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A jovem irreverente a quem chamaram “betinha” e o leitor que já não “ataca” livros de fundo e de meio fundo

A jovem irreverente a quem chamaram “betinha” e o leitor que já não “ataca” livros de fundo e de meio fundo

Conversa entre a vice-presidente da Câmara de Santarém, Susana Pita Soares, e o agricultor José Barroso, do Cartaxo

Edição de 14.06.2017 | Entrevista

Quando foi para Coimbra a jovem Susana Pita Soares tentou arranjar alojamento numa República de estudantes mas foi recusada por a considerarem muito “betinha”. Em vez de desanimar deu a volta dizendo que nunca poderia aceitar um alojamento numa residência tão desleixada e degradada. José Barroso, que é católico e chegou a ajudar à missa teve que cortar pescoços de galinhas e patos quando estudou na Agrária e também matava porcos na exploração pecuária da família. Os dois divertiram-se imenso em mais uma conversa da série Duetos, promovida por O MIRANTE.

Susana Pita Soares, vice-presidente da Câmara Municipal de Santarém e José Barroso, agricultor no Cartaxo. Já há algum tempo que não experimentam cantar o hino nacional do princípio ao fim mas estão convencidos que não falham se tentarem fazê-lo. Quando se lhes pergunta quem lhes ensinou “A Portuguesa” não se lembram. A autarca arrisca dizer que talvez o tenha aprendido na escola. O seu parceiro de conversa, por mais voltas que dê à cabeça, não se recorda.
“Provavelmente também me ensinaram a cantar o hino na escola mas não me lembro. Penso que ainda sou capaz de o cantar do princípio ao fim, e então se estiver a cantar acompanhado, não fico para trás de certeza”, declara.
Sendo José Barroso um homem do campo que estudou agricultura na Escola Profissional Agrícola Conde de São Bento em Santo Tirso e na Escola Superior Agrária,
O MIRANTE arriscou perguntar-lhe se o pássaro que canta de noite é o rouxinol ou a cotovia. Uma pergunta complicada nos tempos que correm, uma vez que os motores dos tractores e de outras máquinas agrícolas, abafam todos os chilreios. Nem ele, nem Susana Pita Soares acertaram.
“Eu nem sequer arrisco”, disse José Barroso. Susana Pita Soares, que antes de se licenciar em Direito tirou em Coimbra uma licenciatura de línguas e literaturas modernas, socorreu-se da memória que tinha do capítulo do livro “Viagens na Minha Terra” de Almeida Garrett que fala da menina dos rouxinóis mas ficou na dúvida.
“Como a Joaninha vivia ali no Vale de Santarém e era conhecida como a menina dos rouxinóis eu depreendo que eles cantem durante o dia”, hesitou. Depois fez um pedido. “Satisfaça-me a curiosidade”.
A curiosidade não foi satisfeita na altura e provavelmente os dois já esqueceram o assunto do canto dos rouxinóis mas sempre valerá a pena lembrar que o rouxinol canta à noite e o seu reportório musical inclui 260 sequências. Ou seja, teoricamente é capaz de cantar durante duas horas sem repetir uma única vez a mesma sequência. Quem o ouve é levado a pensar que está a ouvir pássaros diferentes”. O rouxinol também canta de madrugada mas é a cotovia que é conhecida por cantar nessa altura.
Susana Pita Soares licenciou-se em línguas e literaturas modernas em Coimbra. Imbuída do espírito universitário e fiando-se na sua “lata” foi tentar arranjar alojamento numa República de Estudantes tendo ficado surpreendida quando a sua candidatura foi reprovada por a considerarem “betinha”. Sem se desmanchar deu a volta à situação dizendo que também tinha considerado não ficar devido às péssimas condições do alojamento.
Sobre as praxes diz que praxou e foi praxada e que gostou. “A coisa mais complicada que me fizeram foi porem-me a cara dentro da farinha. Foi uma praxe “integratória” que me deixou boas recordações e bons amigos para a vida. Eu também fiz daquelas maldades pequeninas como pôr os caloiros a cantar ou ter um caloiro para me levar o tabuleiro com o almoço para a mesa”. José Barroso quando chegou à Agrária de Santarém vinha de outras escolas e foi revestido dessa autoridade que não autorizou que o praxassem.
O agricultor do Cartaxo desenvolve actividade cívica, nomeadamente no Centro Paroquial da Ereira mas lamenta nunca ter feito voluntariado. A sua colega de conversa começou a fazer voluntariado com a mãe e nunca deixou de fazer. Quando estava em Coimbra lia para doentes e mais tarde fez voluntariado na Cáritas e na Liga dos Amigos do Hospital de Santarém. Para além disso dá uma aula semanal na Universidade da Terceira Idade de Santarém. No entanto quer fazer mais. “Quero fazer voluntariado na área da oncologia. Tenho conversado sobre isso com o meu marido. Não sei se tenho estrutura emocional mas é um objectivo”, revela.

