“Gerir uma empresa em Portugal é sempre um exercício de resistência”
Maria Manuel Martins, 48 anos, técnica de vendas e sócia-gerente da BenaÓptica, em Benavente, entrou no ramo da óptica pela porta da família do marido, Paulo Martins, com quem gere o estabelecimento. No comércio tradicional encontrou uma forma própria de estar: ouvir, criar empatia e fazer da loja um espaço de confiança.
A minha infância começou em Samora Correia, embora não tenha grandes memórias desses primeiros três anos. Depois os meus pais mudaram-se para Benavente e foi aqui que cresci. Sou a mais nova de cinco irmãos e tive uma infância muito divertida, numa casa sempre cheia, com pessoas a entrar e a sair, amigos da nossa idade e da idade dos meus irmãos. Havia sempre brincadeiras, no quintal da casa dos meus pais, no ringue ao pé do pavilhão gimnodesportivo, na rua, com aquela liberdade que hoje já não se vê da mesma forma, porque os miúdos estão mais em casa.
Desde cedo gostei de lidar com pessoas, de comunicar e de criar relações de empatia. Fiz formação na área da comunicação, na escola profissional, em Salvaterra de Magos, e fiquei sempre ligada às vendas e ao contacto com o público. Antes de chegar à BenaÓptica trabalhei numa empresa de informática como recepcionista, fui secretária de direcção na obra da Ponte da Lezíria, uma experiência muito boa e uma fase muito marcante, e depois trabalhei sempre em vendas.
A ligação à óptica surgiu de forma natural. O meu marido é optometrista há muitos anos. A BenaÓptica começou com a minha sogra e depois o meu marido tirou o curso de optometria e esteve sempre aqui com ela. Quando chegou a altura de a minha sogra se reformar, porque também tinha direito a descansar, assumimos os dois a liderança da óptica. Trabalhamos aqui desde 2022, se não estou em erro, e até agora tem corrido bem. Conseguimos separar as águas, revezamo-nos quando é preciso e isso também nos dá alguma autonomia para gerir a vida familiar e os miúdos. Temos três filhos, dois rapazes e uma rapariga, e a família é essencial.
Na BenaÓptica procuramos que as pessoas se sintam à vontade. Queremos ser profissionais, ajudar o mais possível, escutar, porque escutar é mesmo muito importante. Se alguém tem um problema, uma dúvida, uma situação com os óculos, queremos que saiba que pode vir ter connosco. Há clientes que se sentem tão bem aqui que ficam tempos e tempos a trocar ideias. Outras pessoas entram e desabafam a vida toda. Acabamos por servir um bocadinho de psicólogos. É isso que distingue este tipo de comércio. Não funcionamos como uma loja de centro comercial. Aqui há outro à-vontade, outra proximidade. As pessoas sabem que, se alguma coisa não estiver bem, se for preciso apertar uns óculos, resolver uma assistência, ver uma lente riscada ou partida, estamos cá para ajudar.
A saúde visual e a óptica mudaram muito nos últimos anos. As lentes estão cada vez mais inovadoras, melhores a nível de visão, de adaptação e de conforto. Pessoas com graduações mais altas têm hoje a possibilidade de usar lentes com espessuras mais reduzidas ou até lentes de contacto. Ao nível das armações, manda muito a moda. Não podemos fugir a isso. Temos sempre modelos clássicos, mas também atenção ao que se usa actualmente.
Os óculos deixaram de ser apenas uma necessidade para ver melhor. Também são um acessório e há muita preocupação com a imagem. Mas também acho que é errado ver os óculos apenas como um acessório, porque acabam por ser uma prótese. Há pessoas que vêem realmente muito mal e os óculos não são propriamente um produto barato. As ajudas do Estado não são muitas nesse aspecto e, numa altura em que tudo pesa no orçamento das famílias, isso sente-se. Com o aumento do custo de vida, as pessoas estão mais retraídas, e é compreensível. Nós procuramos facilitar um bocadinho, quando é possível. Também se nota que os mais novos usam óculos cada vez mais cedo. Os ecrãs têm influência: telemóveis, tablets, computadores, televisão. Os miúdos passam muitas horas à frente dos ecrãs e já não brincam tanto ao ar livre, como nós brincávamos. É difícil fugir a isso.
Gosto de trabalhar com seriedade, honestidade e empatia. A nível profissional, valorizo o profissionalismo, mas sem formalismos a mais. Acho que se pode ser sério e competente sem deixar de ser próximo. O conselho que levo comigo é esse: ser sempre séria, justa, profissional, nunca tratar mal o próximo e tratar os outros como gostaria que me tratassem a mim. Gerir uma empresa em Portugal é sempre um exercício de resistência, mas tento não sofrer por antecipação. A minha forma de estar é um bocadinho “vamos ver como corre”. Prefiro aguardar, ver, esperar por tempos melhores. Não sou nada negativa. Para o futuro, gostaríamos de continuar a progredir e fazer sempre melhor.
O comércio tradicional continua a ser muito importante em terras como Benavente, embora haja cada vez menos. Este serviço é necessário, sobretudo para pessoas mais velhas, com problemas visuais, que não se deslocam facilmente a grandes superfícies ou centros comerciais. Ter uma óptica perto de casa, onde sabem que podem pedir ajuda, faz diferença. É um serviço à porta de casa. A quem sonha ter o seu próprio negócio, diria para avançar, sem medos. Para arriscarem e serem positivos. Claro que há dificuldades, mas não vale a pena viver sempre a pensar no pior. O que me entristece são as injustiças, as pessoas que tratam mal as outras e a falta de educação. Sou uma pessoa calma, difícil de tirar do sério, mas acho que os valores e a educação são muito importantes e hoje sinto que isso se perdeu um bocadinho.
Fora do trabalho gosto imenso de ouvir música. Tenho muitos artistas e bandas de que gosto, como Placebo e U2, entre tantos outros. Também gosto muito de cozinhar e de comer. Gosto de fazer caldeiradas, arroz de pato e muitas outras coisas, mas o meu prato preferido é o mais simples de todos: peixe grelhado. Sou completamente fã. Tenho ainda um sonho por concretizar, uma viagem à Grécia. Se me saísse o Euromilhões viajava imenso. O problema é que não gosto muito de andar de avião.
Gosto de viver em Benavente. É um sítio calmo. Mas gostava que houvesse mais animação para os jovens. Acho que está tudo muito parado. Hoje o meu filho diz: “vou sair para onde, se não há nada para fazer em Benavente?”. Fazia falta mais dinamismo, uns bares, umas esplanadas, coisas para os jovens fazerem, para não terem de sair sempre daqui. No fundo, aquilo que tento fazer, na vida e no trabalho, é simples: estar disponível, ouvir, ajudar e tratar bem quem entra pela porta. Pode parecer pouco, mas num tempo em que está tudo a correr, talvez seja exactamente isso que faz falta.


