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Esquecerem-se das balanças é comum a vendedores mais velhos e mais novos no Mercado de Ourém

Esquecerem-se das balanças é comum a vendedores mais velhos e mais novos no Mercado de Ourém

Jovino Santos casou-se com uma vendedora de tremoço e Elsa Claro seguiu pisadas da família

Edição de 21.12.2017 | Feiras e Mercados

Jovino Santos nunca tinha ido a um mercado até ao dia em viu uma rapariga muito bonita de cabelos pretos a vender tremoços na fábrica Barroca onde trabalhava como serralheiro mecânico. Conversaram e tornaram-se amigos mas quis o destino que se afastasse para ir para a tropa em Angola. Maria esperou e, mal Jovino regressou, casaram-se. Foi quando começaram a vender os dois no mercado municipal de Ourém. “Na altura, o espaço era amplo e havia muita clientela. Agora já não compensa”, confessa o vendedor de cabelo grisalho e com um rosto marcado com rugas enquanto aponta para as maçãs e pêras dispostas na sua bancada.
Há 47 anos no mercado, o vendedor de Carregal, concelho de Ourém, não tem dúvidas que este novo mercado tem muito melhores condições e mais espaço. O problema está na disposição das bancas e nos preços praticados. “Não entendo o porquê da altura dos muros que dividem as bancas e porque uns pagam mais que outros. Deviam ser repensadas certas situações”, admite Jovino Santos, 77 anos, enquanto atende mais um cliente, que leva umas maçãs. A mulher, vestida com um avental azul, sentada num banco de madeira, come uma tangerina e observa o movimento do mercado.
Para Jovino Santos o que custa mais na vida de vendedor de mercado não é nem o levantar cedo, nem o calor ou o frio que se sente, nem carregar com os produtos, é o deixar de vender. “Isto é viciante, por isso é que continuo aqui ainda hoje. Há quem jogue cartas, veja televisão, costure. Eu venho ao mercado vender”, sorri. E porque a idade não perdoa, senta-se e começa a lembrar-se das várias peripécias enquanto vendedor. “Cheguei, muitas vezes, a esquecer-me da balança em casa. O que valia é que resido aqui perto de Ourém, senão tinha de pedir uma emprestada”. E quem é que vai mais às compras no mercado de Ourém? O vendedor de frutas confessa que, ao contrário do habitual, que há clientes mais velhos, mas também jovens. “Falta é dinheiro para gastarem e então só levam o mínimo”, revela.

A vendedora das modernices
Avançamos pelos corredores marcados pelos azulejos azúis das paredes, quando encontrámos Elsa Claro, entre frutos secos, rebuçados, sementes e azeitonas. A vendedora vai sorrindo e já desejando boas festas a quem passa. A vender no mercado de Ourém desde os 15 anos, Elsa, de 37 anos de idade, não se vê a fazer mais nada senão ser vendedora. A avó e a mãe já eram vendedoras de frutas, vegetais e frutos secos.
“A vender também nos mercados de Tomar e de Marinhais (Salvaterra de Magos), Elsa costuma também montar banca na feira mensal de Almeirim. O que mais lhe custa é acordar muito cedo e ter de descarregar e carregar toda a mercadoria sozinha. A vendedora de Casais da Igreja, concelho de Torres Novas, confessa que, muitas vezes, o que lhe vale é o seu marido que toma conta dos seus dois filhos pequenos. “Este negócio já foi muito mais rentável, agora a margem de lucro é muito pequena”, refere a jovem torrejana enquanto vende um saco de aveia.
“Faço questão de estar sempre na moda”, revela, admitindo que, de vez em quando, vai dando uma espreitadela na internet sobre as novas tendências. “É engraçado ver os mais velhos a pedirem para experimentar sementes” como chia, a semente que, dizem, emagrece e reduz gordura. “Elas também gostam de manter a linha”, ri-se. Atende mais uma cliente. Desta vez, pede um quilo de amêndoa laminada para fazer uma tarte. A vender há 22 anos, peripécias é o que não lhe faltam nesta vida como vendedora. “Já me esqueci das caixas com figos secos, das tâmaras, até já me esqueci da balança”, conta.

Um homem num mundo de flores
Quem disse que os homens não sabem fazer arranjos de flores? José Duarte, de 56 anos, é o exemplo de que a arte floral é para todos, basta gostar. A vender flores no mercado municipal de Ourém há cinco anos, confessa que não há muita ciência para se fazer arranjos de flores. “O importante é estar-se atento à concorrência, experimentar-se e logo se vê”. E para quem pense que oferece muitos ramos de flores à mulher engane-se. “Ela diz logo que não quer. Às vezes costumo levar é um vaso, nada mais”.

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