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O desporto feminino não tem visibilidade

José Monteiro é treinador de basquetebol há muitos anos e director técnico distrital desde 2000. Foi pioneiro do basquetebol na Chamusca, ainda hoje uma referência na região, e em Santarém deixou um rasto de títulos nacionais sem paralelo na região em qualquer desporto colectivo. Há cinco anos que orienta a equipa sénior feminina do CD Torres Novas, conseguindo sempre a permanência na primeira divisão nacional. Diz que trabalhar com mulheres é mais fácil, embora o balneário se feche após os jogos. Ainda foi treinador de futebol e autarca durante poucos anos. Gostou das experiências mas para ele chegou.

Edição de 29.06.2016 | Entrevista

Como é que um clube com problemas financeiros, como é o CD Torres Novas, consegue manter uma equipa na primeira divisão nacional de basquetebol? De certeza com muitas dificuldades. Nestes cinco anos temos conseguido subir degrau a degrau. As condições existentes para participar numa liga são bastante difíceis. Durante a semana só podemos utilizar o pavilhão uma vez em campo inteiro para treinar. Nos outros dias temos que o dividir com mais três equipas. Uma equipa que participa no patamar em que estamos exige outras condições, pois estamos a representar a cidade ao mais alto nível.
Arranjar financiamento também não deve ser fácil? Os números já não têm nada a ver com o que existia no passado, quando estive em Santarém (há 15/20 anos). Comparando os dois projectos, penso que o CD Torres Novas gasta, por mês, um sexto do que se gastava em Santarém.
As câmaras também deixaram de ser o abono de família destes projectos. Isso tem reflexos? Claro que tem. Tem sido muito difícil para mim, como treinador, continuar a manter uma equipa percebendo que a estrutura existente cresce a um ritmo pequeno. Demorámos seis anos para chegar aqui. Mas ao longo destes anos temos sempre o orçamento mais baixo, com jogadoras jovens da nossa formação. Há três anos este grupo de atletas saltou do escalão sub-16 para a Liga. E conseguiu-se durante estes anos o milagre de se manterem.
É fácil arranjar miúdas para a prática do basquetebol? Não. E, depois, com as exigências que devemos ter num projecto deste género, com dedicação ao treino, torna-se mais difícil. Por exemplo, a nossa capitã de equipa estuda medicina em Lisboa e vem treinar duas vezes por semana a Torres Novas. Não é bom, mas é o possível.
A cidade tem correspondido ao vosso trabalho, tendo em conta que na última época foi a única equipa da região que militou num campeonato nacional da 1ª divisão? O basket feminino não tem grande visibilidade, nem aqui nem a nível do país. Aliás, arrisco-me a dizer que esse é um problema do desporto feminino no geral. Mas as raparigas também têm direito ao desporto, tem que haver campeonatos, tem que haver treinadores, tem que haver toda uma estrutura a pensar nelas...
Não se sente frustrado por o vosso trabalho não ter grande visibilidade? Quando, em Santarém, saltei do basket feminino para o masculino, em 2003, após ter acabado de ganhar o campeonato, a Taça de Portugal e a Supertaça, muita gente perguntou-me porquê. A competição feminina não tinha os aliciantes que a masculina trazia. Na competição feminina em Santarém, com a equipa que tínhamos, passávamos oito meses da época a treinar, a jogar à vontade, para depois tudo se decidir em dois ou três fins-de-semana.
Precisava da adrenalina ao longo de toda a época. A liga masculina trazia-me isso. Todos os jogos eram competitivos, tínhamos de nos preparar bem...
Também perdia mais vezes... Claro! Mas era bom jogar com FC Porto, Benfica, Barreirense, Queluz. Ter os jogos transmitidos na televisão. Nessa altura achei que me realizava dar esse salto. Isto tudo para falar sobre a visibilidade das diferentes competições. Claro que aqui em Torres Novas estou contente e feliz com o que tenho.
É mais fácil gerir um balneário de mulheres do que de homens? Tem pontos positivos de um lado e de outro. Em relação às mulheres o ponto fundamental é que se fazem melhores grupos de trabalho no feminino. Entre elas criam relações mais fortes. E isso tem reflexos no jogo. Na minha perspectiva o jogo feminino é mais elaborado, o jogo masculino é mais individual. Elas funcionam mais em dinâmicas de grupo.
