Três Dimensões | 18-02-2026 21:00

“Cada vez é mais difícil lidar com o público”

“Cada vez é mais difícil lidar com o público”
TRÊS DIMENSÕES
Vera Rosa, proprietária do restaurante O Picadeiro, em Tomar - foto O MIRANTE

Vera Rosa, 47 anos, proprietária do restaurante O Picadeiro, em Tomar, cresceu praticamente dentro do negócio da família. Três décadas depois de ter começado a trabalhar no restaurante da mãe, fala das decisões difíceis, da relação com os clientes e de uma vida construída à base de trabalho, sacrifício e dedicação.

Estou no restaurante O Picadeiro há 30 anos, praticamente cresci aqui. O restaurante era e ainda é da minha mãe. Vim para O Picadeiro tinha 19 anos. O restaurante ainda estava localizado nas Algarvias, onde começou. Estivemos lá alguns anos, eu e a minha mãe a trabalhar como funcionárias. A minha mãe depois ficou com o trespasse do restaurante e cá estamos até hoje. Posteriormente, o meu irmão também se juntou a nós. Estivemos no restaurante das Algarvias durante 13 anos e aqui na cidade de Tomar estamos há 17 anos.
Deixámos o outro restaurante porque o edifício estava muito degradado. Era um edifício com mais de 50 anos e não estava preparado para ser um restaurante, era uma cavalariça, daí o nome Picadeiro. Começámos a ter muitos problemas no telhado, infiltrações e já corríamos riscos, até porque houve derrocadas ao lado. Surgiu-nos depois a oportunidade deste terreno, que era só mato. Foi um passo muito difícil. Eu, a minha mãe e o meu irmão tivemos de tomar uma decisão: ou fechávamos e o Picadeiro deixava de existir em Tomar; ou colocávamos mãos à obra e arriscávamos tudo o que tínhamos e o que não tínhamos num novo espaço.
Isto é mesmo um negócio de família. Até a equipa que temos e que permanece é praticamente toda família. Claro que vão rodando alguns elementos, mas há pessoas que estão aqui há muitos anos. Neste momento temos quatro funcionários e não é o suficiente. Temos muita dificuldade em arranjar mão-de-obra, principalmente gente que queira realmente trabalhar. Para trabalhar em restauração é preciso fazer alguns sacrifícios. Cada vez mais temos de recorrer à mão-de-obra que não é portuguesa, quando nós temos portugueses que sabem trabalhar nesta área, mas que não se querem sujeitar.
A minha mãe continua à frente do restaurante, embora já não esteja aqui tanto tempo como eu e o meu irmão. Não tomamos decisões sem o consentimento dela. Neste momento sou eu e o meu irmão que estamos a administrar o restaurante. Estamos sempre a evoluir e a aprender. Somos de cozinha tradicional portuguesa, mas dentro desse registo procuramos inovar, trazendo produtos que estão um pouco esquecidos na nossa cozinha tradicional.
Aqui no restaurante sou chefe de sala. Tenho um grande contacto com os clientes e gosto muito disso. Apesar disso, nestes últimos anos cada vez é mais difícil lidar com o público. As pessoas estão mais impacientes, têm mais dificuldade em perceber o outro e perceber que o outro também falha. Muitas vezes chegam aqui já aborrecidas com a vida delas e descarregam tudo em nós. Para mim, as críticas são muito proveitosas, fazem-nos crescer, mas têm de ser críticas construtivas e não críticas que nos derrubam.
Nasci em Tomar e passei parte da minha infância, até aos 15 anos, na parte velha da cidade. A minha mãe era empregada da fábrica da fiação e o meu pai era padeiro. Foi uma infância boa e feliz, numa família de origens muito humildes e de muito trabalho. Infelizmente, o meu pai faleceu quando eu tinha 17 anos, com um tumor na medula. Foi uma fase muito complicada das nossas vidas. O meu pai era pai, era o melhor amigo, era o pilar lá de casa. Para a minha mãe era o amor da vida dela. A ausência dele mudou tudo.
Estudei em Tomar até ao 12.º ano e depois fui tirar formações profissionais de restauração. Decidi não ir para o ensino superior porque, com a morte do meu pai, a minha mãe ficou sozinha com dois filhos e tivemos de a ajudar. A nossa vida mudou drasticamente. Comecei a trabalhar logo quando saí da escola. A restauração não era uma área que eu desejava, mas foi uma área pela qual me apaixonei. Aprendi muito no Picadeiro. A restauração é só para quem gosta. É preciso muita dedicação, é desgastante, mas acaba por ser compensador porque estamos sempre a descobrir coisas novas.
O maior desafio que encontro no meu trabalho é lidar com as pessoas. O trabalho em si não é um desafio. Podemos ter um serviço com muita logística, muito trabalho e muita dedicação, mas isso não me assusta. Temos muitos clientes, clientes habituais e turistas. Conseguimos manter o mesmo número de clientes ao longo dos anos. O Verão e as épocas festivas são as nossas melhores alturas. Estamos abertos todos os dias aos almoços e os jantares são por reserva.
A nossa especialidade aqui no restaurante é o bacalhau e a vitela. Temos um bacalhau que é único, uma criação nossa, que é o Bacalhau à Capítulo, coberto com bechamel, acompanha com castanha, presunto e batata frita à rodela. Já fomos premiados com esse prato. O restaurante já tem alguns prémios. Vamo-nos candidatando a prémios, uns anos ganhamos, outros não.
Sou divorciada e não tenho filhos. Tenho uma vida de grande dedicação ao restaurante e isso tira tempo para outras coisas. A vida pessoal fica um pouco na prateleira. Lido bem com isso. Neste momento já não imagino a minha vida fora do restaurante. Nos tempos livres adoro o mundo dos vinhos. Foi uma paixão que foi crescendo em mim. Sou confrade da Confraria Enófila de Nossa Senhora do Tejo e sou embaixadora da Associação dos Escanções de Portugal aqui em Tomar. Tudo o que esteja ligado ao vinho e em que eu possa participar, participo.
Sou uma pessoa muito preocupada com os outros, talvez até demais. Profissionalmente, tento ser o mais cordial possível, mas sou muito exigente. Sei que às vezes não sou tão bem vista por causa dessa exigência. Sob pressão posso ser um pouco brusca, mas é algo que tenho vindo a trabalhar. Muitas vezes o silêncio é a chave para colmatar um problema.

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