“Morrer a tourear é o destino maior de qualquer matador de toiros”
Pela primeira vez desde a sua criação, a Escola de Toureio José Falcão, em Vila Franca de Xira, tem um membro da família do saudoso matador na presidência da direcção. Miguel Falcão, 54 anos, sobrinho de José Falcão, tomou posse no início deste ano, sucedendo a António Inácio. Quer continuar a fazer da escola uma referência na região na formação de toureiros e acredita que muitas praças vazias são consequência dos preços elevados dos bilhetes. Vai a pé para o trabalho, mas se pudesse uma das coisas que melhorava em Vila Franca de Xira era as acessibilidades.
Tinha dois anos quando o meu tio morreu na arena. As únicas memórias dele são de fotos de família, mas como aficionado gostava muito de o ter visto a tourear e de o ter conhecido como pessoa. Muita gente me diz que era uma excelente e extraordinária pessoa. O artista tem o seu valor mas o José Falcão, enquanto pessoa, era enorme. Na nossa família sempre houve o bichinho da tauromaquia. O avô dele era bandarilheiro e também tinha o tio, o Carlos Falcão, que também era bandarilheiro. Na cidade, naquele tempo, havia toda uma envolvência muito forte da tauromaquia. Hoje somos uma cidade mais urbana e isso perdeu-se, infelizmente.
Morrer a tourear, pode dizer-se, é uma das maiores glórias que pode ter um matador de toiros. É o destino maior. O perigo de morte está sempre presente. Para a minha família é um orgulho imenso ter uma escola na cidade com o nome de José Falcão. Foi criada no décimo aniversário da sua morte. É giro ver uma fotografia minha no Clube Taurino, com 12 anos, a inaugurar a placa da criação da escola (risos). Na altura era o descendente mais novo. Em 2012 a escola passou a ser associação e cresceu até hoje. É um orgulho para mim liderar a escola de toureio com o nome do meu tio. Não era algo que estivesse no meu horizonte nem algo que sonhasse fazer. Foi-me apresentado o desafio e aceitei.
Encontrei uma escola com muita dinâmica, muito acima do que a maioria das pessoas pensa. Apanhei a escola num patamar de excelência, com dois maestros que são excelentes formadores, o Victor Mendes e o António João Ferreira. A escola está de boa saúde e tem 21 alunos actualmente, a tourear e a ir com muita frequência a praças de Espanha e a dar cartas. O meu sonho é que venha a sair da escola um dos grandes matadores do nosso tempo. Estamos com uma grande dinâmica e isso é positivo. Acredito que o meu tio ficaria orgulhoso da escola que a cidade criou com o seu nome.
Foi revisto o protocolo existente entre a Câmara de Vila Franca de Xira e a Escola de Toureio José Falcão, que não era mexido há quase duas décadas. Foi o reconhecimento, pelo município, do trabalho crescente que estamos a fazer. Passámos de um financiamento de 60 mil euros para 100 mil euros. Parece muito mas as despesas são imensas. Pode haver quem critique as verbas entregues à associação, mas o papel da escola vai muito além da formação de toureiros. Há um papel social importante, tirar estes miúdos da rua, dar-lhes valores, apoio. Muitos foi ali na escola que encontraram uma família e há um grande espírito de amizade, valores, humildade, união.
A afición continua a existir na cidade em grande número e continua a haver muita gente na praça. Gosto de ver muitos jovens a continuarem a tradição. Mas é verdade que as corridas de toiros são hoje um espectáculo caro e isso faz com que, por vezes, seja difícil encher as praças. Tem havido um esforço dos empresários em Vila Franca de Xira para trazer a afición para a praça. Mas a actual circunstância financeira do país também tem uma influência decisiva na quantidade de espectadores em praça.
Não gosto de ver o Jardim Constantino Palha atravessado pela linha de comboio. Mas não podemos perder o progresso no projecto da linha de alta velocidade. Não creio que num projecto destes devamos ser como uma aldeia de gauleses, mas devia ter havido um equilíbrio e o estudar de outras soluções. Se tivesse de melhorar uma coisa na minha cidade seria o trânsito e as acessibilidades. Felizmente vivo ao lado do meu local de trabalho e consigo ir a pé, mas vejo diariamente os constrangimentos que muitas pessoas sofrem para entrar e sair da cidade de carro. E o estacionamento tarifado será outro desafio. Quando a actual estação de comboios for desactivada dava um excelente museu da tauromaquia. Temos na cidade espólios lindíssimos e importantes que merecem ser conhecidas.
Gosto muito de cozinhar nos tempos livres e polvo à lagareiro é um dos meus pratos favoritos. Gosto de pratos simples e da gastronomia portuguesa, como uma boa feijoada. Quando vou de férias prefiro praia à montanha. Gosto de ir para São Martinho do Porto mas não tenho uma viagem de sonho. Não costumo pensar muito nisso. Um dos maiores medos que tenho na vida é que algo mau possa acontecer aos meus três filhos.