Vacinada contra compras na internet por causa de uma mala de luxo contrafeita

José Barroso e Susana Pita Soares não fazem compras na internet. O agricultor por uma questão de princípio e a vice-presidente da Câmara de Santarém porque foi vacinada contra tal “vírus” com uma espécie de vacina “cavalar”. “
“Eu não sou grande adepta das novas tecnologias. Uso porque tenho que usar. E quanto às compras na internet sempre foi o mesmo. Acontece que um dia vi uma coisa que eu sonhava ter a um preço fabuloso e arrisquei. Fiz a minha compra e fiquei à espera, imaginando-me muito vaidosa a passear o que tinha comprado”, confidencia.
Mal ela sabia que o sonho se iria transformar num pesadelo. “Um dia o meu marido estava em casa e telefonou-me a dizer que tinha chegado uma carta em meu nome de um escritório de advogados. A carta dizia, sumariamente, que a minha compra fantástica tinha ficado presa na alfândega e que havia suspeita que era produto contrafeito, sendo a contrafacção crime”.
Susana Pita Soares não revela qual a marca envolvida mas acaba por dar a entender que o objecto era uma mala de mão e que ela tinha pago por ele “umas centenas largas de euros”.
“A coisa ficou pela autorização de destruição do objecto e ainda tive que escrever uma carta para o escritório de advogados que representa a marca em Portugal a explicar que tinha agido com a melhor intenção do mundo. Pelos vistos os senhores acreditaram porque acabei por não ter que pagar nenhuma contra-ordenação. Até hoje o meu marido goza comigo e de então para cá nunca fiz mais nenhuma compra através da internet”.

Cartão de crédito anulado por causa de um conto do vigário versão Campo Pequeno

José Barroso diz que não é desconfiado mas acrescenta que também não confia em demasia. “Tenho aquela ideia de que quem não confia não merece confiança mas não levo totalmente à letra e é por isso que não costumo apanhar grandes barretes. Normalmente consigo adivinhar como as coisas podem correr e descubro em quem posso confiar mais. Só apanhei um barrete num negócio e foi por uma questão de amizade”.
A história é uma das muitas com esquemas em pirâmide onde os novos distribuidores são obrigados a comprar uma grande quantidade de produtos para revenda e angariarem novos vendedores. O agricultor só entrou por insistência de um amigo.
“Ele convenceu-me a meter-me no negócio com um daqueles produtos para emagrecer. Dizia que valia a pena, que íamos angariar mais pessoas e que de cada vez que uma delas comprasse para revender nós lucrávamos. Tive que pagar duzentos euros, o meu cartão de crédito ficou logo registado para futuros pagamentos”, explica.
A aventura empresarial acabou rapidamente porque José Barroso farejou o logro. “Um dia fomos ao Campo Pequeno a Lisboa ouvir a apresentação dos maiores vendedores a nível nacional. Eram os chamados casos de sucesso. Usavam-nos para convencer e motivar quem estava a entrar. O ambiente era de molde a criar entusiasmo. Um já tinha uma vivenda. O outro tinha vivenda, carro de luxo e fazia férias em destinos exóticos. Todos nadavam em dinheiro”, conta.
A certa altura saí com o meu amigo por uns momentos e eu disse-lhe que já tinha visto tudo. Também lhe disse para arranjar maneira de bloquear os pagamentos futuros que iriam ser feitos com o meu cartão de crédito”.
O amigo não conseguiu bloquear os pagamentos e o cartão teve que ser anulado no Banco. José Soares diz que não ficou melindrado com o amigo e que considerou o dinheiro gasto como um investimento. Uma espécie de propina paga na Universidade da vida. “Aprendemos muito com as experiências da vida. Desde essa altura comecei a jogar um pouco mais à defesa”, conclui.

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