Luísa Daniel trocou a Psicologia pela farmácia mas nunca deixou de ouvir pessoas
Licenciada em Psicologia, Luísa Daniel acabou por encontrar na farmácia da família uma profissão que não estava nos seus planos. Há 24 anos ao balcão da Farmácia Romeiras, no Forte da Casa, garante que o trabalho de farmacêutica também passa por ouvir, conversar e acompanhar quem ali entra.
Trabalho na Farmácia Romeiras há 24 anos. A farmácia era da minha mãe, que a fundou em 1980. Somos três irmãs, eu e a minha irmã mais nova, a Margarida, somos farmacêuticas. A minha irmã sempre teve a ideia de ser farmacêutica. Eu não. Nós vínhamos para a farmácia em miúdas, nas férias, mas antes de começar aqui a trabalhar licenciei-me em Psicologia. Ainda estive dois anos como estagiária voluntária, sem remuneração, num hospital em Lisboa e dava consultas numa clínica na Póvoa de Santa Iria. Ao fim de dois anos comecei a ficar um bocadinho frustrada, desanimada. Concorri a todos os concursos que havia, mas não consegui mais do que isso. Falei com os meus pais e disse-lhes que não me arrependia nada de ter tirado o curso, mas que realmente não estava a gostar daquilo. Comecei primeiro a trabalhar na farmácia, em back office, a dar entrada e saída das encomendas e a arrumar.
A minha mãe sugeriu-me para começar a fazer o registo da prática de farmácia. Eu tinha 26 anos e pensei que a licenciatura era difícil porque tinha muita Química, mas em 2003 comecei a tirar o mestrado integrado em Ciências Farmacêuticas, ao mesmo tempo que ia trabalhando na farmácia. Tinha o estatuto de trabalhador-estudante, o que também me facilitou muito nos estudos, porque tinha mais uma época para os exames. A minha irmã começou a trabalhar como farmacêutica e, passado uns anos, a minha mãe passou a direcção técnica para ela. Quando terminei o curso juntei-me como farmacêutica.
Há muita gente que gosta de dar o seu dedo de conversa. Às vezes são coisas banais, outras vezes são realmente situações importantes. Nesse aspecto, acabo por exercer um bocadinho mais a minha primeira formação. Claro que não faço Psicologia, mas as pessoas às vezes dizem: “Ah, a doutora devia ser psicóloga”. Não sou uma pessoa muito extrovertida. Sou mais reservada, sobretudo comparando com a minha irmã. Mas no balcão é diferente. Há todo o tipo de pessoas. Temos pessoas mais difíceis, mas temos de conseguir, de alguma forma, dar a volta à situação. Às vezes há pessoas que entram e parece que vêm chateadas com a vida. Mas a maioria das pessoas é simpática. Muitas já são nossas clientes há muito tempo.
O atendimento não é só dar os medicamentos e dizer como é que se toma. É a interacção entre as pessoas. Ainda há dias entrou uma senhora e disse: “Aqui para onde quer que olhemos só vemos sorrisos. Vocês estão todas sempre a sorrir”. As pessoas têm necessidade de que os outros sejam empáticos com elas. Eu acho que, no geral, há cada vez menos empatia. A pessoa não está disponível para o outro. As pessoas estão mais egoístas. Nós gostamos de ajudar as pessoas.
Nos medicamentos, os erros acontecem principalmente quando as pessoas têm muita medicação, às vezes podem trocar as tomas ou o número de vezes que têm de tomar. Também há os medicamentos de marca, os genéricos, imensos laboratórios. Temos alguma preocupação em tentar dar à pessoa aquilo a que já está habituada, porque há embalagens muito parecidas. Por isso, às vezes escolhemos caixas diferentes umas das outras para se conseguirem orientar.
Nos tempos livres gosto muito de ler. Este ano, por acaso, não o fiz tanto, mas fazia ballet uma vez por semana. Fiz ballet desde os cinco anos até aos 22 e depois parei. Há uns cinco anos voltei outra vez a fazer, embora com mais dificuldade. Ajuda-me a desligar, porque a cabeça fica concentrada e desanuvia bastante. Também gosto de estar em sítios tranquilos. Pode ser na praia, no campo ou na montanha. Gosto principalmente de natureza. Não gosto de sítios muito turísticos, muito massificados. Moro no concelho de Vila Franca de Xira numa zona mais calma, estou no campo, mas estou perto de tudo.
Tenho duas filhas e tento transmitir-lhes principalmente a honestidade e a preocupação com as outras pessoas. O dinheiro não justifica, nem vale tudo. A pessoa ser íntegra, fazer aquilo em que acredita, tendo os valores no lugar certo. Tenho redes sociais, mas é mais para ir sabendo o que acontece no mundo. Como raramente vejo notícias na televisão, é mais por aí que vou acompanhando. Também gosto de saber o que se passa aqui na zona. Sigo O MIRANTE no Facebook.
Se pudesse mudar alguma coisa no Serviço Nacional de Saúde, gostaria que oferecesse condições suficientes para que os médicos quisessem ir e gostassem de lá trabalhar. Há concursos que ficam desertos. Os médicos não vêm. Não sei se é o salário, se são as condições físicas, se são os horários, não faço ideia. Mas algumas coisas deveriam melhorar. Também há muita gente que não consegue pagar os medicamentos. Temos clientes antigos, com reformas pequenas. Muitos vão levantando a medicação à medida que vai acabando para conseguirem gerir melhor o dinheiro que têm.
Sou um bocadinho teimosa. Às vezes pode ser um defeito ou uma qualidade, mas muitas vezes é um defeito. Tenho de ir ao fundo da questão para perceber qualquer coisa. Já na infância enquanto não me dessem uma resposta que me satisfizesse, não descansava. Hoje não é bem fazer perguntas, mas é ir procurar. Se alguma coisa não ficou bem, fico com aquilo na cabeça e não largo o osso enquanto não descobrir.
Um conselho que me marcou foi dado pelo meu pai quando tinha cerca de 20 anos. Tive um acidente de carro com um camião. O carro ficou um bocadinho amachucado, mas continuava a andar. Fui directa para casa e disse que já não ia fazer o que tinha previsto. O meu pai disse-me: “Não. O carro está a andar. Então vais-te meter no carro e vais fazer o que tinhas que fazer.” Eu dizia que não conseguia, que estava a tremer. Ele respondeu-me que conseguia e que ia. E fui. Hoje reconheço que, se não tivesse ido, se calhar teria deixado de conduzir ou provavelmente teria demorado muito mais tempo a voltar a conduzir com confiança. Hoje não me custa nada e continuo a gostar de conduzir.


