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É preciso sangue novo e diversidade no panorama cultural de Vila Franca de Xira

É preciso sangue novo e diversidade no panorama cultural de Vila Franca de Xira

Alexandre Lyra Leite traça um balanço dos dois anos da Inestética no Palácio do Sobralinho

A Inestética, em parceria com a Câmara de Vila Franca de Xira, iniciou em Setembro de 2013 um ambicioso projecto de criação e difusão das artes no Palácio do Sobralinho. Volvidos dois anos o responsável do grupo, Alexandre Lyra Leite, faz um balanço positivo. Três mil espectadores assistiram a meia centena de espectáculos. E muito mais está ainda para vir.

Edição de 30.09.2015 | Cultura e Lazer
No concelho de Vila Franca de Xira existem menos grupos de teatro do que aqueles que deviam existir, é preciso sangue novo e diversidade no panorama cultural. A ideia é defendida por Alexandre Lyra Leite, responsável pela Inestética, a única companhia teatral profissional do concelho e que, sozinha, recebe mais dinheiro da câmara que todas as outras companhias juntas. “Só temos a ganhar com a proliferação de companhias e grupos. Quanto maior a diversidade mais rico é o tecido cultural. O pior que pode acontecer é extinguirem-se os grupos e ficarem apenas duas ou três estruturas que monopolizam a prática cultural. Em VFX começam a aparecer jovens que realizam eventos muito interessantes. A Semana do Onze é disso um exemplo. Agitou a cidade. Precisamos desse sangue novo e dessa diversidade”, refere.O responsável diz que durante muitos anos o concelho vilafranquense esteve “cristalizado, com uma prática teatral bolorenta”. A Inestética veio romper com esses padrões, trazendo inovação e irreverência.Este mês completam-se dois anos desde o arranque do projecto de criação e difusão de artes no Palácio do Sobralinho, que captou cerca de três mil espectadores e levou ao palco meia centena de espectáculos, em áreas tão diferentes como o teatro, dança, música e gastronomia. “Notamos que cada vez mais fidelizamos espectadores da Área Metropolitana de Lisboa, que tem uma oferta esmagadora. Há muitas pessoas que encontram aqui um espaço especial para ver certos espectáculos. O balanço tem sido bastante positivo”, conta. Alexandre Lyra Leite confessa que a principal prioridade para o futuro é desmistificar a ideia criada no público do concelho de que as peças apresentadas pelo grupo no Palácio do Sobralinho são demasiado culturais e elitistas. “Muitas das pessoas que dizem isso nunca assistiram a um espectáculo. Quem assiste ao nossos espectáculos sabe que temos muitos estilos. A Inestética sempre foi um projecto de referência, pioneiro, que arriscou. Artisticamente isso é reconhecido. Somos a única do concelho a ter notoriedade a nível nacional”, defende. O responsável garante que o público não decresceu com a crise e fala já de algumas ideias para o novo ano cultural que agora começa. Haverá uma aposta em todos os géneros mas também na ópera e na oferta de um festival de artes do espectáculo, destinado às crianças e jovens, com teatro, dança e música. Outro dos grandes objectivos é criar no local residências artísticas, para albergar criadores de todo o país.“Dividir os grupos nunca é uma boa estratégia”Alexandre Lyra Leite confessa que apesar do apoio da Câmara de Vila Franca de Xira ser determinante acaba sempre por ser pouco para as reais necessidades dos grupos. Sobre a recente polémica envolvendo as críticas lançadas pelo grupo de teatro Cegada, de Alverca, que se mostrou contra o facto da Inestética receber mais dinheiro que todos os outros grupos juntos, desvaloriza dizendo não ter gostado “do tom” usado e diz ter visto todo o episódio com “perplexidade”. “Dividir nunca é uma boa estratégia. Se os agentes culturais se unirem e definirem estratégias para as coisas melhorarem é bom para todos. Não é verdade que todos os grupos tenham estado unidos contra nós, houve grupos a demarcarem-se do estilo. Foram insinuações que não têm razão de ser. Falou-se muito de números, espectadores em quantidades como se fosse ao quilo, inflacionadas e falsas, que não são verdade. E nós, que estamos no terreno, sabemos disso”, critica.Vereador Rui Rei anda “distraído”Aquando da atribuição dos apoios o vereador da Coligação Novo Rumo, Rui Rei, levantou diversas questões envolvendo o trabalho da Inestética e chegou mesmo a exigir um relatório que lhe mostrasse o que estava a ser feito no Palácio do Sobralinho para justificar o dinheiro que a câmara atribui à companhia. “Não fiquei magoado [com as declarações] porque já espero tudo. O site da programação do palácio está com 48 mil visitas em dois anos. Significa que muita gente procura o site. O vereador anda distraído, temos painéis publicitários em VFX e Alverca, mas nunca o vi em nenhum espectáculo”, lamenta. Alexandre Lyra Leite garante que os relatórios para a câmara têm sido apresentados regularmente e que todos os números mencionados são “realistas”. “Às vezes ficamos perplexos por saber que ao fim de 20 anos ainda há pessoas que não conhecem o nosso trabalho. Queremos desmistificar a ideia elitista da cultura. Queremos chegar a mais pessoas”, garante.O Tejo como fonte inspiradoraAlexandre Lyra Leite nasceu em Lisboa mas viveu em Vila Franca de Xira desde pequeno. Tem 43 anos, é casado e pai de um rapaz. Actualmente reside em Alhandra. O que o cativa no concelho é a identidade vincada de uma terra dividida entre a parte urbana e rural. O rio Tejo, diz, sempre foi um elemento inspirador para a criação dos artistas da terra. Diz que é preciso encontrar e estabelecer prioridades para conservar essa identidade e vê com preocupação o fecho do Vila Franca Centro e das habitações do centro histórico. Teme uma cidade abandonada, fantasma, sem vida. Tem por hábito fazer as compras em Alverca e a sua cor favorita é o preto. À mesa de cabeceira anda a ler um livro de Gonçalo M. Tavares e os Radiohead são a sua banda preferida. Viajar e conhecer o mundo são um dos seus grandes sonhos. “Talvez dar a volta ao mundo em 80 dias, como o Willie Fog”, confessa.
É preciso sangue novo e diversidade no panorama cultural de Vila Franca de Xira

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