E em termos emocionais? O masculino é mais forte. Elas vão-se abaixo mais facilmente. E com uma agravante que tem algum peso: é que no masculino nós podemos entrar no balneário no final e interagir; com elas, a partir do momento em que se fecham no balneário, o mundo fechou-se para o treinador.
Lidou e lida com muitas raparigas novas, ainda em processo de formação da sua própria personalidade. Inclusivamente a sua filha jogou consigo muitos anos. Por vezes sente-se como uma espécie de educador, psicólogo, confidente? A minha filha, Maria (Quicas), na minha perspectiva familiar, foi um caso de sucesso no basquetebol porque conseguiu jogar e treinar sempre e tirar o curso de medicina simultaneamente. Por vezes havia alguns atritos e ela não teve vida fácil, não lhe perdoava nada. Era bom que se percebesse que o estatuto que tinha na equipa não tinha nada a ver com ser filha do treinador mas sim com o rendimento dela. Nunca teve nada no basket dado pelo pai. Tudo o que conquistou foi por ela.
Durante alguns anos esteve na ribalta do basquetebol feminino nacional, com a União de Santarém e depois com o Santarém Basket. Entretanto o basquetebol sénior desapareceu de cena na capital de distrito. O que é que correu mal? O que se pretendeu, após as eleições autárquicas de 2005, quando Moita Flores foi eleito presidente da Câmara de Santarém, foi desinvestir e colocar a modalidade ao nível das outras. No último ano só já foram criadas dificuldades. Não houve vontade política para continuar a apoiar o projecto.
Como está o basquetebol de formação nesta região? Tem melhorado, mas nós nunca estamos contentes com o que temos. Há seis anos que não conseguíamos ter as quatro selecções distritais colocadas no grupo das melhores. Temos à volta de 800 atletas federados, com equipas em todos os escalões. Temos campeonatos de sub-14 com sete ou oito equipas, o que para o basquetebol é bom.
A concorrência do futebol complica-vos a vida? Só no masculino. Neste momento temos três ou quatro pólos que têm equipas em todos os escalões. Estou a referir-me à Chamusca, Santarém, Torres Novas - que tem três clubes, o que para o basket é bom, independentemente das rivalidades - e Abrantes também tem os escalões todos. O Cartaxo cresceu muito. Sem estar bem, na minha perspectiva, a seguir aos distritos de Lisboa, Porto e Aveiro, Santarém aparece. Houve anos em que isso não aconteceu, mas nos últimos dois ou três anos temos aparecido cada vez mais em cima. Mas claro que queremos sempre mais. Ainda agora a nossa selecção sub-12, num torneio na Maia, ganhou 10 jogos em 11.
Fez a sua vida profissional como professor. Há diferenças substanciais entre a juventude de agora e a de há 20 ou 30 anos? Muito grandes. Fujo sempre um pouco a olhar para a minha juventude com saudosismo, mas é óbvio que os jovens hoje têm acesso a coisas que nós não tínhamos. Na minha juventude não havia pavilhões, treinávamos basket ao ar livre, mesmo que estivesse a chover. Tivemos jogos adiados por causa do nevoeiro, porque não se via de uma tabela à outra. Se contar isto hoje ninguém acredita mas não faltávamos aos treinos. Hoje há muito mais absentismo, porque há o computador e muitas outras coisas que não havia naquela altura. O desporto era o nosso modo de vida extra-escolar.
Tinha paciência para lidar com os seus alunos, para aturar a irreverência e atrevimento próprios da adolescência? Eu ajusto-me e sou adaptável facilmente. Viajo imenso pelo mundo inteiro, já estive em 67 países diferentes, quer em férias, quer por causa do basket.
E quando lhe pisam os calos? Costumo dizer que tenho o verde, o amarelo e o vermelho. Noventa por cento do meu tempo de vida gasto-o no verde. Raramente chego ao amarelo e ao vermelho só chego em casos extremos, mas já cheguei...
No basket também? Sim, também. Mas também nos vamos adaptando ao longo da vida. Posso dizer que nos anos de Santarém era muito mais disciplinador do que sou hoje. Hoje sou muito mais tolerante, até porque estou numa estrutura que não tem nada a ver com a estrutura profissional que tínhamos. As exigências eram outras.

