Três Dimensões | 04-02-2026 10:00

“O contabilista é uma espécie de confidente, um bombeiro de serviço”

“O contabilista é uma espécie de confidente, um bombeiro de serviço”
TRÊS DIMENSÕES
Rogério Mesquita, contabilista e professor, defende mais planeamento, ordem e visão de médio prazo para o país, num retrato crítico da economia, da educação e do Estado - foto O MIRANTE

Rogério Mesquita nasceu em Vila Chã de Ourique, em 1966, é contabilista desde 1988 e professor no ensino profissional desde o início da década de 1990. Ao longo de quase quatro décadas de trabalho, entre gabinetes de contabilidade e salas de aula, acompanhou a transformação do país, das empresas e da escola. Hoje é director técnico e sócio-gerente da Traduz Resultados, empresa de contabilidade e fiscalidade localizada no Porto Alto. Recorda a infância num Portugal “cinzento”, as dificuldades das empresas e a fragilidade social de um país que, na sua opinião, se foi amordaçando a si próprio.

O meu nome é Rogério Mesquita, nasci em Vila Chã de Ourique, no Cartaxo, vou fazer 60 anos. Nasci em 9 de Fevereiro de 1966, sou contabilista desde 1988, ainda não havia a Ordem, trabalhei em gabinetes de contabilidade. Estudei no ISLA Santarém e no ISLA Lisboa. Quando acabei o curso, fiz o serviço militar obrigatório e, quando saí, uns colegas telefonaram-me a convidar se eu queria ir para o ensino profissional, que era uma aventura que estava a nascer no país.
Em 1992 entrei na Escola Profissional de Salvaterra de Magos, onde ainda me mantenho. Embora tenha havido muitas mudanças, na altura aquilo foi mesmo um movimento, um impacto muito forte. Hoje esse impacto já é diferente. Continuamos com força, mas, na minha opinião, devia ter uma força maior. Já tive funções directivas, já fui director pedagógico, director de turma e outros cargos. Neste momento sou só professor e também tenho funções a nível da contabilidade, como contabilista certificado. Junto a minha actividade profissional de contabilidade com o ensino.
Sou focado no trabalho e um pouco teimoso. Sempre vivi no Ribatejo. Sou casado e tenho dois filhos. Há mais vida para lá do trabalho, mas gostava que o país tivesse planeamento, ordem e visão a médio prazo. Cresci num país muito cinzento, muito oprimido, com a tristeza da guerra. Ouvia-se muito a rádio, o teatro à noite, para aliviar. Falava-se pouco da guerra porque o país vivia uma época de censura. É com espanto que vejo hoje pessoas que querem um regresso a esses tempos. Brincava-se muito na rua, de manhã à noite. Jogava-se à bola, subia-se às árvores, andava-se a apanhar ninhos e a roubar fruta. Não havia computadores nem nada dessas coisas. Havia mais contacto uns com os outros, que hoje não existe. São mundos diferentes.
Naquela altura gostava mais de letras e de História. Depois saí de Vila Chã de Ourique e fui morar para Sacavém, já a seguir ao período revolucionário. Aquilo era uma zona com muita força industrial. Hoje não vemos nada, está tudo fechado. A metalúrgica pesada, a Azambuja com a Ford e a Opel, tudo desapareceu. Isto é uma tragédia diabólica a nível de força de trabalho e de empresas. Trabalhei numa pastelaria do meu padrasto. Depois viemos para Samora Correia, onde ele se estabeleceu. Trabalhei ali dez anos e continuei sempre a estudar até começar a trabalhar num gabinete de contabilidade em Samora Correia.
A década de 90 foi uma década de ouro. Não havia desemprego, as pessoas mudavam de emprego como quem mudava de camisa. A grande revolução destes 50 anos foi a entrada de Portugal na CEE. O euro veio subtrair os bolsos das pessoas. Isso é sentido, mas muitos não querem falar nisso. Quando entrou em circulação o euro também houve uma desgraça, que foi o crédito barato. Deu-se muito crédito, muita gente encheu-se de dívidas com a mentalidade de que depois se paga. Nunca mais voltámos ao mesmo.
O país está amordaçado. Os poderes intermédios dominam a máquina e asfixiam o país. Não é com dinheiro que se resolve a saúde, é com logística, organização e disciplina. Outra coisa que está a passar imune à crise é a justiça. Ninguém toca nela. A justiça tem a mesma matriz do Estado Novo. É um corporativismo, um mundo à parte, com o seu próprio timing. Mas o país precisa de crescer.
Por que razão não temos mais investimento estrangeiro? Porque há demasiadas perguntas. Quanto tempo demora a resolver um problema ou um litígio com trabalhadores? Dez anos. Já não querem vir para Portugal. Isso faz diferença. Todos os anos muda a política fiscal. Como é que pode haver planeamento fiscal? Devia haver planeamento a dez anos e não a cada ano. Assim ninguém se consegue orientar a médio ou longo prazo.
As pessoas têm pouca literacia financeira. Os bancos não são pedagógicos, tentam vender os produtos que lhes interessam. A educação também tem um problema: não há planeamento a médio-longo prazo. As aulas são dadas em pacote. Há mais vida para lá da escola. O que me entristece é ver que a qualidade de vida das pessoas piorou. Alunos que não comem, idosos em lares clandestinos, falhas na justiça e na protecção social. Estamos a aceitar uma contradição do sistema.
O contabilista é uma espécie de confidente, um bombeiro de serviço. Faz tudo. As empresas não apostam em serviço administrativo. Tivemos pessoas que criaram empresas há trinta ou quarenta anos, alguns analfabetos, mas com iniciativa e audácia. Depois veio a segunda geração e manteve ou acrescentou um bocadinho. Agora vemos uma terceira geração em que alguns dão cabo das empresas. São licenciados, mas falta-lhes audácia. Querem o dinheiro fácil, querem ter acesso às coisas. Esta competitividade, se um tem o outro também quer ter, é um bocado bacoca. Tenho clientes que já fazem projecções para 2028 ou 2029 e tenho outros que nem por sombras querem falar disso. Nem têm noção do que é uma empresa.
Não somos aliados do Estado, somos executores. Se não fossem os contabilistas a ajudar a cobrar impostos, o que seria deste país? A carga fiscal está complicada. Há muitos impostos. Recordo-me do presidente da Associação Industrial Portuguesa (AIP), José Eduardo Carvalho, referir que havia cerca de 4.300 taxas e impostos, o que é uma barbaridade. Vou às Finanças tratar de IRS, IRC e IVA e tenho de ir a três departamentos diferentes, que não falam entre si. É necessário haver aqui uma grande reforma. Tenho alguma fé no Ministério da Reforma do Estado, mas os poderes instalados têm muita força.
O Porto Alto, onde trabalho, já teve uma fábrica de material de guerra. Depois houve a grande indústria, depois vieram as lojas dos trezentos, os construtores e os chineses. As metamorfoses foram muitas e agora segue-se o desafio do aeroporto.

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