“A escola tem de preparar os alunos para muito mais do que o conhecimento”
Adélia Esteves, directora do Agrupamento de Escolas Sá da Bandeira, em Santarém, prepara-se para o último mandato e quer deixar uma escola capaz de dar resposta à diversidade dos alunos, onde o sucesso escolar ande de mãos dadas com os valores e as competências socioemocionais.
Cresci em Mouriscas, Abrantes, numa família humilde, de agricultores, onde sempre houve a preocupação de que eu e o meu irmão prosseguíssemos os estudos. Desde muito cedo soube que queria ser professora. Não foi uma decisão influenciada pela família, mas sim pelos professores que tive ao longo do meu percurso escolar, que me despertaram esse gosto. Houve uma professora de Biologia e Geologia, em particular, que me fez apaixonar pela Geologia. Cheguei a ponderar seguir Engenharia Civil, mas acabei por escolher o ensino, que é o que adoro.
Fiz o curso de Geologia, no ramo educacional, na Universidade de Coimbra. Foi uma escolha muito natural para quem vinha de Mouriscas, pois naquela altura muitos jovens da terra estudavam lá. Comecei o meu percurso profissional em Cantanhede, onde fiz o estágio pedagógico, e passei depois pela Figueira da Foz, por Vila Velha de Ródão e pela Escola Ginestal Machado, em Santarém. Guardo boas recordações de todas essas escolas e de cada uma delas trouxe aprendizagens importantes. Quando cheguei à Sá da Bandeira, nunca tinha pensado ser directora, mas foi algo que surgiu naturalmente. Comecei por dar aulas de dia e à noite e foi precisamente o ensino nocturno que me levou à direcção, como vogal e responsável por essa área. Gostei do trabalho e, quando o presidente decidiu sair, colegas meus disseram-me que deveria candidatar-me. Desde 2002 que fui sendo eleita e reconduzida.
Ser directora de uma escola é ter desafios todos os dias. A sociedade mudou e há uma diversidade cada vez maior entre os alunos, incluindo muitas famílias com necessidades e alunos vindos de diferentes países. Temos de estar preparados para acolher essa diversidade e encontrar respostas, para que ninguém fique para trás. Existe também a responsabilidade de manter a Sá da Bandeira como uma escola de referência. Apesar dos desafios, gosto de resolver problemas e de encontrar soluções que deixem as pessoas tranquilas. Talvez por isso me considerem uma pessoa calma. Nem sempre sou, mas tento transmitir essa tranquilidade, pois acredito que ajuda a que tudo flua melhor.
Aprendi que nem todas as decisões devem ser tomadas imediatamente. O tempo é um bom conselheiro e, quando lidamos com pessoas, é preciso ponderar e analisar antes de decidir. Apesar de muitas vezes se pensar que o director decide tudo sozinho, há uma equipa e vários órgãos por detrás de cada decisão. Sinto que as direcções têm a vida mais dificultada com todas as burocracias e as plataformas online, que ocupam demasiado tempo. Não é propriamente algo que me perturbe, mas a quantidade de dados e prazos acaba por retirar tempo ao que considero mais importante: acompanhar e resolver os problemas da escola.
Estou no meu último mandato e gostava de deixar uma escola onde todos os alunos tenham condições para alcançar o sucesso. Ainda há situações em que os recursos não existem ou não estão suficientemente adaptados às diferentes dificuldades sentidas pelos alunos. Também gostava de ver continuidade no trabalho que temos desenvolvido ao nível das competências socioemocionais. Sinto que alguns valores se estão a perder, como a empatia, respeito, colaboração e capacidade de lidar com os outros. A escola tem de preparar os alunos para muito mais do que o conhecimento. Uma das concretizações que mais me orgulha é a das obras realizadas na escola por volta de 2009, que melhoraram significativamente as condições do estabelecimento. Mas há outras que não se medem em obras ou números, como o contacto de antigos alunos que nos informam em como fomos uma pessoa marcante na sua vida estudantil. São momentos destes que nos fazem perceber que o nosso trabalho teve significado.
Aos 64 anos, sei que estou no meu último mandato e que se aproxima uma nova etapa da minha vida. Não me imagino, contudo, parada. Não quero continuar necessariamente a trabalhar, mas gostava de experimentar coisas novas, aprender e encontrar hobbies que agora não tenho tempo para ter. Este agrupamento tem 14 estabelecimentos e cerca de três mil alunos, por isso há sempre assuntos para tratar. Os meus pais ensinaram-me desde cedo valores como a humildade, que ficaram comigo e que procurei levar também para a minha vida profissional e pessoal. Tanto que, ao final do dia, o que me realiza é sentir que cumpri a minha missão, que consegui resolver os problemas que tinha para resolver e que posso ir para casa tranquila. Enquanto directora, procuro deixar a escola um pouco melhor do que a encontrei. Espero que, no futuro, quem me substitua continue esse trabalho.


