
Desistiu de ser engenheiro químico para se tornar comerciante
Em vez de um possível emprego numa empresa Sérgio Batista optou por ser patrão
O curso ficou parado. Com amigos abriu uma livraria e mais tarde uma pastelaria. Tomar é o lugar ideal para Sérgio Batista viver. Ali está longe do stress das grandes cidades, em comunhão com a natureza. Pode ouvir as cigarras e ver as estrelas nos dias em que tropeça, por acaso, em clientes “desprezíveis”.
Sérgio Batista, 33 anos, é natural de Tomar e o entusiasmo pelas ciências fê-lo optar pelo curso de engenharia química. Antes de terminar mudou o rumo da sua vida. Com uns amigos começou por abrir uma papelaria em Tomar, a “Four Teen”. Seguiu-se a “Pastelaria Girassol”, mesmo ao lado. O curso fica em lista de espera. Se vier a ser terminado não é para exercer engenharia química mas por mero prazer. “Gosto do familiar. De conhecer as pessoas. Se tirasse o curso, provavelmente só encontraria emprego numa grande metrópole e aí as relações são mais distantes. As pessoas passam a ser números”.Durante a adolescência, sentindo a vontade de trabalhar, dedicou-se à hotelaria, tendo servido em vários casamentos pelo país. O gosto em lidar com o público e em servir foi sempre ficando, apesar de no momento de seguir o ensino superior ter optado pela química. “Sempre gostei da área e tive boas notas. Mas o mercado de trabalho não está fácil e para se subir na profissão tem que se prescindir de muita coisa. Tem que se prescindir da vida pessoal e eu não quis seguir por esse caminho”, explica. O seu discurso tem laivos de sonhador e de filósofo. “Por muito que tenhamos, quando morrermos fica cá tudo. E o que deixamos é a família, os momentos de felicidade que passamos”, comenta. Sérgio Batista sabe do que fala quando se refere às grandes cidades. Iniciou o curso em Coimbra e depois mudou-se para Lisboa. Chegou a trabalhar na Direcção Geral de Viação e passou por uma associação antes de abrir a papelaria. “A ideia inicial era uma papelaria específica, que com o tempo se foi adaptando ao mercado de Tomar. Como servi em casamentos durante muitos anos e tinha o gosto pela hotelaria, acabei por abrir também uma pastelaria”, conta. Investir mais na área da restauração não o atrai. “É muito caro. A pastelaria foi o ponto de partida, mas nesta altura estamos a consolidar os investimentos que fizemos. E não está fácil aceder a crédito”.O seu dia é passado entre os três negócios que dirige (explora ainda o centro de cópias do Instituto Politécnico de Tomar) e os três filhos. “Onde há mais trabalho é onde estou”, refere. Deixou apenas algumas cadeiras do curso de engenharia química por fazer e não coloca de parte um dia terminá-lo. “Mas apenas por gosto”, salienta, referindo que as suas ambições passam pela vida familiar e por cimentar os negócios que tem. Dedicar-se a outras actividades também não está nos seus planos. “Ainda que às vezes apeteça fugir, não penso fazer outra coisa”, confessa. Nessas alturas refugia-se no sossego do campo. “Gosto da tranquilidade da noite. De ir para casa a ouvir as cigarras e a ver as estrelas. Aqui podemos brincar no campo, visitar colegas. É diferente”, explica. Refere que ser patrão acarreta diferentes ambições daquelas que move um simples empregado. “Por um lado temos a liberdade de dirigir o nosso negócio. Mas isso leva a que tenhamos que trabalhar 24 horas por dia. Já quem trabalha por conta de outrem faz aquelas horas e vai para casa. São projectos de vida diferentes”. Na sua papelaria, afastada do centro de Tomar, teve que ter o que a concorrência não tinha e encontrar estratégias para fidelizar clientes. “Há sempre quem queira apenas aquilo que não há e nem sempre é fácil lidar com o público. Mas nestes 10 anos criámos uma clientela fixa que sabe o que vem procurar”, explica. Também confessa que nem sempre se sente com forças para enfrentar o mundo. “Há pessoas muito agradáveis mas há outras bastante desprezíveis”, nota.

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