“Cada vez vai haver menos gente a trabalhar nas oficinas”
Paulo Ramiro fundou a oficina e serviço de reboques Ramiro & Ramiro, em Alpiarça, há três décadas. Cresceu entre o campo e a mecânica, aprendeu cedo o valor do trabalho e hoje gere um negócio exigente com os mesmos princípios que herdou dos pais: honestidade e seriedade.
Cresci em Alpiarça, terra onde construí praticamente toda a minha vida pessoal e profissional. Foi aqui que, em 1996, ao lado dos meus pais, dei início à empresa que ainda hoje dirijo. É um projecto familiar que nasceu com ambição, mas sem imaginarmos até onde poderia crescer, especialmente com o serviço de reboques que começámos nessa altura e que rapidamente se tornou uma parte essencial do negócio. O meu pai já trazia consigo largos anos de experiência na mecânica e foi inevitável que grande parte do que sei tivesse origem na observação do seu trabalho, embora os meus primeiros passos profissionais não tenham sido dados directamente ao seu lado. No início ele não quis que trabalhássemos juntos, com receio de que a exigência do trabalho pudesse interferir na relação entre pai e filho, levando-me a aprender noutra oficina antes de regressar e criarmos a nossa própria empresa.
Mesmo depois de reformado, aos 74 anos, o meu pai mantém o hábito de passar pela oficina. Ajuda no que pode e preservando uma rotina que lhe dá energia e sentido, algo que sempre fez parte da sua forma de estar. Cresci a vê-lo dividir-se entre o campo e a mecânica, num ritmo de sacrifício constante que também marcou a vida da minha mãe, profundamente ligada à agricultura. Foram ambos exemplos de esforço, honestidade e seriedade, valores que absorvi naturalmente e que hoje procuro transmitir tanto aos meus filhos como às pessoas que trabalham comigo. Acredito que a forma como se constrói um negócio está inevitavelmente ligada ao carácter de quem faz parte dele e de quem o lidera.
Desde muito cedo percebi que este seria o meu caminho. Nunca senti vontade de procurar outras profissões ou trabalhos fora de Alpiarça, porque esta vila representa para mim mais do que um local de trabalho, dá-me tranquilidade e qualidade de vida. Além disso adoro o que faço. O que mais me motiva nesta profissão são os desafios técnicos, especialmente aquelas reparações que parecem não ter solução e que exigem persistência, raciocínio e experiência. A satisfação de encontrar uma resposta para um problema complexo compensa horas de esforço e é nesses momentos que sinto verdadeiramente o valor do trabalho que faço. Em contraste, o que mais me custa é lidar com situações pontuais de falta de respeito de alguns clientes, que felizmente são raras. Entristece-me porque colocamos dedicação genuína em cada serviço e esperamos o mesmo nível de consideração.
Gerir uma oficina e um serviço de reboques é assumir um compromisso praticamente permanente. Especialmente na vertente dos reboques, em que mesmo com equipas organizadas e turnos definidos, estou sempre em alerta, podendo surgir pedidos a qualquer hora. Temos 500 serviços por ano e todos os dias temos à volta de 18 pedidos de reboque. É um ritmo exigente, mas quando consigo tirar algum tempo para estar com a família e viajar consigo desligar e descontrair. Entre várias experiências, a viagem recente que fiz ao Egipto permanece como uma das mais marcantes, não apenas pelo destino, mas pela memória partilhada.
Também encontro prazer na caça com a minha família, mais pelo convívio que proporciona, do que pela actividade em si. Ao longo dos meus 51 anos anos aprendi a ser mais ponderado, pois a idade traz calma e experiência. Hoje penso mais antes de agir e encaro os problemas com outra serenidade. Já passei por momentos difíceis, tanto pessoais como profissionais — um divórcio com filhos pequenos e a decisão de deixar o corpo activo dos bombeiros, onde servi quase 30 anos. Foram escolhas duras, mas que fizeram parte do meu percurso.
A nível profissional, o sector onde trabalho tem desafios grandes. Há concorrência desleal de quem trabalha sem cumprir regras, tabelas mal pagas pelas seguradoras, que nem sempre acompanham os custos reais de um serviço como o de reboque, que funciona 24 horas. Soma-se a isso a dificuldade em encontrar mão de obra qualificada, pois os jovens já não têm grande interesse nesta profissão. Cada vez vai haver menos gente a trabalhar nas oficinas. Há falta de incentivo. Mas acredito que cursos profissionais com estágios nas oficinas poderiam fazer a diferença e ajudar a fixar os jovens nas oficinas.
O meu negócio tem crescido. O número de clientes aumenta e muitos vêm de fora da vila, sinal de que o serviço é reconhecido. Este é um sector em evolução permanente. Continuamos a investir constantemente em equipamentos e melhorias, mas sempre com ponderação. Quando penso no futuro, imagino que um dia passe o negócio a alguém e abrande o ritmo. Não me vejo parado, mas este é um trabalho exigente. Após me reformar não vou continuar neste negócio. Os meus filhos seguiram outros caminhos e não poderão dar continuidade à oficina, mas alguma solução há-de aparecer.
Sempre acreditei que é possível ganhar a vida com honestidade e respeito. No final de cada dia, o que me faz sentir realizado é chegar a casa com saúde, saber que fiz o meu melhor e que consegui manter a empresa estável, sem prejudicar ninguém. Procuro ser o mais humano possível e é assim que gostava que as pessoas se lembrassem de mim.


