“Portugal devia fechar os supermercados ao domingo”
Vítor Gil Leal Lopes nasceu na Lourinhã em 1970 e cresceu ligado à agricultura, onde começou a trabalhar ainda adolescente. Chegou a Coruche na década de 90 e sempre trabalhou no comércio alimentar, tendo feito todo o percurso profissional no Intermarché, assumindo as funções desde repositor de loja até chegar à gerência do supermercado. Entre mudanças nos hábitos de consumo, dificuldades em encontrar trabalhadores e os desafios de gerir uma equipa de quase 50 pessoas, fala do percurso que o trouxe até aqui e de como o sector se transformou ao longo dos anos.
Cresci na zona Oeste, na Lourinhã, onde passei a infância. Sempre estive ligado ao mundo da agricultura, porque a minha família vinha desse meio. Lembro-me de ter tido uma infância normal, daquelas de brincar na rua, andar de bicicleta e passar muito tempo ao ar livre. Mas também foi uma infância curta, porque ali por volta dos 13 anos começou a terminar essa fase.
Na agricultura, os meus pais estavam ligados sobretudo às hortícolas e às batatas. Também havia vinho, mas foi uma altura em que se começaram a acabar com as vinhas. O principal eram os legumes e os produtos frescos e foi nesse contexto que comecei a trabalhar e onde fiquei até aos vinte e tal anos. Nessa altura já namorava com a minha mulher, a Cláudia. Ela e a família estavam na Margem Sul. O pai abriu o Intermarché em Coruche e, como costumo dizer, foi ela que me arrastou para aqui. Deixei a agricultura e foi uma escolha que correu bem.
Quando vim para Coruche comecei a trabalhar no supermercado Intermarché como repositor. A loja ainda estava a começar e o grupo também estava a afirmar-se nessa altura. Fui passando por várias funções: responsável de frescos, responsável de secos, depois responsável de loja. Os anos foram passando e hoje sou gerente. Até há três anos era chefe de loja e estava mais envolvido na dinâmica diária da loja, de acompanhar os preços, fazer as compras e as vendas. Agora acresce toda a vertente financeira. Trabalho muito próximo da minha mulher, que também está ligada ao negócio e à parte da contabilidade. Já trabalhamos juntos há quase trinta anos.
O comércio alimentar mudou muito nas últimas décadas. Quando comecei, há quase 30 anos, o cliente não era nada exigente. Também não havia muito por onde escolher. A oferta era menor e o mercado era diferente. Hoje há mais players, mais escolha e os clientes tornaram-se naturalmente mais exigentes. Antigamente era fácil vender. Comprava-se por 10 e vendia-se por 20. Hoje já não é assim. Temos de alinhar com a concorrência, comprar muito bem para conseguir vender a um preço razoável e as margens são muito mais curtas. O mercado tornou-se mais difícil e mais desafiante. Também a própria população mudou. Em muitos sítios do interior as pessoas vão diminuindo e isso sente-se. Aqui em Coruche não é o interior mais profundo, mas mesmo assim nota-se que o mercado está mais dividido, com mais estabelecimentos a vender o mesmo tipo de produtos.
Quando cheguei, a igreja e o supermercado eram pontos de encontro. As pessoas vinham com tempo, conversavam, encontravam conhecidos. Hoje já não é tanto assim. As pessoas vêm mais à pressa, a geração mais nova tem menos tempo e querem despachar as compras. A geração mais nova também vive de outra forma. Entre o trabalho, a internet e as redes sociais, não há tanto tempo para ficar a conversar. Quem ainda puxa dois dedos de conversa são mais as pessoas mais velhas, que gostam de falar com os funcionários e manter esse contacto.
Gerir equipas é muito desafiante. Neste momento temos cerca de 50 colaboradores. E desde o período pós-Covid que se tornou muito mais complicado encontrar trabalhadores. Quando sai alguém, arranjar outra pessoa para a substituir não é fácil. Os próprios colaboradores também estão mais exigentes, sobretudo em relação aos horários e à família. O supermercado está aberto todos os dias e isso significa trabalhar fins-de-semana. Eu próprio acho que faria sentido, como acontece em países como a Espanha ou a Alemanha, fechar ao domingo. Seria bom para os trabalhadores e também facilitaria muito a organização dos horários. Se todos fechassem, as pessoas compravam ao sábado ou durante a semana. Mas como ninguém fecha, torna-se difícil mudar.
Relativamente a impostos, Portugal é o que é, nem vale a pena falar. O IVA é alto e pagam-se muitos impostos. Também há muita burocracia para quem quer investir. Fazer uma obra ou ampliar um espaço pode tornar-se um processo complicado. Às vezes queremos fazer pequenas melhorias e os processos arrastam-se. Há cerca de três anos fizemos um investimento grande num sistema de painéis solares no parque de estacionamento. Foi um investimento elevado, mas hoje ajuda muito a reduzir o consumo de energia e a sombra dá mais conforto ao cliente no período do Verão. Dependendo do dia, somos auto-suficientes.
No dia-a-dia quase não sobra tempo para desligar do trabalho. Férias são muito poucas e é difícil tirar muitos dias seguidos. Num supermercado há sempre coisas para resolver e muitas situações não podem esperar. Nas pessoas com quem trabalho valorizo muito a sinceridade e a dedicação. Ainda temos alguns colaboradores com quase trinta anos de casa, o que diz muito do espírito de dedicação. Vestir a camisola, como se costuma dizer.
O que me tira mais do sério são conflitos entre pessoas, quando surgem problemas que podiam ser evitados com diálogo. Isso acontece no trabalho e também, como podemos constatar, no mundo em geral. Se tivesse de apontar uma qualidade minha diria a dedicação. Defeitos… não tenho (risos). Quanto a sonhos ou projectos, os meus vão surgindo no dia-a-dia. Vou tendo ideias e tentando concretizá-las, sobretudo a nível profissional. Na vida pessoal são mais coisas normais, comprar um carro, uma mota, que são oportunidades que aparecem ao longo da vida. Gosto de viver em Coruche. É uma vila tranquila, com qualidade de vida. Durante o dia tem a sua dinâmica, é pena não ter mais noite. Se me dessem a escolher talvez voltasse à terra onde nasci, o que é natural.


