Três Dimensões | 17-06-2026 21:00

Vanessa Santos transformou um eucaliptal num refúgio de natureza na Póvoa de Manique

Vanessa Santos transformou um eucaliptal num refúgio de natureza na Póvoa de Manique
TRÊS DIMENSÕES
Vanessa Santos é a responsável técnica da Herdade da Hera - foto O MIRANTE

Vanessa Santos tem 41 anos e é a responsável técnica da Herdade da Hera, um projecto familiar que nasceu de um sonho ligado aos cavalos e transformou-se num espaço de natureza, turismo rural, animais e encontros. De Oeiras para a Póvoa de Manique, no concelho de Azambuja, aprendeu que a terra ensina devagar, que a burocracia desgasta e que a verdadeira riqueza está nas relações que se constroem com tempo, respeito e verdade.

Tinha a cidade muito presente na minha vida, mas havia qualquer coisa em mim que precisava de espaço, de campo, de animais e de silêncio. Nasci em Lisboa e cresci em Barcarena, no concelho de Oeiras, num tempo em que ainda era possível ter autonomia, andar de bicicleta, sair à rua e sentir que tudo estava relativamente perto. Apesar disso comecei cedo a sentir que aquele não era o meu lugar.
Desde muito nova que os cavalos fizeram parte da minha vida. Frequentei escolas de equitação, fiz espectáculos, concursos e passei muitas tardes nesse mundo. Mas, ao mesmo tempo, nunca senti que pertencesse totalmente a ele. Havia ali uma forma de estar demasiado fechada para mim. Gostava dos cavalos, da relação com o animal, da beleza do desporto, mas não me revia em certas vaidades. Talvez por isso tenha começado a sonhar com um espaço onde pessoas como eu, sem famílias ligadas ao meio, também se pudessem sentir acolhidas.
Aos 16 ou 17 anos disse à minha mãe que queria ir para o campo, estudar, trabalhar com animais e procurar outro caminho. Os meus pais podiam ter travado esse sonho, mas escolheram acompanhar-me. A Herdade da Hera é, por isso, muito mais do que uma empresa. É um projecto familiar. Eu estou na linha da frente, sou a responsável técnica, mas a minha mãe foi e continua a ser o meu grande suporte. O meu pai, hoje mais afastado, também fez parte deste percurso.
Na Escola Agrária de Santarém, onde estudei pecuária, aprendi a olhar para os animais com responsabilidade. A perceber que trabalhar com eles é também garantir-lhes condições, bem-estar e dignidade. Enquanto estudava, começámos à procura de um terreno. Primeiro pensámos em Palmela, depois subimos pelo Ribatejo, até que a minha mãe encontrou este espaço num jornal antigo, por volta de 2002 ou 2003. Quando cheguei, não me apaixonei logo. Isto era um eucaliptal, inclinado, sem vedação, sem construções, sem nada. A minha mãe é que viu potencial onde eu via dificuldade. Ao longo de mais de 20 anos fomos arrancando, plantando, construindo e aprendendo. Os primeiros pinheiros vieram quase como sobras de viveiro e hoje são árvores grandes.
Tudo aqui foi feito devagar, com esforço e com tentativa e erro. A terra nunca se deixa dominar. A água manda, a natureza responde, e nós só podemos aprender a escutar. O projecto nasceu ligado aos cavalos, mas cedo percebemos que só isso não chegava. Pensámos em eventos, em alojamento através de glamping e uma cabana e em visitas e actividades com crianças. Em 2009 avançámos com um projecto europeu que deveria ter dado impulso à Herdade, mas acabou por nos desgastar profundamente. Foram anos de burocracia, atrasos, papéis, prazos, bancos, fornecedores e uma sensação constante de que o país pune mais do que ajuda. Durante 11 anos carregámos esse processo. Houve dias em que senti que estava a lutar contra paredes.
Os primeiros tempos foram muito duros. Quando a Herdade da Hera abriu, em 2015, estava grávida, cansada, com medo, mas sem alternativa a não ser continuar. Trabalhámos fora para pagar contas, mantivemos os animais, segurámos o projecto e a família. Quando se tem filhos, a responsabilidade pesa de outra forma. Não é só o sonho que está em causa; é também a comida na mesa, a segurança da casa, a vida que estamos a construir.
Com o tempo a herdade foi encontrando o seu caminho. Vieram visitantes, escolas, escuteiros, famílias, crianças, pessoas que procuravam dormir em glamping, experimentar a natureza ou apenas respirar. Gosto de pensar neste espaço como um lugar de conexão. Aqui não há uma natureza de revista, toda arrumada e perfeita. Há terra, cheiros, animais, passarinhos, ervas, pó, lama, flores para as abelhas e cantos por descobrir. Ou se ama ou se odeia. Mas quem se permite entrar normalmente sai diferente.
Depois da pandemia senti que muitas famílias começaram a valorizar mais estes espaços. De repente, as crianças podiam sujar-se, correr, cair, apanhar pedras e brincar sem uma actividade marcada. Ainda acho que os pais têm mais dificuldade em permitir essa liberdade do que as próprias crianças. Elas sabem brincar. Os adultos é que desaprenderam muitas vezes a confiar na simplicidade.
Não sou terapeuta e faço questão de o dizer. Mas sei o que vejo: crianças mais tranquilas, mais abertas, mais felizes. Os póneis e os cavalos têm uma forma muito própria de chegar onde nós, adultos, às vezes não conseguimos. Tento fazer tudo com leveza, respeito e atenção, porque cada criança é uma criança e cada uma floresce ao seu ritmo. Uma das partes mais bonitas do meu trabalho é a relação com crianças especiais e com famílias que chegam até nós à procura de calma, confiança e contacto com os animais.
Este projecto endureceu-me mas também me tornou mais empática. Aprendi que todos carregamos histórias invisíveis. A Vanessa que recebe os clientes com um sorriso é a mesma que tem contas para pagar, animais para tratar, ervas para cortar, respostas para dar, filhos para educar e dúvidas para gerir. Há um trabalho invisível que muita gente não vê. Mas eu vejo-o todos os dias, nas mãos sujas, no corpo cansado e na paz que ainda assim este lugar me dá.
Não tenho férias como gostaria nem levo os meus filhos à praia tantas vezes como queria. Vivo presa à possibilidade de alguém ligar a qualquer hora, de aparecer uma reserva, de um animal precisar de mim. Mas continuo aqui porque acredito no que construímos. A Herdade da Hera ensinou-me a não correr atrás de quem não quer entrar, a valorizar quem fica e a perceber que o crescimento saudável nem sempre é rápido.
Ainda falta muito por concretizar. Falta mão-de-obra, falta mais estabilidade, falta reconhecimento e falta que o país olhe para projectos familiares com mais respeito. Mas também já há muito feito. Onde havia eucaliptos há hoje árvores, animais, crianças, famílias, memórias e silêncio. Talvez seja isso que me faz continuar: saber que este espaço, com todas as suas imperfeições, dá às pessoas aquilo que eu própria procurei: tempo, natureza, verdade e um lugar onde possam simplesmente respirar.

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