Três Dimensões | 18-03-2026 07:00

Marco Nunes:“A falta de empatia entristece-me”

Marco Nunes:“A falta de empatia entristece-me”
TRÊS DIMENSÕES
Marco Sousa Nunes é um homem que acredita no poder transformador do movimento associativo - foto O MIRANTE

Marco Sousa Nunes, 42 anos, é director executivo da Misericórdia de Vila Franca de Xira. Natural de Lisboa, viveu quase toda a vida na Póvoa de Santa Iria e entretanto estabeleceu residência em Arruda dos Vinhos, terra que diz ter muita qualidade de vida. Acredita que as parcerias com outras instituições sociais são positivas para a comunidade, teme que a duplicação da linha de comboio em VFX afaste as pessoas da zona ribeirinha e a desonestidade tira-o do sério.

Apesar de já não estar na Póvoa de Santa Iria, ainda mantenho uma forte relação com a cidade e tenho lá familiares a residir. Gosto de correr e por isso ainda vou muito à zona ribeirinha da cidade. É um local muito bonito. A cidade está diferente do que era antigamente mas precisa de algum desenvolvimento do ponto de vista do comércio e do movimento cultural, senão corre o risco de se tornar um dormitório e precisamos de criar algum dinamismo.
Já fiz muita coisa na vida e nunca tive medo do trabalho. O meu primeiro emprego foi como caixa de supermercado, um trabalho que é mais difícil do que a maioria das pessoas pensa. É incrivelmente desafiante. Já na altura havia como objectivos a passagem de pelo menos 25 produtos por minuto. Desde cedo quis ter a minha independência e quis ir trabalhar. Acabei por estudar engenharia mecânica e entrei numa empresa de construção civil que estava na altura do top 5 das maiores empresas de construção do país. Fui convidado para fazer um estágio na Guiné Equatorial, onde fiquei nove meses. Entretanto a minha filha nasceu e regressei à região, sempre continuando a fazer o meu crescimento na área da engenharia.
Vivi vários anos no Qatar e gostei muito. Fui director da área de engenharia de toda a empresa na zona da Ásia. Foi muito interessante. Liderava um departamento que tinha 300 pessoas de todo o tipo de nacionalidades e projectos de muitos milhões de euros. Entretanto a empresa começou a perder gás e a ter ordenados em atraso, até ser obrigada a pedir um plano especial de revitalização. Fiquei com vários meses de salário em atraso e decidi voltar para Portugal. Recomecei tudo do zero, sem medo de procurar novos empregos. Passei pela Tudor na Castanheira, a trabalhar por turnos.
Todos os gestores e líderes devem ter o cuidado de premiar o mérito e reter os melhores. Desde os meus tempos de estagiário que trago comigo essa grande preocupação com os recursos humanos das instituições. Todas as experiências ajudam a enriquecer-nos. Depois decidi aceitar um convite, na altura em que o Hospital de VFX era uma parceria público-privada, para ser director de infraestruturas e manutenção, no tempo da José de Mello Saúde. Foi uma experiência completamente diferente, a trabalhar numa área muito mais sensível e com outra dinâmica. Estive lá até fazer a passagem para a entidade pública que gere o hospital. Obviamente entristece-me bastante, para não dizer outra coisa, que o hospital tenha chegado do ponto de vista assistencial e de eficiência ao ponto a que chegou. Acredito que com o actual gestor as coisas possam vir a melhorar e entrar num caminho de recuperação.
Em 2023 fui convidado pelo Provedor da Misericórdia de Vila Franca de Xira para abraçar este projecto do Campus de Saúde. Sou hoje responsável por assegurar toda a actividade do campus. Este crescimento que a instituição teve obrigou a uma reestruturação de toda a gestão da Misericórdia. Temos hoje um volume de negócios seis vezes superior ao que tínhamos há dois anos e apoiamos muito mais utentes. As coisas já não se compactuavam com uma gestão amadora. Este modelo de gestão profissionalizada é muito importante, porque estas instituições têm, muitas vezes, um financiamento muito curto e isso obriga a ter uma gestão feita com eficiência e rigor. É muito importante não esquecer o passado, porque tudo aquilo que fazemos na vida, mesmo com algumas curvas, faz-nos chegar onde estamos hoje. É importante que recordemos o que foi aquilo que nos fez ser, quem somos hoje e nos fez chegar onde estamos.
