João Tenreiro: “A política é uma missão, não uma profissão”
Nasceu em Tomar e, apesar de hoje dividir a vida profissional entre Lisboa e Santarém, nunca deixou de sentir que é ali que estão as suas raízes. Advogado de formação, funcionário público e presidente da Assembleia Municipal de Tomar, João Tenreiro encara a participação política como uma forma de serviço. Aos 52 anos, continua a acreditar no valor da lealdade, da verdade e da proximidade entre eleitos e cidadãos.
Nasci e cresci em Tomar. Foi lá que passei a infância e a adolescência, até aos 18 anos, quando fui estudar Direito para Lisboa. Guardo a memória de uma cidade diferente, muito marcada pela imagem de “cidade-jardim” e por uma forte componente industrial. Tomar tinha fábricas, emprego e uma dinâmica económica que, entretanto, se perdeu em parte. Hoje está muito virada para o turismo, e compreende-se porquê: o rio Nabão, o castelo, o Convento de Cristo e toda a herança templária dão-lhe uma riqueza histórica única. Para mim, continua a ser a grande cidade do distrito.
O associativismo sempre foi uma das grandes riquezas de Tomar e continua a dar identidade e dinâmica à cidade. Passei pelo Sporting de Tomar, experimentei o hóquei em patins, pratiquei badminton e tive contacto com a música. Das melhores memórias de infância ficam também os meses de férias em Armação de Pêra com os meus pais e a minha irmã, as idas à aldeia dos meus avós, no concelho de Pinhel.
A política entrou cedo na minha vida. O meu pai era militante do PSD, embora sem uma intervenção muito activa, e eu filiei-me na Juventude Social Democrata aos 16 anos. Naquele tempo, as sedes partidárias eram também lugares de encontro e amizade. Não havia redes sociais nem grupos de WhatsApp. Para falarmos, tínhamos de estar juntos. Hoje tudo acontece a uma velocidade muito maior.
Na escola, quando algum colega se metia em problemas, acabava muitas vezes no papel de “advogado de defesa”. Queria defender causas. Mais tarde percebi que a advocacia real era diferente daquela que víamos na televisão. Fui-me afastando do Direito Penal e aproximando de outras áreas, mas nunca perdi o gosto por explicar. Talvez isso venha dos meus pais, ambos professores. Como advogado, procurava traduzir a linguagem jurídica para uma linguagem simples, para que as pessoas percebessem o porquê das coisas. Continuo a considerar-me um homem de causas. Interessa-me melhorar a qualidade de vida das pessoas, defender o interesse público, combater a corrupção, criar melhores condições para os jovens e valorizar a educação.
A minha experiência autárquica ensinou-me muito. Passei por uma junta de freguesia, na qual fui vogal, fui vereador da oposição e membro da assembleia municipal antes de assumir a presidência deste órgão. A proximidade é diferente em cada função. Numa freguesia sentimos quase imediatamente os problemas das pessoas; no executivo lidamos com decisões concretas; na assembleia municipal temos a responsabilidade de fiscalizar, promover o debate e garantir que todas as forças políticas têm condições para se fazer ouvir.
Enquanto presidente da assembleia municipal, quero sobretudo aproximar o órgão dos cidadãos. Há muitas pessoas que nem sabem exatamente o que é uma assembleia municipal, quem a compõe ou que podem assistir e intervir. Temos continuado a descentralizar sessões e aproximar-nos das freguesias e das escolas, incluindo através da Assembleia Municipal Jovem. É importante que os mais novos percebam cedo que a democracia não é uma coisa distante. Também aprendi que é preciso saber ser oposição. Criticar por criticar não chega. Uma oposição responsável deve apontar erros, apresentar alternativas e reconhecer quando uma proposta merece voto favorável. A política trouxe-me muitos amigos e alguns confrontos, como é natural, mas não tenho inimigos.
Há uma frase do meu pai que nunca esqueci: “Na política, um pé dentro e o outro de fora”. Foi um conselho decisivo. A política é uma missão para um determinado período da nossa vida, não uma profissão. Estamos num cargo para dar o melhor que sabemos e, depois, devemos saber dar lugar a outros, com novas ideias e novas energias. Procurei sempre conciliar a actividade política com a vida profissional, mesmo sabendo que a vida pessoal acaba por vezes sacrificada.
Hoje trabalho em Santarém, vivo em Lisboa e vou muitas vezes a Tomar. O meu filho, de 14 anos, estuda em Lisboa. O que quero transmitir-lhe é aquilo que considero essencial: ser leal, ser verdadeiro, ajudar os outros e estudar para poder escolher o seu próprio caminho. Considero-me sonhador, lutador e determinado. Valorizo acima de tudo a lealdade e a verdade. Aos 52 anos ainda tenho viagens por fazer: gostava de conhecer Nova Iorque, o Rio de Janeiro e fazer um safari em África. Quanto a Tomar, se tivesse uma lâmpada mágica, tirava-lhe os focos de poluição no Nabão. O rio atravessa o coração da cidade e é uma das suas maiores riquezas. Cuidar dele é também cuidar da identidade de Tomar.


