Três Dimensões | 01-04-2026 07:00

Vender um automóvel é muito mais do que fechar um negócio

Vender um automóvel é muito mais do que fechar um negócio
TRÊS DIMENSÕES
Filipe Vicente soma duas décadas a vender automóveis e a lidar com pessoas - foto O MIRANTE

Aos 41 anos, Filipe Vicente soma já duas décadas de experiência na venda de automóveis. Natural do concelho de Alenquer, transformou uma paixão antiga pelos carros numa profissão. Ao longo dos anos aprendeu que vender um automóvel é muito mais do que fechar um negócio. É perceber quem está do outro lado e encontrar o carro certo para cada pessoa.

Sou natural do concelho de Alenquer, onde ainda vivo e onde estudei até ao 12.º ano. Depois ingressei na faculdade, onde frequentei durante dois anos a licenciatura em Antropologia. Fui para a faculdade com 18 anos e desisti com 20 anos, precisamente para cumprir o sonho de ser vendedor de automóveis. O meu pai tem um negócio de automóveis próprio e tenho outro familiar no mesmo ramo e, por isso, sempre foi uma área para mim muito querida. Experimentei e, 21 anos depois, continuo a vender automóveis. Comecei numa empresa em Alenquer onde estive dois anos e, em 2007, começou a minha ligação ao grupo Renault, onde até 2014 trabalhei num agente autorizado da marca, em Alenquer, que já tinha ligação directa à Roques Vale do Tejo, de Vila Franca de Xira. Ingressei depois na Roques Vale do Tejo, em 2015, e desde 2023 sou vendedor exclusivo da Dacia.
O primeiro carro que vendi foi com ajuda de um colega. Lembro-me perfeitamente, é um momento marcante. Até porque a compra de um automóvel é a segunda compra mais importante de um consumidor, a seguir à da habitação. Há uma grande responsabilidade nesta profissão porque, acima de tudo, temos de perceber quem é que temos à nossa frente, quais são as necessidades daquele cliente em específico, porque isso faz toda a diferença. Estamos a satisfazer uma necessidade e isso depois vai-nos trazer frutos ao longo do tempo, porque vamos ter esse cliente fidelizado.
Acima de tudo, considero-me organizado, até porque sou muito esquecido. Tenho muitas formas de agendar para não falhar com nada nem com ninguém. Sou uma pessoa de fácil trato e, nas interacções que tenho com os clientes, tento sempre encontrar pontos de acordo. Já tive, por exemplo, um cliente que se sentou dentro de um carro novo, ao volante, um modelo novo que acabou de sair e, cinco segundos depois, estava a comprar o carro porque se sentiu muito bem. Havia ali uma energia positiva que o contagiou e, em cinco segundos, comprou um carro novo de 30.000 euros, na altura.
Em teoria, nunca devíamos desistir de vender um carro até que o cliente nos diga que não. Mas, como em tudo, na nossa actividade também temos de ter bom senso. E quando percebemos que a pessoa realmente não mostra o interesse necessário para continuar a conversar connosco, também deve haver da nossa parte a iniciativa de terminar por ali, não fechando a porta a uma conversa no futuro.
A maior transformação nestes anos deu-se ao nível da tecnologia dos automóveis. As novas normas de segurança que estão em cima da mesa fizeram com que, desde o carro mais simples que podemos vender, já exista um conjunto de tecnologias que há 10 anos não existia. E isso é um desafio. Aí puxo a brasa à nossa sardinha, fazemos um excelente trabalho naquilo que é passar os ensinamentos ao nosso cliente.
Gosto muito de carros velhos. Não sou coleccionador, mas tenho alguns carros na família mais antigos. Também fico muito entusiasmado com alguns eléctricos que têm prestações fabulosas e que são carros muito divertidos de conduzir. Estou dividido nas preferências. Existem carros que são icónicos. O antigo Renault 5 é um carro fabuloso, adoro conduzir. Depois um japonês, por exemplo, um Mazda MX-5. Adoro conduzir a Toyota Hiace, é antiga e é um carro da família em que os meus filhos adoram andar. Tenho dificuldade em desfazer-me de alguns carros.
Quando abrimos a bagageira do carro, não é para ver o que é que o senhor tem lá dentro. É para perceber porque é que ele usa o carro, como é que ele usa o carro. Percebemos se aquela pessoa é mais ou menos organizada, se anda com pessoas, com crianças ou com animais dentro do carro. Existe ali uma série de informação que está ao nosso dispor e nós estamos treinados naturalmente para isso, para perceber. Tenho muita formação, cada vez mais até, por causa das questões de tecnologia, e bastante formação na área da fiscalidade. Temos de estar preparados para saber responder a um cliente empresarial.
Um jovem faz muito bem em querer começar a vender carros, porque é uma das profissões mais bonitas do mundo. Temos oportunidade de conhecer pessoas novas, de fazer parte do momento importante daquela família, daquela pessoa. E porque um automóvel ainda continua a ser um meio de transporte preferencial. Os carros modernos perderam botões em relação aos clássicos e os botões fazem falta nos carros, tal como nos electrodomésticos. Houve, de facto, uma tendência para os ecrãs touch, mas penso que a indústria também está a voltar um bocadinho atrás e a perceber que os botões fazem falta. Pessoalmente não acredito no fim da combustão. Acredito e aplaudo a melhoria da combustão com as soluções híbridas.
Há muita coisa que causa entraves ao vendedor e ao cliente. Além dos impostos directos na compra, não esquecer que o IVA é de 23%, portanto, praticamente um quarto do valor do automóvel é IVA. As empresas têm as tributações autónomas, que são impostos caríssimos. Acho que faz muita falta ao nosso mercado um verdadeiro programa de incentivo ao abate. O nosso parque automóvel está envelhecido, precisa de ser renovado.
Sou casado e na última contagem tinha três filhos em casa (risos). Pratiquei ténis durante vários anos e hoje em dia jogo padel. Não acompanho desporto automóvel. Gosto de viajar, gosto muito de música e sempre que posso ouço música a trabalhar. Gosto de vinho tinto e de queijo. Um queijo Ilha de São Jorge, com uma cura de 40 meses, por aí, e um queijo de cabra ali da zona de Oleiros. Mas não há nada como um bom bacalhau assado e umas favas cozidas, regadas com azeite.

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