Três Dimensões | 03-06-2026 21:00

Hélder Simões: uma vida entre a mecânica, o empreendedorismo e a família

Hélder Simões: uma vida entre a mecânica, o empreendedorismo e a família
TRÊS DIMENSÕES
Hélder Simões fundou a OHA em Amiais de Baixo - foto O MIRANTE

Hélder Simões criou a sua empresa depois de perder o emprego durante uma crise nos anos 90. Natural de Amiais de Baixo, o sócio gerente da OHA - Óleohidráulica Aplicada acredita que o trabalho, a humildade e o respeito pelos outros continuam a ser os pilares de uma vida equilibrada e de uma empresa sustentável.

Nasci e cresci em Amiais de Baixo, numa família simples e trabalhadora. O meu pai era um homem multifacetado: tinha uma taberna, vendia peixe na praça, fruta e estava sempre a fazer algo. A minha mãe trabalhava ao lado dele e juntos construíram uma vida com muito esforço. Tanto eu como o meu irmão conseguimos tirar Engenharia Mecânica graças a eles, porque nunca baixaram os braços para dar aos filhos aquilo que eles próprios não tiveram. Desde cedo percebi que queria seguir Engenharia Mecânica e quando me vi desempregado decidi arregaçar os braços e criar a minha própria empresa, a OHA - Óleohidráulica Aplicada, que fabrica e repara grupos hidráulicos e comercializa sistemas de óleos hidráulicos.
Cresci muito ligado ao ambiente do trabalho manual e dos negócios. Nas férias ia sempre para a oficina de serralharia do meu tio, acompanhando-o também aos mercados em Torres Novas. O meu avô paterno era ferreiro e, de certa forma, acho que a ligação à área mecânica acabou por vir dele e do meu tio. Depois do curso comecei a trabalhar em Lisboa e mais tarde em Leiria, sempre ligado ao ramo da metalomecânica e da hidráulica. Quando a empresa onde trabalhava fechou, no início dos anos 90, tive que decidir o que fazer da minha vida. Em vez de procurar outro emprego, decidi arriscar e criar a minha própria empresa.
Comecei em 1993 a trabalhar em casa, na cave, com poucos meios. Se precisava de enviar material para clientes, metia tudo no carro e ia fazer os despachos ao Entroncamento. Fazia-se tudo de maneira muito diferente da de hoje, mas fazia-se. Mais tarde, em 1998, arranjei um espaço que serviu como armazém e em 2009 comprei o edifício que é hoje a sede da empresa. Durante muitos anos também fui formador profissional na área da mecânica e tecnologias industriais, mas chegou uma altura em que já não conseguia conciliar as duas actividades e acabei por me dedicar exclusivamente à empresa. Na OHA trabalhamos para todo o país e exportamos também para vários mercados internacionais, como Brasil, Europa e Ásia. Apesar de a sede continuar em Amiais de Baixo, o nosso negócio não depende da localização. Sempre disse que podíamos estar em qualquer sítio, porque trabalhamos para o país inteiro.
Em Amiais de Baixo, continuo a sentir que há dificuldades para as empresas crescerem. As acessibilidades continuam a ser um problema e a burocracia é enorme. A revisão do PDM demorou cerca de 20 anos e havia dezenas de entidades a dar pareceres. Acho isso uma aberração de burocracia. Vejo outras localidades a crescerem e aqui continua tudo muito difícil para quem quer construir ou investir. Tenho pena que não haja mais empreendedorismo na minha terra, porque Amiais tem potencial e acredito que também cabe a nós promover aquilo que existe de bom.
Ao longo da minha vida profissional sempre tentei manter os princípios que aprendi em casa: humildade, respeito pelos outros e seriedade. Nunca gostei da ideia de existir uma separação entre patrão e trabalhadores e considero-me apenas um outro trabalhador. Aqui procuramos funcionar quase como uma família. Aliás, recentemente a minha filha começou a trabalhar comigo na empresa, apesar de nunca ter feito pressão para isso acontecer. Um dia decidiu vir e foi uma decisão natural. Apesar dos 66 anos, não me vejo parado quando chegar à idade da reforma. Não consigo imaginar-me em casa sem fazer nada. Gosto demasiado de trabalhar, de contactar com pessoas e de sentir que continuo activo. Fora do trabalho, o que mais gosto de fazer é estar com os meus dois netos pequenos e é com eles que verdadeiramente desligo da pressão do dia-a-dia. Além disso, também gosto de jardinagem, bricolagem e de passear com a minha esposa.
Acho que vivemos todos num estado de ansiedade muito grande. As pessoas querem respostas imediatas para tudo. Quando comecei a trabalhar, os orçamentos eram feitos à máquina e enviados por correio, demoravam dias a chegar ao destino e ninguém achava isso estranho. Hoje tudo é urgente, tudo é para ontem. Não digo que antigamente era melhor, simplesmente os tempos mudaram e temos de nos adaptar, vendo-me eu muitas vezes também stressado com esta cultura do imediato de hoje. Olhando para trás, não vejo uma conquista única que tenha marcado a minha vida. Foram várias pequenas conquistas e também alguns erros, como é normal. Talvez aquilo que mais me orgulhe seja ter conseguido construir uma vida tranquila, estável e sempre sem passar por cima de ninguém. O meu pai era um conciliador e eu tenho tentado seguir esse exemplo. No final do dia, aquilo que me faz sentir realmente realizado é algo muito simples: chegar a casa, ver os meus netos, brincar um bocadinho com eles e essencialmente sentir-me feliz, junto de quem gosto.

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