Três Dimensões | 26-08-2026 18:00

Diogo Oliveira: “A restauração é uma arte e não pode ser banalizada”

Diogo Oliveira: “A restauração é uma arte e não pode ser banalizada”
TRÊS DIMENSÕES
Proprietário do restaurante Sintonia, em Salvaterra de Magos, Diogo Oliveira defende uma restauração feita de proximidade, conhecimento e atenção ao cliente - foto O MIRANTE

Diogo Oliveira cresceu no Porto Alto e vive nos Foros de Salvaterra. Entrou na restauração através do ensino profissional, passou pela hotelaria em Lisboa e no Alentejo, foi formador e, em Julho de 2024, abriu com a mulher, Vânia Modesto, o restaurante Sintonia, em Salvaterra de Magos.

Tenho 39 anos, sou natural do Porto Alto, em Samora Correia, onde cresci e passei a adolescência, e vivo nos Foros de Salvaterra desde 2013 ou 2014. Da infância lembro-me dos carrinhos na terra, da bicicleta, da bola e do tempo passado com os avós. Havia poucos miúdos onde vivia e muitas vezes tinha de me entreter sozinho. Não venho de uma família ligada à restauração. Em casa gostava da cozinha da minha mãe e, quando chegou a altura de escolher um caminho, senti que aquele curso me dizia alguma coisa. Entrei em 2002 na Escola Profissional de Salvaterra de Magos, numa formação ligada à cozinha, pastelaria e restaurante/bar. Foi aí que percebi que me identificava com esta área. O gosto nasceu também do contacto com as pessoas. Continuo a achar que esta profissão é uma arte, que não pode ser banalizada.
O ensino profissional permitiu-me fazer dois estágios no mesmo hotel em Lisboa, o então Le Méridien e hoje InterContinental. Primeiro no restaurante e depois no bar. Fiquei lá a trabalhar. Foi uma grande escola. Mais tarde fui para o Alentejo, trabalhei num resort e, em 2013, comecei a dar formação na escola, experiência que mantive até 2022. Depois começámos a pensar em criar o nosso espaço e dar aos clientes um pouco daquilo que sabíamos. O Sintonia nasceu porque entendemos que Salvaterra precisava de algo um pouco mais moderno e ligado à nossa formação. Abrimos a 27 de Julho de 2024, na Avenida Doutor Roberto Ferreira da Fonseca. A Vânia, minha mulher, está na cozinha e eu no restaurante, a receber as pessoas e a servir aquilo que ela idealiza com a equipa.
O nome resume o projecto. Sintonia é ligação, pois temos de estar interligados para que as coisas aconteçam. Queremos que o restaurante seja um espaço de partilha e convívio, onde a pessoa se senta, prova e tem uma experiência. Não somos acartadores de pratos. Sou empregado de mesa e tenho todo o gosto em dizê-lo. Não quero apenas pôr comida na mesa, receber e ver o cliente sair. É importante que perceba aquilo que fazemos, a origem do produto e o acompanhamento que sugerimos. Gerir um restaurante obriga a controlar preços, analisar o mercado, pensar a carta e trabalhar a sazonalidade. Usamos muito o arroz, até pela proximidade das lezírias, com confecções diferentes. Mas todos os dias é preciso olhar para a factura e para os preços. E é preciso ter clientes. Sem clientes não há pagamentos, ordenados ou projecto. São eles a nossa jóia.
Há todo o tipo de clientes e carteiras. Uma refeição pode ficar pelos 15 euros e meio, mas também chegar aos 25, 30, 40 ou 50 euros, consoante aquilo que a pessoa quer provar. Sinto que há mais exigência e curiosidade, o que nos obriga a explicar melhor o que servimos e a defender a qualidade. Quando os custos sobem, o contacto com o fornecedor é fundamental. Se algo aumenta, tentamos equilibrar, mudar o prato ou procurar outra matéria-prima com qualidade. Fizemos isso com o entrecôte, testando peças nacionais e internacionais até afinarmos.
Ser empresário em Portugal é uma luta diária. Abrimos a porta e esperamos que o cliente apareça; quando aparece, temos de dar o nosso melhor para que volte e divulgue. Para mim, o boca a boca continua a valer mais do que uma fotografia nas redes sociais. Gostava que se analisasse melhor a carga fiscal e a possibilidade de quem cria emprego canalizar mais investimento para melhores ordenados ou para o espaço. Não estou por dentro das decisões e sei que não será simples, mas é uma ideia que colocaria em cima da mesa.
A mão-de-obra é outra preocupação. Há alguns anos, muitos alunos terminavam o curso com 20 ou 21 anos e agora acabam com 17 ou 18, e sente-se a diferença de maturidade. Além disso, trabalhamos quando os outros descansam. Tentamos fazer pausas em épocas festivas, quando é possível, e criar horários que não transformem a hotelaria numa “prisão”. Somos oito pessoas e quase toda a equipa tem formação em restauração, muita dela feita em Salvaterra. A pastelaria é feita por nós e o bar trabalha cocktails, limonadas e sangrias. Fora do restaurante continuo a gostar de trabalhar. Muitas vezes chego a casa e vou ao computador tratar da documentação. Quando desligo, gosto de passear, ir à praia, almoçar ou jantar com a minha mulher e o meu filho e provar coisas diferentes.
Não sou vidente para adivinhar o futuro, mas a quem quer fazer carreira nesta área digo que é fulcral não desistir. Eu próprio estive três meses a trabalhar sem receber ordenado porque acreditava num projecto. Vivia no sítio, comia por lá e a minha mãe ajudava-me quando já não havia capital na conta. Se quisermos chegar ao topo temos de começar por baixo. Também vejo muito potencial em Salvaterra. Temos falcoaria, visitas guiadas, passeios de barco, começa a haver alojamento e estamos perto de Lisboa e Santarém. Já recebemos clientes que viajam de norte para sul, ou ao contrário, e fazem aqui uma paragem. Gostava de ver crescer a oferta turística e surgir algum espaço para os jovens, como um lounge, um bar ou uma discoteca.
Às vezes os amigos vão ao Rock in Rio, à praia ou a um concerto e eu estou a trabalhar. Se estou de folga à quarta-feira, combinamos jantar à quarta. É adaptar. Não há dois dias iguais e até as mesas têm de ser adaptadas ao cliente e ao grupo. É essa capacidade de adaptação, de acreditar e de não desistir à primeira que me continua a prender a esta profissão.

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