Três Dimensões | 04-03-2026 07:00

Santarém perdeu a alma e a Justiça continua a arrastar-se por falta de coragem política

Santarém perdeu a alma e a Justiça continua a arrastar-se por falta de coragem política
TRÊS DIMENSÕES
Carlos Alberto Silva trabalha como forense e tem escritório no número 53 da Rua Pedro de Santarém, em Santarém - foto O MIRANTE

Nasceu, cresceu e fez-se homem em Santarém. Carlos Alberto Silva assistiu ao tempo em que o centro histórico da cidade tinha comércio vibrante, ruas cheias e vida nocturna. Trabalha há 27 anos nos bastidores da Justiça, percorreu o país de tribunal em tribunal e construiu uma opinião firme sobre política, poder e responsabilidade pública.

Nasci, cresci, estudei e trabalho em Santarém. A minha vida foi, essencialmente, feita aqui. Embora tenha passado alguns anos em Lisboa por causa do trabalho, nunca deixei de ter Santarém como centro. E, também por isso, custa-me dizer: a cidade que vivi já não existe. Lembro-me de uma Santarém cheia de comércio, com movimento nas ruas, com um centro histórico vivo. Eu e a minha mulher íamos à noite ver montras de carro. No dia seguinte já sabíamos onde ir comprar os sapatos ou a camisa que tínhamos visto. Havia luz, havia gente, havia vida. Hoje, as lojas estão fechadas, os carros não passam, o centro é um deserto urbanístico, velho, caduco. Recuperar aquilo vai exigir muito dinheiro e muitos anos.
Estudei na antiga Escola Industrial e Comercial, no tempo em que havia pátio das raparigas e pátio dos rapazes. No 25 de Abril de 1974, um chaimite parou à porta da escola e mandaram-nos para casa. Para nós foi uma festa. São memórias de uma cidade com identidade, com peso enquanto capital de distrito. Comecei a trabalhar a 1 de Abril de 1978, com 17 anos. Queria ir para a escola agrícola porque gostava da área, mas o meu pai não deixou. Entrei para um escritório de advogados em Santarém e mais tarde trabalhei também em Lisboa. Durante 27 anos fui o braço-direito de vários advogados. Tratava dos prazos, dos pagamentos das custas, dos requerimentos, acompanhava processos de norte a sul do país. Conheci tribunais em Chaves, Braga, Porto, Évora, Beja, Lisboa.
Gastei dois carros só em quilómetros, em trabalho. Foi nos tribunais que vi o melhor e o pior da justiça. Sempre se disse que a justiça era lenta. Antigamente era tudo à máquina de escrever, sem computadores. Hoje temos tecnologia, plataformas electrónicas, e continua lenta. Foram criadas medidas dilatórias que permitem o arrastar processos. Para mim, a responsabilidade não é dos juízes nem dos funcionários judiciais. Eles aplicam a lei. Quem faz a lei é o poder legislativo. Se querem uma justiça mais célere, mudem as leis. Mas falta coragem política...
A corrupção sempre existiu. Não me esqueço do dia em que fui fazer o registo de uma penhora e disseram-me que havia três modalidades: normal, urgente e muito urgente. O normal demorava três anos, o urgente um ano e o muito urgente uma semana. O valor oficial era cinco mil escudos, mas para o muito urgente pediram-me 30 mil, e tinham de ser pagos em dinheiro. Paguei, porque não queria estar anos à espera, e fiquei com o recibo dos cinco mil.
O advogado de proximidade perdeu espaço e rendimento. Quando comecei havia onze advogados na Comarca. Hoje são centenas. Não há clientes para tantos. A proliferação de faculdades de Direito, o aparecimento das privadas e o crescimento dos grandes escritórios em Lisboa e no Porto esmagaram o advogado de província. Actualmente trabalho por conta própria, colaborando com quatro advogados de Santarém. A profissão mudou radicalmente.
Fui militante do CDS durante mais de 40 anos. Hoje dou o benefício da dúvida a quem aparece com vontade de mudar, porque PSD e PS governaram décadas e o país pouco mudou. A nível local, ando há mais de 30 anos a ouvir falar na requalificação da Ribeira. E a Ribeira continua a cair. Pergunto: onde estão as creches? Onde estão as respostas para os idosos? Santarém é uma população envelhecida. Há muita gente com reformas baixas. Para entrar numa instituição é preciso dinheiro que muitos não têm. Fala-se em milhões para obras e festas, mas as necessidades básicas continuam por resolver.
Sou uma pessoa honesta e anticorruptível. Nunca me deixei corromper, apesar de ter sido aliciado várias vezes. Prefiro uma verdade dura a uma boa mentira. Quando desligo o botão, desligo mesmo. Não sou de meios-termos. Se tenho razão, bato o pé. Se não tenho, peço desculpa. O momento mais marcante da minha vida foi o nascimento do meu filho. Tenho mais dois, filhos da minha mulher, que são como se fossem meus também. Hoje sou avô e tenho mais paciência para a minha neta do que tive para o meu filho. É verdade: os avós servem um bocadinho para estragar os netos.
Sou um homem de paisagem, que gosta da natureza, da serra, do mar. Percorri Portugal e Espanha quase de ponta a ponta com o meu Nissan Terrano, que já tem mais de 400 mil quilómetros. É um carro que vai onde os outros não vão e que está cheio de boas memórias. Quando estou na Serra da Estrela, na Malcata ou no Alentejo profundo, sinto-me em casa. Fui caçador e a Expo Caça em Santarém veio para cá por causa de uma equipa da qual fiz parte, com pessoas de várias forças políticas que souberam pôr partidarismos de lado. Nessa altura fomos considerados pelo ministro da Agricultura, Capoulas Santos, como os pestinhas porque estávamos sempre em desacordo.
Não sou obcecado pelo dinheiro. Desde que tenha saúde e o suficiente para viver com dignidade, chega-me. Vivo um dia de cada vez. Mas não deixo de exigir mais da cidade onde nasci. Porque Santarém merece muito mais do que aquilo que lhe têm dado.

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