Os recursos humanos são, sem dúvida, um dos maiores desafios que temos hoje na área da saúde. Contratar e reter talento é o principal desafio. São as pessoas quem mantêm as instituições; são elas que fazem acontecer o dia-a-dia, que nos tornam melhores ou piores. Temos hoje na Misericórdia três centenas de trabalhadores. São eles que marcam o percurso da instituição. Temos uma responsabilidade, enquanto instituição, para que essas pessoas tenham as melhores condições de vida possível e temos nós que as proporcionar. Não é fácil, vivemos num país pobre, por muito que não queiramos dizê-lo, e que está cada vez mais na cauda da Europa.
Não sou defensor de um modelo estado-centrista. Acredito que temos todos, comunidade, instituições, sector público e social, de dar uma resposta para os desafios da nossa sociedade. O problema da velhice é transversal a toda a sociedade, não é só um problema do Estado. Somos dos países mais envelhecidos do Mundo, com quase 25% da nossa população com mais de 65 anos, ao mesmo tempo que somos um dos países com maior esperança média de vida. Isto obriga a recursos de saúde cada vez maiores, e por isso podemos observar que as residências para idosos, cada vez mais, prezam cuidados de saúde e não apenas receber pessoas com idade avançada.
Tira-me do sério a desonestidade, porque sou uma pessoa honesta, franca e pauto-me por esses valores. Quando as pessoas tentam apenas gerir a sua própria vida, as suas relações, o empenhamento dos meios para alcançar os seus próprios objectivos, isso chateia-me. A honestidade é fundamental. Na vida viajo muito, é uma das minhas paixões. Já conheço mais de 60 países e já concretizei algumas das minhas viagens de sonho, como conhecer os Fiordes da Noruega.
Já chorei no cinema com um filme triste e choro na minha vida se necessário. Não tenho dificuldades nenhumas em assumir que sou uma pessoa sensível, como qualquer humano deve ser. Nunca usei os meus filhos pequenos para passar à frente das filas do supermercado ou retirar disso dividendos. Custa-me quando vejo uma grávida ou um idoso na caixa de um supermercado, por exemplo, e ninguém lhe dar a vez. A falta de empatia pelo outro na nossa sociedade entristece-me. Felizmente tenho o luxo de ter um lugar reservado junto ao Campus da Saúde, mas reconheço que estacionar em Vila Franca de Xira é um problema. Gosto de futebol mas já não consigo jogar, por isso dediquei-me ao padel, onde estou a dar os primeiros passos. É o meu novo hobby.
No concelho de Vila Franca de Xira a zona ribeirinha é o meu espaço favorito. Mas o projecto da duplicação da linha de comboio preocupa-me. Se não for feito correctamente pode vir a tirar pessoas da frente ribeirinha. A alta velocidade tem de ser implementada em Portugal, não é isso que está em causa, mas deve assegurar-se às pessoas a continuidade da vivência do rio que têm tido até hoje.
Nunca como hoje a Misericórdia fez tanta falta aqui na região. A necessidade de respostas é cada vez maior. Somos um farol de solidariedade no centro da cidade. Existem outras instituições que também o são, e nós gostamos de manter boas relações com todas elas. Como a ABEI, por exemplo, com quem temos uma muito boa relação. Estamos a criar parcerias com outras instituições do sector social da cidade e acho que essas parcerias devem existir para tornar o sector social e comunitário da cidade cada vez mais robusto. Para que cada vez mais possamos ajudar as pessoas que realmente necessitam de ajuda.

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