Elsa Salgueiro: a força tranquila de quem decidiu recomeçar
Nasceu numa aldeia do concelho de Abrantes, cresceu entre irmãos, brincadeiras de rua e valores sólidos. Aos 35 anos, casada e com duas filhas pequenas, um emprego e uma casa para gerir, Elsa Salgueiro decidiu voltar a estudar e mudar de vida. Em Alcanena, abriu o seu próprio escritório de solicitadoria e construiu um percurso feito de coragem, humildade e sentido de responsabilidade.
Sou natural de Sentieiras, concelho de Abrantes, onde cresci e vivi até aos 24 anos. Cresci num ambiente rural, simples e feliz, com muito espaço para brincar, correr e viver a infância como ela deve ser vivida: na rua, com as minhas irmãs e irmão, e com os amigos, sem grandes medos nem pressas. Somos cinco irmãos, quatro raparigas e um rapaz, e sou a mais nova. Isso fez com que crescesse protegida, mas também muito acompanhada. Nunca me senti sozinha. Pelo contrário, crescer com irmãos deu-me um sentido de companheirismo e de lealdade que ainda hoje considero essencial na minha vida.
Os meus pais foram, e continuam a ser, os grandes pilares do meu percurso. O meu pai já faleceu, mas os valores que me deixou permanecem muito vivos em mim. Com eles aprendi a humildade, a responsabilidade, a educação e a importância de cada um saber o seu lugar. Foram essas bases que moldaram a pessoa que sou hoje. Nunca fui daquelas crianças que sonhava ser isto ou aquilo. Não tive uma vocação definida desde cedo. Fiz o meu percurso com naturalidade, passo a passo. Estudei até ao 12.º ano em Abrantes e comecei a trabalhar muito nova.
O meu primeiro emprego foi aos 17 anos, como operadora de caixa no Feira Nova. Na altura, queria trabalhar, ter a minha independência, começar a construir o meu caminho. Depois passei por outras experiências profissionais, numa residencial e numa farmácia, até que a vida me trouxe para Alcanena. Foi aqui que tudo começou a ganhar outra forma. Vim trabalhar para o escritório de um advogado e foi nesse contexto que nasceu o gosto pela área. Durante 15 anos desempenhei funções administrativas, mas havia uma parte do trabalho que me entusiasmava particularmente: as idas às conservatórias, às finanças, o contacto directo com os processos e com as pessoas. Foi aí que percebi que queria mais. Queria crescer, aprender e dar um passo em frente.
Aos 35 anos, quando muita gente acha que já não vai voltar a estudar, eu decidi fazer exactamente isso. Tirei a licenciatura em Solicitadoria, no Politécnico de Leiria. Já era mãe de duas filhas, a Beatriz e a Bárbara, e conciliava o trabalho, a casa, a família e as aulas em pós-laboral. Saía do trabalho, deixava as miúdas e seguia para Leiria e só regressava a casa depois da meia-noite. Foram três anos muito exigentes, de muito esforço e muita vontade. O mais difícil era não estar com as minhas filhas à noite e com o meu marido, que foi muito importante em todo o processo, mas eu queria muito aquele curso. Queria-o por realização profissional, mas também por realização pessoal. Queria provar a mim própria que era capaz.
Hoje olho para trás e sei que essa foi uma das decisões mais importantes da minha vida. Também acredito que foi um exemplo para as minhas filhas. Mostrou-lhes que, quando queremos mesmo uma coisa, temos de ir atrás dela, independentemente da idade ou das dificuldades. Depois do curso, fiz o estágio, preparei-me e, há quatro anos, abri o meu próprio escritório em Alcanena. Foi um passo natural. Queria ter o meu espaço, trabalhar por minha conta e poder ajudar as pessoas da forma mais próxima possível. É isso que mais me fascina na profissão: ajudar. Saber que consigo resolver problemas, orientar caminhos, simplificar processos e estar presente em momentos importantes da vida dos meus clientes. Faço de tudo um pouco dentro da solicitadoria: reconhecimentos de assinaturas, termos de autenticação, contratos, legalizações e muitos processos ligados a terrenos e prédios.
Se há desafio maior em ter o meu próprio escritório, talvez seja o de não levar os problemas dos clientes para casa. Nem sempre é fácil desligar. Quando damos a cara pelo nosso trabalho, sentimos tudo de forma mais intensa. Ainda assim, não mudava nada. Gosto do que faço, gosto da forma como construí este percurso e gosto da vida que tenho. A nível pessoal, defino-me como uma boa pessoa, uma boa mãe, uma profissional dedicada e alguém humilde. A maternidade marcou-me profundamente. Os dias em que nasceram a Beatriz e a Bárbara foram os mais felizes da minha vida. Sou uma mãe amiga, presente, mas consciente do meu papel. Tenho uma relação muito próxima com as minhas filhas e, hoje, são elas as primeiras pessoas a quem ligo quando preciso de desabafar. Isso diz muito da ligação que fomos construindo.
Nos momentos livres, gosto de ir ao ginásio, em Torres Novas. Faz-me bem ao corpo e à cabeça. É uma forma de desligar, de me cuidar, de estar em grupo e recuperar energia. Também valorizo muito o tempo em família. Todos os domingos almoçamos em casa da minha mãe, com irmãos, filhos, companheiros e netos. Somos muitos à mesa, numa confusão boa, cheia de vida. E é nesses momentos que volto sempre ao essencial.