Pioneiro do basket na Chamusca e papa-títulos em Santarém

Homem do basquetebol, José Monteiro ainda chegou a ser treinador adjunto no futebol, quando Gabriel Mendes orientou o CD Torres Novas na segunda divisão nacional. Gostou da experiência, mas para ele foi suficiente. “Foi uma experiência gira, mas o basket é a minha modalidade. É aquilo que faço desde os 12 anos e sinto-me muito bem no basquetebol”. O mesmo diz em relação à política, já que foi vereador do desporto e da Cultura durante um mandato na Câmara da Chamusca, na primeira metade da década de 1980.
A história do basquetebol na região nos últimos 35 anos é também um pouco a história de José Monteiro, um homem nascido na Figueira da Foz há 63 anos que chegou ao Ribatejo pelos acasos do destino, para dar aulas de Educação Física na Chamusca, no início da década de 1980. Entusiasta da bola ao cesto, em que se iniciou no Sporting Figueirense, depressa implantou a modalidade na Chamusca com o apoio de Cândido de Azevedo, delegado distrital de desportos, e de Albino Maria, coordenador distrital do mini-basket.
As tabelas para colocar no pavilhão da Casa do Povo foram cedidas à condição, mas depressa se percebeu que iam mesmo ter utilidade, tal foi a adesão da juventude local e não só. Desse trabalho permanece ainda hoje uma das melhores escolas de formação da região e, porque não dizê-lo, também do país, já que as equipas jovens da Chamusca são presença habitual nas fases finais dos campeonatos nacionais. Manuel Azevedo, um dos continuadores do seu trabalho, começou com ele quando tinha 10 anos.
Foi um dos jogadores dos seniores da Chamusca, Nuno Domingos, residente em Santarém, e o presidente da câmara escalabitana à época, Ladislau Botas, que o desafiaram a implementar a modalidade na União Desportiva de Santarém. O que aceitou. Com ele foi também Inês Barroso, hoje vereadora da Câmara de Santarém, que era jogadora sénior e técnica da formação. Estava-se em 1987, pelas suas contas, e começava assim uma história de sucesso que acabaria abruptamente em 2006, segundo conta devido ao desinteresse da Câmara de Santarém, então liderada por Moita Flores, que deixou de apoiar financeiramente o projecto nos moldes em que até aí vinha acontecendo.
Nessa altura, já era o Santarém Basket que dava o nome pela modalidade na capital de distrito e José Monteiro treinava a equipa sénior masculina que disputava a Liga Profissional. “Estava na liga profissional, que é o ponto mais alto da carreira de um treinador”, lembra. Para trás ficavam 15 títulos nacionais em seniores femininos (4 campeonatos, 7 taças de Portugal e 4 supertaças), a esmagadora maioria com ele como técnico principal. Pelo meio ficaram ainda participações nas competições europeias em seis épocas, entre 1993/1994 e 2001/2002.
Acabou o basquetebol sénior em Santarém mas não acabou o basquetebol para José Monteiro, que entretanto começou a organizar campos de férias nos Estados Unidos da América onde leva jovens de todo o país. Continuou como director técnico distrital, cargo que desempenha desde 2000, e em 2014 esteve em Timor a dirigir e dar formação no primeiro curso de treinadores de basquetebol desse país.

A fazer “milagres” em Torres Novas
Em Fevereiro de 2011 pegou na equipa sénior feminina do CD Torres Novas e salvou-a da descida anunciada. “Tínhamos uma vitória em 14 jogos e depois fizemos quatro vitórias em oito jogos, salvando-nos da descida quase por milagre”. A equipa tem andado sempre na metade inferior da tabela, pois o orçamento é escasso (nada que se compare com as suas épocas em Santarém) e o grupo é composto maioritariamente por atletas ainda juniores, para além de três americanas profissionais recrutadas por ele. A jogadora portuguesa mais velha esta época tinha 19 anos.
Para o ano, o objectivo é melhorar, continuando a potenciar a formação. Na última época conseguiram já oito vitórias e um nono posto entre 12 equipas, mas apenas a uma vitória do sexto lugar. Outra aposta é a criação de uma equipa sub-21, que faça a ponte entre os juniores e a equipa sénior, que vai substituir a parceria havida com o Rio Maior Basket, que competiu na segunda divisão nacional como satélite do clube torrejano. Um projecto que “só teve o condicionalismo da distância geográfica, que nos criava imensas dificuldades durante a semana por causa dos treinos”, diz. Para além disso, há a expectativa de ter o pavilhão de Torres Novas só para a equipa durante os treinos, o que proporciona outras condições de trabalho.

A experiência autárquica na Chamusca

José Monteiro nasceu na Figueira da Foz no dia 31 de Julho de 1952 e vive há muitos anos em Torres Novas. É casado e tem uma filha, Maria Monteiro “Quicas”, médica, que durante alguns anos foi treinada por ele nas equipas da União de Santarém e do Santarém Basket. Professor de Educação Física - já está reformado do ensino público mas ainda dá aulas num estabelecimento privado -, foi pela via profissional que chegou ao Ribatejo. No início da década de 1980 foi colocado na Chamusca, onde lançou o basquetebol e onde experimentou a política autárquica. Provou, gostou mas chegou. “Foi uma excelente experiência. Deu-me uma visão das coisas como não tinha até ali”. Mas o tempo que a vida política lhe exigia roubava tempo ao basket e na hora de optar não teve dúvidas. “O basket absorve-me as 24 horas do dia. Ainda hoje estive até às 5 da manhã a ver jogos da NBA”, conta.

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