Três Dimensões | 22-07-2026 07:00

“É muito complicado despejar pessoas; é preciso um grande estofo emocional”

“É muito complicado despejar pessoas; é preciso um grande estofo emocional”
TRÊS DIMENSÕES
Natália Ferreira é solicitadora e agente de execução no Carregado - foto O MIRANTE

Há quase 30 anos que Natália Ferreira trabalha na área da solicitadoria e, mais tarde, na execução. Pelo seu escritório, no Carregado, passaram centenas de processos e histórias de vida que lhe ensinaram que, por detrás de cada dívida ou penhora, existe sempre uma pessoa. Para além do trabalho gosta de praia, cozinhar para a família e, quando se reformar, quer viver junto ao mar.

Nasci em Triana, concelho de Alenquer, onde estudei e onde continuo a viver. Tirei o bacharelato de solicitadoria e comecei a trabalhar num escritório de advogados, como administrativa, na vila alta de Alenquer. Fiquei lá 12 anos e depois voltei a estudar e tirei a licenciatura. Abri o meu escritório com mais um colega no Carregado. Era um espaço com várias salas e eu tinha a minha. Mais tarde é que vim para onde estou agora, também no Carregado.
O maior desafio para mim é falar com os clientes e lidar com os serviços públicos. Desde há cinco anos que noto que a falta de meios humanos nos serviços públicos nos tem dificultado e atrasado a vida profissional. Queremos despachar os processos e não conseguimos. Isto ligado à solicitadoria, porque também tenho a área da execução desde 2003, altura em que resolvi tirar a especialidade, e tem sido uma lição de vida. É muito complicado despejar as pessoas, por exemplo. É preciso um grande estofo emocional. Ando um bocado cansada da execução, porque as pessoas estão num estado em que nos culpam, enquanto profissionais, das dívidas que têm. Acaba por ser um retrato da sociedade, e isso acontece por fases. Mas , não faço diligências um mês antes do Natal ou da Páscoa e, claro, também não as faço durante as férias judiciais. Há famílias em situações muito complicadas e de todas as idades, quando os executados são, por exemplo, os netos, pessoas que têm entre 20 e 30 anos, cujos avós foram fiadores.
Tenho uma ideia muito própria do nosso papel e do papel do advogado. Se todos pensassem assim, acho que as duas profissões se dariam melhor. Explico porquê: até há mais ou menos duas décadas, o solicitador estava mais dedicado à parte da procuradoria, ou seja, a tratar das legalizações de terrenos e de casas, a fazer escrituras e a tratar de tudo a nível de Finanças e conservatórias. Mas nós, desde 2006, conseguimos fazer algumas das escrituras chamadas DPA. Só não temos autorização para fazer as habilitações de herdeiros e as justificações de usucapião. As restantes podemos fazer. O papel do solicitador, tal como o vejo, é basear-se nessa área e deixar ao advogado a parte do tribunal. Não faço tribunal, não posso e nem quero. Mas tenho colegas que fazem. Além disso, como sou agente de execução, não posso ser mandatária. Quando aparecem determinados assuntos, encaminho-os para um advogado e trabalhamos em parceria.
Para ser uma boa solicitadora tenho de estar sempre actualizada a nível legislativo, porque todas as semanas sai legislação nova. Há sempre alterações em variadíssimas matérias. É preciso ser honesta e, infelizmente, nem sempre há honestidade entre alguns colegas. Isto não é só pedir dinheiro. Temos de dizer e mostrar o que vamos fazendo ao longo do processo. É claro que temos despesas para pagar, deslocações e que pedimos dinheiro ao cliente para avançar, mas não vale tudo. Por causa disso havia muitos processos disciplinares. Já fiz parte dos órgãos deontológicos da minha Ordem.
