Três Dimensões | 23-09-2026 21:00

“Morosidade da justiça deixa a vida das pessoas em suspenso”

“Morosidade da justiça deixa a vida das pessoas em suspenso”
TRÊS DIMENSÕES
Ana Marta Correia é advogada, com escritório em Pernes, no concelho de Santarém - foto O MIRANTE

A advocacia não foi um sonho de infância para Ana Marta Correia, mas acabou por tornar-se uma escolha de vida. Aos 49 anos, e com mais de duas décadas de profissão, a advogada tem escritório em Pernes, onde valoriza a proximidade com as pessoas e defende uma justiça mais rápida.

Nasci em Santarém, sou natural do concelho de Azambuja e cresci em Tagarro, onde guardo as melhores memórias de infância. Quando penso nesses anos, penso sobretudo em liberdade: andar na rua, correr, estar com os amigos e passar horas a conversar. Morava junto à igreja e havia um largo onde nos juntávamos. Os meus pais continuam a viver lá e mantenho ligação à terra.
Não cresci com o sonho de ser advogada. Sabia que queria estudar, mas não tinha uma profissão definida. Fiz o secundário nas Caldas da Rainha e depois fui para Lisboa, para a Universidade Autónoma. O Direito apareceu quase por exclusão de hipóteses e a advocacia surgiu naturalmente. Costumo dizer que foi a advocacia que me escolheu.
Não gosto de injustiças e gosto de ajudar as pessoas. Poder interferir positivamente num momento difícil da vida de alguém é uma das razões pelas quais continuo a gostar do que faço. Estou inscrita na Ordem dos Advogados há cerca de 23 anos. A faculdade dá-nos as bases, mas há áreas que só percebemos quando começamos a vivê-las. Foi assim com o Direito Penal. Tive um processo de tráfico de droga, com dez arguidos, que me marcou. Percebi ainda melhor a essência da profissão: temos a missão de defender quem representamos. Toda a gente tem direito a defesa e a prova tem de ser feita.
Muitas vezes chegam até mim famílias profundamente divididas, mas é precisamente aí que encontro uma das maiores satisfações do meu trabalho. Conseguir sentar à mesma mesa pessoas que chegaram de costas voltadas e levá-las a um entendimento, em caso de partilhas, por exemplo, é uma vitória. Antes do tribunal tento sempre conciliar, mediar e encontrar uma solução aceitável para todos.
Os processos relacionados com responsabilidades parentais estão entre os mais difíceis. Há um desgaste emocional enorme porque estamos a falar da vida de crianças e toda a família envolvente. É aí que a lentidão da justiça se torna particularmente grave. Fala-se muito no superior interesse da criança, mas quando uma decisão urgente demora demasiado tempo é legítimo perguntar onde está, na prática, esse interesse.
A justiça evoluiu tecnologicamente, mas continuamos com um problema fundamental: o tempo das decisões. Há processos que precisam de uma resposta em tempo útil porque, enquanto ela não chega, a vida das pessoas fica suspensa. Se pudesse mudar alguma coisa, criaria uma verdadeira prioridade para esses casos. Também me indigna o estado de alguns edifícios da Justiça e não é aceitável que existam serviços públicos a funcionar sem condições dignas.
Pernes surgiu na minha vida profissional há muitos anos. Já aqui tinha tido escritório com uma colega em 2005. Depois trabalhei por conta de outrem, sem abandonar a advocacia. Em 2021 voltei a Pernes. Atendia alguns clientes em casa, percebi que precisava de um espaço profissional, vi este disponível e decidi avançar. Foi, também, uma escolha estratégica. Em Santarém existem muitos advogados e em Pernes havia espaço para um serviço de proximidade. Aqui cria-se uma relação diferente com as pessoas. Hoje tenho clientes de várias zonas do país e também no estrangeiro, muitos deles chegados através do passa-palavra.
Sou uma pessoa emocional, embora profissionalmente tenha aprendido a ser racional. O meu maior defeito talvez seja confiar nas pessoas e, por vezes, essa confiança sair magoada. A minha maior virtude é a empatia. E a confiança é aquilo que mais valorizo nos outros. Com os anos aprendi a estabelecer limites. Na advocacia saímos do escritório, mas os processos vão connosco para casa. Hoje consigo dizer que num fim-de-semana não vou abrir o computador. Até nas férias costumava levá-lo comigo, mas nas últimas decidi não o fazer.
Vivemos numa sociedade do imediato. O WhatsApp, as redes sociais e o telemóvel criaram a ideia de que temos de estar sempre disponíveis. O advogado também tem uma vida pessoal e direito ao descanso. Quando não sou advogada gosto de passear, estar com a família, viajar e, às vezes, simplesmente não fazer nada. Já fui aliciada para a política e mas não quero seguir esse caminho. Poderia ter perfil para essa área, mas não quero seguir esse caminho.
Acredito nas pessoas, apesar de passar os dias a lidar com conflitos, separações, dívidas e heranças. Se deixasse de acreditar, também deixaria de conseguir fazer este trabalho. O que mais me incomoda hoje é o egoísmo, o abuso de poder e a falta de responsabilidade. Gosto do que faço e sou feliz a fazê-lo. Se tivesse mais tempo talvez voltasse a estudar Psicologia, porque me interessa compreender o comportamento humano. Ainda tenho muito para viajar, conhecer e aprender. Quero continuar a conhecer-me melhor, encontrar tranquilidade e crescer enquanto pessoa.

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