Três Dimensões | 20-05-2026 07:00

“Continuo a acreditar no ensino público e na Chamusca temos uma escola com qualidade”

“Continuo a acreditar no ensino público e na Chamusca temos uma escola com qualidade”
TRÊS DIMENSÕES
António Gouveia considera que a escola pública continua a ter um papel decisivo na formação das novas gerações - foto O MIRANTE

Director do Agrupamento de Escolas da Chamusca há três anos, António Gouveia é natural da Golegã e tem mais de três décadas de ligação ao ensino. Professor de Educação Física, assumiu a direcção num período exigente, marcado pelas obras na escola e por novos desafios para alunos, docentes e famílias. Defensor do ensino público, considera que falta maior reconhecimento ao trabalho feito nas escolas e anuncia que não pretende recandidatar-se ao cargo.

Cresci na Golegã, numa família onde a educação sempre teve um valor muito importante. Os meus pais incutiram-me desde cedo a ideia de que estudar era o caminho para construir uma vida melhor. Eu e a minha irmã seguimos ambos a profissão docente, o que mostra bem a influência que esse ambiente familiar teve em nós. Também tive professores que me marcaram muito, sobretudo na área da Educação Física, e foi aí que nasceu o gosto por ensinar.
Licenciei-me na Faculdade de Motricidade Humana e comecei por dar aulas em Lisboa, mas rapidamente percebi que não era ali que queria construir a minha vida. Regressei a esta zona e, pouco tempo depois, entrei na escola da Chamusca, onde estou há mais de 30 anos. Actualmente vivo na Carregueira, terra de onde a minha mulher é natural, e sinto que o meu percurso está muito ligado a este concelho e a esta comunidade escolar. Ao longo dos anos fui professor, estive ligado ao Conselho Geral e, em 2022, acabei por assumir a direcção do Agrupamento de Escolas da Chamusca. Surgiu num contexto em que era preciso alguém avançar e entendi que devia assumir essa responsabilidade.
Quando cheguei à direcção encontrei uma escola numa fase muito exigente, com obras a decorrer e com todas as dificuldades que isso implica. Durante três anos tivemos de gerir aulas, alunos, professores e funcionários no meio de um estaleiro, com barulho, limitações de espaço, mudanças constantes e muitas adaptações. Gerir uma escola nestas condições, num concelho como a Chamusca, com uma população dispersa e muitos alunos a fazerem longas deslocações, não é tarefa simples. A escola tem de ser mais do que um edifício onde se dão aulas; tem de ter actividades, projectos e motivos que façam os alunos quererem vir, participar e sentir que aquele espaço também é deles.
Ser director é, acima de tudo, assumir responsabilidades e tomar decisões para que as coisas aconteçam. Nem sempre é fácil e há decisões que ficam connosco. Recordo, por exemplo, o momento em que tive de dizer a um colega, debilitado depois de um acidente, que não tinha horário para ele. São situações humanas muito difíceis, mas fazem parte do cargo. Com o tempo vamos aprendendo a lidar com esse peso, embora nunca se desligue totalmente. A escola acompanha-nos para casa, nas preocupações, nas decisões por tomar, nos problemas que ainda não conseguimos resolver.
Sinto também que as direcções das escolas estão, muitas vezes, um pouco abandonadas. Há cada vez mais responsabilidades a serem transferidas para as escolas, mas nem sempre vêm acompanhadas dos meios necessários. Falta apoio jurídico, falta formação específica para algumas funções que nos são atribuídas e isso pode criar situações complicadas. Uma direcção tem de lidar com questões pedagógicas, administrativas, disciplinares, legais, financeiras e humanas. É uma exigência enorme, que nem sempre é reconhecida.
Apesar de tudo, continuo a acreditar no ensino público. E continuo a dizer que na Chamusca temos uma escola com qualidade, muitas vezes melhor do que aquilo que se pensa. Temos bons professores, bons profissionais e um ensino que, em muitos aspectos, não fica atrás de outros contextos. O problema é que temos, por vezes, aquela tendência de desvalorizar o que é nosso. Falta reconhecimento interno e falta dar mais importância ao trabalho que é feito diariamente nas escolas.
Hoje vejo muitos jovens com dificuldade em projectar o futuro. Há alunos que não sabem o que querem fazer, que não têm uma ideia clara do caminho que gostariam de seguir, e isso preocupa-me. Também noto uma maior dificuldade em lidar com a frustração. A escola tem aqui um papel fundamental, mas não pode fazer tudo sozinha. A educação é uma responsabilidade colectiva, que envolve famílias, comunidade, autarquias, professores e os próprios alunos. Uma das maiores recompensas desta profissão é encontrar antigos alunos na rua e ser cumprimentado por eles. Saber que, de alguma forma, deixei uma marca positiva na vida de alguém, mesmo na daqueles com quem tive de ser mais exigente, é algo que me realiza muito. No fundo, acredito que a educação continua a ser uma das ferramentas mais importantes que temos para evoluir enquanto sociedade.
Procuro manter algum equilíbrio através do exercício físico e, mais recentemente, através da família. Tenho agora duas netas pequenas, que me fizeram olhar para o tempo de outra maneira. Há momentos que não voltam e que temos de saber aproveitar. Aproximando-me dos 60 anos, começo naturalmente a pensar em parar. Gosto muito do que faço, mas também sinto que há uma fase da vida em que outras coisas ganham mais importância. Se pudesse reformava-me já, não por desilusão com a escola, mas porque sinto que também tenho direito a outro tempo.
Este é o último ano do meu mandato como director e, para já, não tenho intenção de me recandidatar. Acho importante dar espaço a novas ideias e a outras pessoas. Ao longo deste percurso houve também alguma contestação interna, o que faz parte da vida de qualquer instituição, mas acredito que quem critica deve estar disponível para apresentar soluções. Olho para este ciclo com a consciência de que houve decisões difíceis, mas também com a tranquilidade de saber que fiz o melhor que pude. Com as obras praticamente concluídas, deixamos uma escola mais funcional e com condições que há poucos anos eram difíceis de imaginar. Ainda há muito por fazer, mas acredito que o caminho está bem encaminhado.

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