Infelizmente há procuradoria ilícita. Há uns anos fiz denúncia de duas situações, uma delas em Alenquer, porque nas aldeias as pessoas não se querem deslocar à conservatória ou não conseguem marcação nas Finanças e há sempre alguém que trata do assunto e “desenrasca”. Tive um caso há cerca de quatro meses que nunca tinha tido ao longo destes quase 30 anos de solicitadora: uma partilha com 76 prédios. Foi um caso muito interessante.
Gosto de desafios e de coisas difíceis e tenho uma excelente funcionária, muito atenta, muito responsável e que me ajuda imenso. Sem ela não conseguia fazer o que faço. Este trabalho exige muito tempo e muito estudo. Depois tenho de ir fazer diligências na rua, penhoras, citações, notificações e despejos. Estando fora, não conseguia estar também no escritório e, por isso, a Sandra é realmente essencial.
O online foi uma coisa muito boa. Só que agora também tem o seu lado negativo, porque o registo pode cair numa conservatória onde leve um ano a ser efectuado. Acho que as nossas Ordens andam a tentar resolver essa situação com o Governo. Se for uma conservatória que cumpra os prazos normais, de 10 dias, 20 dias ou um mês, tudo funciona lindamente.
Na execução tive uma situação em que tive de fazer um despejo com um casal e quatro filhos. Nessas situações tenho de notificar a câmara, a assistente social e outras entidades. Quando o processo entra em fase executiva já não há advogado nenhum que não tenha feito todas as diligências anteriores. A execução é a última linha. Já se deram todos os prazos, o processo já andou um ou dois anos a marinar e a pessoa sabe que aquilo vai chegar àquela fase. Nunca tive uma ameaça directa, mas um senhor escreveu-me uma carta a ameaçar-me de morte. Como juntei essa carta ao processo, o juiz mandou extrair certidão e apresentou queixa ao Ministério Público. Mais tarde desisti do processo e o senhor acabou por falecer.
Normalmente escolho ir de férias na altura das férias judiciais. Mas por vezes não é fácil, porque a minha funcionária também tem de ir de férias. Às vezes podemos fechar um dia ou dois, mas não mais, até porque os agentes de execução têm horários muito específicos. Tenho, por exemplo, sempre duas horas por dia, das 15h00 às 17h00, durante as quais tem de estar sempre alguém no escritório para atender o telefone, mesmo nas férias judiciais. Para a solicitadoria ninguém me impõe regras.
Tenho dois filhos, uma com 35 anos e outro com 25, e dois netos. Vejo televisão e gosto de acompanhar as notícias. Gostava de ler mais, mas a minha vista anda cansada. Gosto muito de cozinhar para a família e gosto de praia. Gostava de não levar o telemóvel, mas é impossível largar o telefone e o computador.
Houve uma altura em que era a única agente de execução e caiu-me um verdadeiro boom de processos executivos. Fazia serões até às 04h00 da manhã e dormia apenas três horas, das 04h00 às 07h00. Depois levantava-me para levar os meus filhos à escola. Foi uma fase difícil, mas nunca se queixaram. Hoje fecho o escritório às 18h00 e é muito raro ficar até mais tarde. E não levo problemas para casa. Desligo.
Não sou ansiosa, mas é uma profissão desgastante. Honestamente, acho que há muitas pessoas a entrar nesta carreira, mas actualmente não a escolheria. Há 30 anos era diferente. Hoje consigo ter uma carteira de clientes porque as pessoas passam a palavra. Inclusive, tive um senhor que me disse: “Olhe, sabe, fui ao Google e vi lá os comentários. São poucos, mas são tão bons…”. E eu nem sabia disso. A maioria dos meus clientes é dos concelhos de Alenquer, Vila Franca de Xira, Rio Maior e Torres Vedras, embora também tenha alguns de Lisboa. Gostava de me reformar aos 65 anos, que é a idade que a minha caixa me permite. O meu sonho é ir morar para o Algarve, talvez para a zona dos Salgados.

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