Três Dimensões | 28-10-2026 18:00

Duarte Madaíl: “Se podemos trabalhar para outros, porque não trabalhar por conta própria?”

Duarte Madaíl: “Se podemos trabalhar para outros, porque não trabalhar por conta própria?”
TRÊS DIMENSÕES
Duarte Madaíl abriu o restaurante Chalé do Petisco, no início do ano, em Salvaterra de Magos - foto O MIRANTE

Duarte Madaíl nasceu em Vila Franca de Xira, cresceu em Alhandra e vive em Salvaterra de Magos há cerca de cinco anos. Sem formação em restauração, levou para casa a ideia que deu origem ao Chalé do Petisco, um projecto familiar onde descobriu uma profissão, ganhou responsabilidade e procura preservar o ambiente das antigas tascas.

Quando vim viver para Salvaterra de Magos não fiquei propriamente contente. Tinha deixado os amigos em Alhandra, não tinha carta e, aqui, precisava de transporte para quase tudo. Durante algum tempo achei que a mudança me tinha feito andar para trás. Hoje penso precisamente o contrário. Foi aqui que apareceu uma oportunidade que nunca tinha imaginado e que acabou por mudar bastante a maneira como vejo a minha vida.
Nasci em Vila Franca de Xira e fui criado em Alhandra. Da infância, lembro-me sobretudo da família à mesa. Aos fins-de-semana juntávamo-nos para almoçar ou jantar, muitas vezes com a minha avó. Também me lembro de brincar na rua e jogar à bola. Quando era pequeno dizia que queria ser polícia ou bombeiro. A restauração não estava nos planos. A escola também não foi um caminho a direito. Repeti o 7.º e o 10.º anos e ainda estou a completar o 12.º à noite. Durante o dia trabalho e à noite estudo. Houve uma fase em que sentia que a vida estava a andar para trás, mas a mudança para Salvaterra de Magos acabou por me dar outras oportunidades.
O Chalé do Petisco nasceu quase em tom de brincadeira. Em família já falávamos que um dia podíamos abrir qualquer coisa nossa e fui eu que levei a ideia para casa quando vi o espaço para trespasse. A Emília, sogra da minha irmã, já trabalhava em restauração e é a nossa cozinheira. A ela juntou-se a minha irmã Inês Gonçalves, o meu cunhado e eu. Pensámos: se podemos trabalhar para outros, porque não trabalhar para nós?
A ideia inicial era muito mais simples. Imaginava-me aqui com a Emília, a conciliar a escola e o restaurante, e até pensava que ia cozinhar. Depois percebemos que era preciso uma pessoa na cozinha, outra a ajudar e gente na sala. Fomos testando tudo, do pão às entradas. No início, para ser sincero, até tinha dificuldade em abrir uma garrafa de vinho.
Antes da abertura fizemos uma espécie de ensaio com a família. Queríamos uma tasca, no melhor sentido da palavra. Um sítio familiar, de comida tradicional, com pormenores que lembrassem outros tempos. A louça, as chávenas e os tachinhos são de barro, as toalhas puxam ao que é típico e a decoração é rústica. Até a forma de servir alguns petiscos nasceu de uma viagem aos Açores, onde vi pequenos tachos de barro chegarem fechados à mesa. Guardei a ideia. O plano era ter petiscos. Depois vieram os bitoques, os pratos do dia - um de carne e outro de peixe - e sugestões dos clientes. No Inverno fizemos cozido à portuguesa ao fim-de-semana; no Verão, polvo à lagareiro.
Tentamos que os produtos venham daqui. A carne é local, o pão e o pão de milho são comprados perto e as frutas também. Há clientes que provam o pão, perguntam onde o compramos e depois dizem-nos que foram lá buscá-lo. Agora até tenho uma promessa para cumprir: trocar a ginja que tínhamos por uma daqui da zona, porque os clientes insistem que há uma muito boa aqui perto. Também tentámos praticar preços acessíveis. Nem sempre acertámos. No pica-pau de vaca fui eu que alertei que, ao preço inicial, estávamos a perder dinheiro. Vamos ajustando quando é preciso, porque tudo aumenta, mas o conceito familiar ajuda-nos.
Trabalhar com a família tem coisas boas e más. Há confiança e, por isso mesmo, também há discussões. A minha irmã tem mais dez anos do que eu e chama-me muitas vezes à razão. No início ficou mais ligada à parte administrativa, aos stocks e aos fornecedores. A Emília é a base da cozinha. Podemos discutir uma ideia, mas continuamos a ser família.
Este trabalho mudou-me. Amigos meus dizem, a brincar, que nunca me imaginavam num restaurante e que hoje me vêem mais responsável e pontual. Também eu sinto isso. Há seis meses não sabia metade do que sei agora e continuo a aprender. Ouvi até dizer que havia quem achasse que o restaurante não durava um ano. Já lá vai meio. Acredito que vai durar mais. Sou muito ligado à família e, se pudesse sentar alguém à mesa, pensava logo na minha avó Arminda, que não acompanhou este processo. Servia-lhe ovos rotos, moelas ou pica-pau. Mais do que o petisco, gostava de lhe mostrar o que conseguimos construir.
Fora daqui sou conversador, brincalhão e gosto de conviver. Tento voltar ao exercício, porque com um restaurante à porta não pode ser só comer. E se me saísse o Euromilhões? Ajudava a família e os amigos, passeava mais, mas continuava nesta área. Melhorava, expandia, fazia o que fosse possível. O dinheiro não é tudo.

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