Três Dimensões | 05-08-2026 10:00

“Um problema nos pés é uma questão de saúde, não estética”

“Um problema nos pés é uma questão de saúde, não estética”
TRÊS DIMENSÕES
Sandra Pita, enfermeira e fundadora da CliniPé em Abrantes - foto O MIRANTE

Enfermeira e gerente da CliniPé, em Abrantes, Sandra Pita fez da enfermagem podológica a sua missão de vida. Defende que os pés são uma questão de saúde, não de estética, e concilia a gestão da clínica com o trabalho em vários concelhos da região e a vida de mãe de três filhos.

Nasci e cresci em Abrantes e sempre soube que queria trabalhar na área da saúde. Curiosamente, o meu percurso começou por um desvio. O meu pai achava que a enfermagem era uma profissão pouco prestigiada e incentivou-me a seguir Engenharia Química, que ainda segui durante três anos. Mas percebi rapidamente que aquele não era o meu caminho. A vontade de cuidar dos outros falou mais alto, mudei para Enfermagem e depois especializei-me em Podologia.
Nunca tive ambição de fazer outra coisa que não fosse ser enfermeira. Quando tinha 16 anos, a minha avó teve uma situação muito grave no hospital, em Abrantes, e acabou por falecer. Eu ia lá todos os dias e percebi que era aquilo que queria. Fascinou-me a componente da empatia e dos cuidados nesta profissão. Também sempre fui fascinada pelos pés e como eles podem afectar o resto do corpo. O grande marco da minha vida tem sido ajudar a mudar a forma como são vistos.
Sempre acreditei que um problema nos pés é uma questão de saúde, não estética. Quando comecei a trabalhar no Centro de Saúde de Mação, sobretudo com idosos e cuidados domiciliários, a importância desta área ficou ainda mais evidente e levou-me a investir cada vez mais na formação. Fiz uma especialização em Enfermagem Podológica e mais tarde fiz mestrado em Podologia Clínica Avançada, em Espanha. Quanto mais aprendia, mais tinha a certeza de que era este o meu caminho. Abrir a CliniPé, em 2015, foi um dos momentos mais importantes da minha vida. Nunca tive dúvidas de que seria no centro comercial Sopadel. Nasci praticamente ao lado e, em criança, vinha todos os dias com os meus pais tomar café aqui. Costumava dizer ao senhor Matos que um dia ia ter ali uma loja e ele ria-se. Mas quando terminei o curso disse-lhe ‘quero aquela loja para mim’ e hoje é onde está a CliniPé. Só fazia sentido ser aqui.
Criar uma clínica enquanto enfermeira também foi um desafio. Na altura não era comum e muitas pessoas estranharam a ideia. O meu pai chegou a perguntar-me por que é que tinha de ser sempre diferente dos outros e quando disse que ia abrir isto ia tendo um colapso. Hoje é o meu maior fã, o que me deixa muito feliz. Ao longo dos anos tenho recebido também convites para prestar consultas noutras clínicas da região e para mim isso é um reconhecimento e valorização enorme do meu trabalho. Aliás, acredito profundamente que a saúde tem de ser feita em equipa. Sempre que um caso exige trabalho com ortopedistas, fisioterapeutas ou cirurgiões, não vejo isso como uma derrota. Pelo contrário. A maior vitória é conseguirmos ajudar o doente. É isso que me realiza. Sinto que ainda existe muito preconceito em relação aos cuidados com os pés. Muitas pessoas pensam que só deve ser cuidada a estética, mas os pés sustentam todo o corpo e qualquer alteração pode ter impacto na postura e noutras partes do corpo. Aos 46 anos, essa ligação ainda é o que continua a fascinar-me todos os dias.
Gerir uma empresa significa viver praticamente ligada ao trabalho 24 horas por dia. Passei de um horário das nove às cinco para um horário das nove às nove, porque quem trabalha por conta própria sabe que a responsabilidade nunca termina. Mas os meus pais são ambos professores do ensino primário e com eles aprendi valores que ainda hoje fazem parte da minha vida, como a educação, a humildade, o carácter e, acima de tudo, a pontualidade.
Sou muito organizada e gosto que tudo funcione ao segundo. Com três filhos, uma clínica e vários locais onde presto consultas, essa organização torna-se uma necessidade. Faço questão de reservar algum tempo para a minha família e para mim e hoje consigo proteger melhor esse equilíbrio. Sou uma pessoa teimosa, perfeccionista e persistente e essas características ajudam-me muito na profissão, embora às vezes também tragam alguma ansiedade. Também não consigo imaginar-me reformada. Gosto demasiado do que faço. Enquanto tiver saúde quero continuar, pois ao final do dia o que mais me realiza é saber que houve alguém que voltou a pôr o pé no chão sem dor. Assim como chegar a casa e ter os meus filhos à minha espera. Esse tempo com eles também é o que dá sentido à minha vida. Uma vida que considero intensa e exigente, mas para mim é exatamente isso que a torna perfeita.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias

    Edição Semanal