“Não adianta criar uma imagem bonita se o produto não tiver qualidade”
Liliana Marques cresceu numa aldeia e formou-se em Marketing na Universidade da Beira Interior. Trabalhou quatro anos numa editora em Lisboa, regressou à terra por sentir que não estava a ser valorizada profissionalmente. Há oito anos passou a integrar a empresa familiar onde trabalha actualmente nas áreas de marketing e gestão da comunicação.
Chamo-me Liliana Marques e tenho 36 anos. Quando olho para o caminho que percorri, percebo que sou resultado de tudo aquilo que fui vivendo. Cresci numa aldeia no concelho de Mação, numa família em que o trabalho sempre teve um peso muito grande e onde aprendi desde cedo que nada se conquista sem esforço. Hoje trabalho na área do marketing, depois de ter passado por praticamente todos os sectores da empresa Sabores do Ti Pereira. Mas nem sempre soube que era este o caminho que queria seguir.
Na empresa onde estou há oito anos comecei a fazer um pouco de tudo. Recursos humanos, trabalho administrativo, inserção de facturas, inventários, pagamentos, encomendas a fornecedores. Éramos apenas duas pessoas no escritório e a empresa foi crescendo. Hoje temos processos muito mais organizados e padronizados e eu estou mais direccionada para a minha área de formação, o marketing. Ainda assim, continuo a ser aquela pessoa a quem muitas vezes chegam os problemas e que tem de ajudar a encontrar uma solução. E gosto disso. Gosto de sentir que sou uma mais-valia.
Sou uma pessoa de trato fácil, calma e tranquila. Acho que uma das características que mais me ajudou ao longo da vida foi precisamente essa capacidade de manter a calma quando os outros já estão a perguntar: “e agora, o que vamos fazer?”. A minha resposta costuma ser simples: tudo se resolve. Prefiro concentrar-me na solução do que ficar presa ao problema. Se alguma coisa não correr bem, penso que da próxima vez podemos fazer melhor.
Essa forma de estar vem também das minhas origens. Crescer numa aldeia ensinou-me muito. Quando somos pequenos, não somos educados apenas pelos nossos pais. Somos educados por toda a comunidade. Pela senhora da mercearia, pelos vizinhos, pelas pessoas que nos acompanham quando os nossos pais não podem. Cresci a ver uma geração de pais que, muitas vezes sem grandes estudos, trabalhou para dar aos filhos oportunidades que eles próprios não tiveram. Sou também fruto dessa geração.
Durante muito tempo nem sequer pensei em ir para a universidade. No décimo ano fui para Ciências porque os testes psicotécnicos apontavam para essa área, mas rapidamente percebi que não me identificava. Decidi mudar. Voltei ao décimo ano e fui para um curso profissional ligado ao marketing. E aí tudo mudou. Passei de uma aluna mediana para uma aluna de 16 e 17 valores e terminei o secundário com a melhor média da turma. Percebi que, quando gostamos daquilo que estamos a fazer, a motivação muda tudo. Mais tarde fui para a Universidade da Beira Interior, na Covilhã, onde tirei a licenciatura e depois uma pós-graduação na área do marketing.
Depois de terminar o curso fui directamente para Lisboa. Trabalhei quatro anos numa editora, na área da comunicação e marketing, acompanhando autores, sessões de autógrafos, lançamentos de livros e comunicação com os meios de comunicação social. Gostava muito do trabalho que fazia, mas comecei a sentir que não estava a ser valorizada. Foi aí que tomei uma das decisões mais importantes da minha vida e voltei para a terra. Na altura pensei que não tinha nada a perder. Não tinha casa, filhos ou nenhuma outra responsabilidade que me ligasse verdadeiramente àquele lugar. Tinha liberdade para arriscar e arrisquei. Voltei sem saber exactamente o que iria acontecer e comecei a trabalhar noutra área, numa empresa de material eléctrico. Apesar de não ser a minha área de formação, aprendi muito. E essa aprendizagem acabou por ser importante mais tarde.
