, o que para as empresas, para as entidades públicas, é inadmissível. Também os tribunais de família, que decidem questões tão importantes que mexem com a vida das pessoas, não trabalham com a celeridade desejável. Diria que precisamos de mais recursos humanos, tanto a nível de secretaria como de magistratura.
A inteligência artificial faz parte da evolução. Temos de olhar para ela como uma ajuda ao nosso trabalho, não como uma substituta desta profissão. Não acredito que venha a sê-lo, pelo menos espero que não. Mas veio dar-nos uma capacidade de trabalho tremenda, até porque os clientes estão mais exigentes, querem respostas boas e rápidas. Não concordo com a imposição de pena de morte e acho que mais importante que os anos de pena atribuídos é a aposta na reinserção das pessoas na sociedade. Isso é que precisa de ser trabalhado e melhorado. Até porque há pessoas a quem basta um ano para se penalizarem pelo crime que cometeram e para outras 25 não chegam.
Sou alegre por natureza e de sorriso fácil. Gosto de ver a vida pelo lado positivo, de sentir e de criar empatia com as pessoas. Não gosto de falhar ou desiludir as pessoas, mas hoje tento não me culpabilizar tanto e aceitar o erro com naturalidade. Só não erra quem não faz. Gosto de antever conflitos, o que se reflecte ao nível profissional, por exemplo na contratação pública. Procurar um advogado numa fase inicial é muito melhor do que depois correr atrás do prejuízo e andar anos nos tribunais, por exemplo, por peças de procedimento mal sedimentadas.
Valorizo a sinceridade e aqueles que se conseguem colocar no lugar do outro. Não gosto de pessoas que não têm consideração pelas outras e que não são justas. Vivo em Santarém e gosto da proximidade com todos outros pontos do país e do conforto que a cidade me traz. Santarém tem evoluído, há mais movimento e eventos nas ruas; está no caminho certo. Gosto de ter amigos por perto e de conviver com eles.
Adoro gastronomia mas não sou boa cozinheira. Prefiro um bom livro a um bom filme, mas com a maternidade passei a ler menos. Gosto de fazer desporto e não saio de casa sem pôr perfume nem sem me certificar que tenho tudo o que é preciso para as minhas filhas. Antes dos 40 gostava de aprender a gerir melhor o meu tempo, de fazer uma viagem à Ásia ou a África para explorar um safari e sair da minha zona de conforto.

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