Jacinta Serafim: a menina da máquina de calcular que chegou à gestão da Bastos & Silva
Natural de Benavente, Jacinta Serafim viveu a infância em França e regressou ao concelho com 11 anos, para uma vida que no Ribatejo ainda se pautava pela vida marcadamente rural, sem água potável nem luz. Sócia-gerente da Bastos & Silva, Lda., empresa fundada em 1982 e ligada às marcas Renault e Dacia, fala da aprendizagem feita a trabalhar, da passagem para a gestão, dos filhos na empresa, dos carros clássicos e do futuro de Benavente.
Não vivi sempre em Benavente. Os meus pais emigraram para França e foi nas redondezas de Paris que vivi a infância e fiz parte da escola. Estivemos lá cerca de dez anos. Quando regressámos a Benavente, em 1972, tinha sensivelmente 11 anos. Os meus pais quiseram voltar para que o meu irmão e eu fossemos para a escola em Portugal. Foi aí que começaram os desafios. Vinha de uma zona muito mais desenvolvida. Quando chegámos, não tínhamos água potável nem luz. Em França havia colégios com ginástica, televisão, supermercados, pão quente e croissants à porta de casa. Em Portugal, o pão vinha com o padeiro e tinha de dar para o dia inteiro. Guardo de França a neve, os Invernos frios e os vizinhos que nos acolhiam com carinho, apesar de também haver rivalidades com os portugueses.
Tive a sorte de um tio, em França, me ensinar português e entrei directamente para a quarta classe. Estudei até ao nono ano. Não continuei porque teria de sair da zona e os meus pais não deixaram. A vida passou também pelo campo. Eles começaram a ter animais, terra e tomate. As nossas férias eram a apanhar tomate e a regar. Eu e o meu irmão íamos muitas vezes regar antes da escola, a rego, de enxada na mão.
Desde pequena tinha uma mania: as máquinas de calcular. Dizia que havia de ter um emprego com uma máquina de calcular. Fui para uma empresa de maquinaria agrícola, importadora de máquinas, onde acharam que tinha jeito e deram-me oportunidade. Comecei como telefonista, passei para a parte do contacto e fui subindo patamares até à contabilidade. Cresci com essa empresa: quando entrei tinha dois ou três funcionários e, quando saí, teria uns vinte.
Sempre gostei muito de desafios e fui tendo portas abertas. Depois, o meu marido, José Serafim, separou-se da sociedade onde estava e foi quando pensei em ir para a Bastos & Silva. Foi também o ano em que o meu pai morreu. Já tinha os meus filhos, um rapaz e uma menina. Antes de ir para a empresa, estudei de noite para aprofundar os conhecimentos em contabilidade, com a mais-valia de ter a ajuda dos meus pais. Também trabalhei muitas noites e preparei um programa de gestão de clientes para aplicar na Bastos & Silva, que existiu durante muitos anos, até mudarmos para novas tecnologias.
Os primeiros tempos na Bastos & Silva foram difíceis. Há uma grande diferença entre ser empregada e ser gestora. Vim para a empresa em 1990, quando o meu marido já cá estava, e em 1992 mudámo-nos para as actuais instalações, depois de termos estado no centro da vila de Benavente. Foi desafiante mudar tudo. Introduzi na empresa a contabilidade que era feita fora. Nada foi fácil no princípio, mas a empresa também foi crescendo comigo. Gosto de desafios, embora às vezes seja difícil saltar as barreiras.
Numa empresa familiar, o segredo da longevidade é separar a gestão da empresa da parte particular. Tem mesmo de ser. Não há outra forma. Há assuntos que não se levam para casa e coisas de casa que não se levam para a empresa. Os nossos dois filhos estão hoje connosco, em sectores diferentes, e são uma mais-valia para a continuação. Têm feito um bom trabalho.
O sector automóvel mudou muito. O cliente de hoje é mais exigente e sabe melhor aquilo que pretende. Mas continua a ser gratificante quando nos escolhe. Temos clientes muito antigos, alguns desde o primeiro dia, e isso dá-nos gosto para continuar. Gerir uma empresa hoje exige muito. Temos tendência para inovar, em equipamentos e em pessoal, embora nem sempre tão depressa como gostaríamos. Temos colaboradores que estão cá praticamente desde que viemos para as instalações na EN118 e temos também três jovens que estão a aprender e podem ter aqui o futuro deles, se assim entenderem.
As exigências são maiores por parte do Estado, da marca e do cliente. Temos de estar constantemente actualizados para evitar problemas fiscais e responder às formações. A mecânica e a chapa estão sempre em formação; todos precisam de informação da marca. Isso obriga-nos a investir mais para minimizar as dificuldades do dia-a-dia.
Fora da empresa, sou uma pessoa normal. O que às vezes me tira do sério é a saúde, que nem sempre é muita. Um dos meus prazeres são os carros clássicos. O meu marido nasceu com esse gosto e eu acabei por me apaixonar também. Gosto de organizar eventos, preparar tudo para que corra bem e para que as pessoas que vêm aos nossos passeios fiquem satisfeitas. Os carros clássicos fizeram-nos conhecer o país, sobretudo o interior. Cada organização leva-nos a sítios onde provavelmente não iríamos sozinhos. Quando recebemos pessoas em Benavente também tentamos mostrar lugares que talvez não conhecessem. Gosto de ir ao estrangeiro e conhecer culturas diferentes, mas cada vez mais aprecio Portugal. O nosso país é pequenino, mas do Norte ao Sul é totalmente diferente e tem uma beleza única.
De Benavente, sinto falta de mais zonas turísticas para mostrar. Quando organizo passeios de carros clássicos, tenho dificuldade em variar roteiros. Há coisas que existem e podiam ser mais exploradas. Também falta restauração para grupos e alojamento. Já houve pessoas que não vieram por não conseguirem encontrar onde ficar. Se o aeroporto vier para cá, será um misto. Pode trazer turismo, hotéis e melhores estradas, porque a Estrada Nacional 118 é um caos. Mas também vai retirar sossego. Não há fórmula perfeita. Ainda assim, penso que pode ser muito bom.
Sobre os automóveis eléctricos, temos de aceitar a realidade. Temos eléctricos, temos combustão e o cliente é que sabe aquilo que quer. Cabe-nos adaptar. Para quem faz poucos quilómetros no dia-a-dia, mesmo até Lisboa, pode ser mais económico, mesmo sendo mais caro na compra. Para férias e deslocações longas, pode não compensar por causa da autonomia. Tudo depende da vida do cliente.