Acredito muito na polivalência. Quero estar disponível para ajudar no que for preciso, seja a tirar cafés, atender clientes, lavar loiça ou fazer qualquer outra tarefa necessária naquele momento. O meu dia de trabalho não é propriamente feito de uma lista rígida de tarefas. Chego de manhã e começo por perceber o que é urgente. Depois acompanho as redes sociais, procuro tendências na área da pastelaria e padaria, vejo o que está a acontecer noutras empresas e tento perceber o que podemos trazer para as nossas lojas. Gosto especialmente dessa parte de transformar uma tendência numa oportunidade.
Também gosto muito dos bastidores. De ir à produção, provar produtos novos, falar com os pasteleiros e perceber o que podemos melhorar. O marketing, para mim, não é apenas publicar uma fotografia bonita nas redes sociais. É conhecer aquilo que estamos a vender. Aliás, não sou muito de imagens demasiado trabalhadas. Gosto da realidade. Gosto de mostrar os produtos como eles são, os bastidores e aquilo que acontece dentro da empresa. Não adianta criar uma imagem bonita se, quando o cliente entra na loja, não encontra qualidade, cuidado, limpeza e pessoas felizes a trabalhar.
Hoje a empresa tem 16 lojas e continua a ser procurada por pessoas de outras localidades que perguntam porque não abrimos aqui ou ali. Em 2023 abrimos quatro lojas, incluindo uma em Campo Maior, que foi provavelmente uma das maiores apostas da empresa. É claro que crescer também traz dificuldades. Actualmente o maior problema são os recursos humanos. A empresa sabe trabalhar e tem estrutura montada, mas abrir novas lojas significa ter pessoas para trabalhar nelas. E na restauração isso é cada vez mais difícil. Mesmo assim não temos medo de arriscar. Se abrirmos uma loja e não correr bem, isso não significa que deixamos de ser uma empresa com visão.
Há outra parte da minha vida que é igualmente importante, os meus filhos. Tenho dois, um de três e outro de seis anos, e ocupam grande parte do meu tempo livre. Não tenho propriamente um hobby neste momento. Sou uma espécie de “Uber dos meus filhos”, entre a ginástica, a natação e todas as actividades. E ainda bem. Quando estou com eles tento estar verdadeiramente com eles.
Se há alguma coisa que faria de forma diferente, talvez fosse aproveitar mais a minha juventude. Cresci e comecei a trabalhar muito cedo. Nunca fui aquela adolescente que ia a festivais, que fazia grandes viagens ou aproveitava todas as oportunidades. Hoje penso que devia ter vivido um pouco mais. Lembro-me, por exemplo, das viagens que a câmara organizava pela Europa. Eram dez ou onze dias de autocarro, com paragens em Espanha, Barcelona, Paris e até na Disneyland. Nunca fui. Na altura preferia trabalhar. Hoje olho para trás e penso que podia ter aproveitado aquela oportunidade. É precisamente isso que quero transmitir aos meus filhos, que o trabalho é importante, mas que também temos de aproveitar as oportunidades que a vida nos dá.
Outra coisa que valorizo muito é a palavra. Para mim, quando alguém se compromete com alguma coisa, deve cumprir. Irrita-me profundamente quando as pessoas dizem que vão fazer algo e depois não fazem. A minha palavra vale muito e gosto que a palavra dos outros também valha. No trabalho tento também ser justa. Sou uma pessoa de coração, mas a justiça vem sempre primeiro. Mesmo quando tenho vontade de dizer que sim a alguém, penso se isso não vai ser injusto para outra pessoa.
Sinto-me orgulhosa do percurso que fiz. Acho que deixei boas memórias nos lugares por onde passei. Continuo a manter contacto com antigos colegas e há pessoas que ainda hoje me procuram. Isso diz-me que alguma coisa ficou. Vim para aqui também por amor, é verdade. Mas fui conquistando o meu lugar. Visto a camisola porque gosto verdadeiramente daquilo que faço e porque acredito que uma empresa é o reflexo das pessoas que lá trabalham.


