“Comecei a trabalhar aos 10 anos e nunca tive nada que me caísse do céu”
Aos 59 anos, Álvaro Granadas, dono da Iporesi, empresa de Gestão de Resíduos, continua a fazer do trabalho uma prioridade. A leucemia que enfrentou aos 26 anos, a fé e a dedicação à família são marcas de um percurso em que aprendeu a valorizar cada oportunidade. Natural de Alenquer, começou a trabalhar aos 10 anos e acredita que a honestidade e a capacidade de encontrar soluções são fundamentais na relação com os clientes.
Sou natural de Alenquer e continuo a viver no concelho. Passei aqui a minha infância e comecei a trabalhar aos 10 anos ao mesmo tempo que andava na escola. Aos 12 anos comecei a trabalhar num talho em Alenquer. Depois, aos 13, fui para uma oficina em Vila Franca de Xira. O meu pai era mecânico, mas não gostei e voltei ao talho, onde fiquei até aos 25 anos.
Naquela altura havia muita procura de mão-de-obra, ao contrário do que acontece hoje, e pouca oferta. O último talho onde trabalhei foi na Castanheira do Ribatejo. A determinada altura, convidaram-me para trabalhar numa empresa de gestão de resíduos e aproveitei a oportunidade, em 1994. Os meus patrões nunca me deixaram sair da empresa, mas, quando venderam a firma e montaram outra empresa de reaproveitamento de plástico, que não correu como esperado, fecharam-na, em 2017. Fiquei então com liberdade total para me dedicar aos resíduos e criar uma empresa minha. Quando não sabemos nada, tudo custa ao início, mas rodeei-me de pessoas amigas e boas. O meu antigo director, nomeadamente, ajudou-me nas partes burocráticas e na criação da empresa.
O maior desafio na gestão de resíduos é a falta de entendimento entre as várias entidades. Neste momento, temos uma dificuldade acrescida em classificar os resíduos. Em Portugal, temos metas a nível de quotas europeias para cumprir e sabemos, através da comunicação social, que não estamos a conseguir atingi-las. O problema é que, actualmente, não temos soluções para o conseguir fazer. Por exemplo, abrimos sucessivos aterros, que já esgotaram a capacidade e alguns até estão a fechar, mas não criamos incineradoras. Estamos a seguir um caminho assente nos aterros e na reciclagem, mas a reciclagem é deficiente. Neste momento, não temos escoamento para os produtos que reciclamos.
O sistema Volta já existia quando eu tinha 10 anos ou até menos. Íamos ao supermercado ou à taberna, porque naquela altura não havia cafés como hoje, e comprávamos uma cerveja. Deixávamos o depósito e depois tínhamos de voltar para o devolver, recebendo o dinheiro de volta, ou entregávamos o vasilhame para trocar por outro. Hoje o Volta é um problema que se criou, associado ao lixo e que está a gerar mais poluição.
Os erros pagam-se muito caro e tento não os cometer. Não faço serviços quando percebo que podem dar confusão. Os portugueses estão mal informados. Quando dizemos que fazemos reciclagem ao colocar os resíduos no ecoponto, não estamos propriamente a reciclar. Estamos apenas a separar os resíduos para serem recolhidos. Todos temos responsabilidade ambiental e deveríamos caminhar no mesmo sentido. O problema é que, em Portugal, continuamos a não ter todas as soluções necessárias para reciclar os resíduos.
As incineradoras resolveriam uma parte do problema dos resíduos em Portugal. Provavelmente, teríamos uma forma mais eficaz de tratar determinados resíduos que não conseguimos reciclar e de os aproveitar de forma mais directa. Queremos ser iguais aos países do Norte da Europa, à França ou à Espanha, mas depois, em determinadas coisas, não acompanhamos o crescimento e a evolução necessários para dar seguimento às soluções.
