Tradições | 01-12-2023 21:20

Serranos, Campinos e Bairrões

Serranos, Campinos e Bairrões

Locais e Ambientes - Calão Minderico1

Tenho para mim que, assim como foram os cardadores de lã os primeiros que saíram de Minde pelas terras circunvizinhas, a exercer a sua arte, que constituía, para estranhos, segredo que se não desvendava, como não se ensinava ninguém o segredo de fabricar as cardas, de que o velho Manco era o detentor, foram eles também os primeiros que, para poderem falar de coisas que não queriam que os outros conhecessem, se serviram de termos, imagens, alegorias somente deles entendidas, nascendo assim o calão, ou linguagem de cardador, como por muitos era conhecida essa maneira de falar.

A dona da casa, onde iam cardar, não sabia cozinhar, ou não era suficientemente cuidadosa na limpeza doméstica? Lá estava a acerada crítica dos artistas das do Manco (as cardas) a escalpelizar-lhe a inépcia. O Covano do Parreiral (o dono da casa) tratava a mulher com modos brutais? Não lhe poupavam os cardadores a grosseria, e faziam os mais ásperos comentários ao procedimento do grosseirão, sem que este de tal se apercebesse. Aborreciam as constantes malgadas de couve com feijão e era preciso conseguir uma covana (uma galinha) para o jantar? Combinava-se em calão trambolhar uma galinha com o canto de uma carda, e fazê-la cozinhar, como se os cardadores não sentissem o menor embaraço em comer uma galinha que aparecera morta. E, com o precioso auxílio de uma língua que os de fora não compreendiam, tudo se conseguia.

Deve ter nascido assim o calão de Minde. Quem o inventou?... Quem tudo inventa, quem tudo constrói, quem tudo faz: o Povo.

Os mindericos, é de ver, conhecem todos os recantos da sua terra, todas as suas figuras, com todos os seus ridículos, virtudes ou defeitos: e, em conversa amena, com uma rapidez indizível, em vez de empregarem termos vulgares, substituem-nos pelos nomes de um local, da cor do capote de um vizinho, do cabelo de uma mulher, da perna cambada de um coxo, etc. Isto que para eles é um jogo naturalíssimo de frases, que vão engrenando quase sem darem por isso, constitui arrevesado enigma para os estranhos, sendo de notar que, momentos depois, a mesmíssima conversa pode ser reproduzida por palavras totalmente diferentes.

Em que terra se conseguiria esta rápida comunhão de ideias, esta momentânea apreensão de conhecimentos, este sal espontâneo de frase, sustentando uma descrição ou troca de impressões, mais ou menos larga, sem uma quebra de sentido, sem uma suspensão de objetividade, sem um desfalecimento de quem conta ou um bocejo de quem ouve, tudo isto dito em termos portuguesíssimos, mas incompreensíveis para estranhos, mas absolutamente naturais, no seu novo, ou novos sentidos, para os que são de Minde, para os que conhecem as ruas, travessas e becos da sua terra, e todas as pessoas que nela habitam?

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