Sou persistente e um bocado chato, às vezes. Pauto-me pela seriedade, lealdade e honestidade e por não querer para os outros aquilo que também não quero para mim. As pessoas que me conhecem sabem que gosto muito de trabalhar. Trabalhar sozinho ou em equipa não me choca, desde que as pessoas tenham um caminho e objectivos comuns para chegar ao destino. Quando não estou a trabalhar, estou a trabalhar. Não desligo. Desde 2008 que não tenho férias. Este ano fui à praia durante duas horas. Quando trabalhamos sozinhos, temos de acompanhar todos os serviços, tratar das facturas, das cobranças e das burocracias.
Não me deixo influenciar pelas pessoas, tenho objectivos. Quando meto uma coisa na cabeça, vou até ao fim, até conseguir concretizá-la. Às vezes, resolvo problemas mesmo quando estou deitado. Encontro soluções. Uma das decisões profissionais mais difíceis que tive de tomar foi dizer aos meus antigos patrões que não continuava a trabalhar com eles, porque a empresa estava a seguir um caminho que não considerava correcto. Dizer isso a pessoas com quem trabalhei durante 20 anos e que respeitava foi uma decisão difícil.
Sou um homem de fé. Tenho ali a imagem de Santa Teresinha e a de Nossa Senhora de Fátima. Foi a fé que me manteve vivo quando tive leucemia, em 1994, aos 26 anos, quando a minha filha ainda era pequena. Fiz quatro meses de quimioterapia e depois várias transfusões de sangue. Foi um tratamento muito doloroso. Mais tarde, vivi a situação do sangue que vinha contaminado. Passei mais seis meses a olhar para o tecto. Estive quase um ano sem sair de casa. Durante 16 anos comi peixe cozido e batatas cozidas todos os dias. Não comia mais nada. Hoje já como outras coisas, mas tenho de ter cuidado. Não sei se vivo uma segunda vida. Acho que poderá ser uma segunda oportunidade. Quando queremos viver, temos de ter vontade e algum rigor.
Se as pessoas à minha volta estiverem bem, eu também estou. Quando acabar a minha casinha, que estou a recuperar, talvez possa ficar um bocadinho mais feliz. Mas a felicidade seria ter cá todas as pessoas que partiram: a minha mãe e os meus padrinhos. Espero um dia reencontrá-los. Estas pessoas foram importantes, sobretudo na fase final da vida delas, porque lhes dei o melhor de mim, acho eu. A minha mãe esteve um mês no hospital e eu passei esse mês a trabalhar ao lado dela, até ela partir. Aos meus padrinhos também lhes dei todas as condições, amor e carinho até ao último dia. Com a minha sogra é a mesma coisa. Sou uma pessoa de família e, nessa matéria, não tenho a consciência pesada. Tenho 59 anos. Quando me reformar tenciono fazer outro tipo de coisas e ir à procura da vida que sempre sonhei ter, se tivesse tempo.
Já estamos a preparar o presépio da Aldeia Pedra D’ouro. Até fiz uma música para o presépio. Dou muito valor às coisas porque comecei a trabalhar aos 10 anos e nunca tive nada que me caísse do céu, nada que me permitisse dizer: “Toma lá isto e vai sozinho”. Há coisas que temos de aprender. Mas nunca tive erros grosseiros. Às vezes, a culpa não é propriamente nossa, é uma questão de exigência do cliente. Propomos uma coisa e o cliente acha que é melhor fazer de outra maneira. Lidar com pessoas que têm ideias diferentes é sempre mais difícil. Nós pensamos na praticidade das coisas e o cliente, às vezes, acha que queremos ganhar mais dinheiro. A minha ideia sempre foi servir o cliente da forma mais honesta possível.
Não é por acaso que tenho clientes desde 1994. Alguns saíram de uma multinacional e trabalham comigo pela rapidez com que resolvo os problemas e pelo serviço que presto. Nas empresas maiores, é preciso enviar e-mails, que depois seguem para o sector comercial e daí para o director comercial. O processo é mais burocrático. Comigo, o Álvaro arranja uma solução. Um dos problemas das empresas em Portugal é quererem fazer tudo e acabarem por não fazer nada bem feito. Deveríamos preservar um bocadinho as actividades de cada sector.


