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“Não percebo por que razão Abrantes não consegue fixar população e captar indústrias”

“Não percebo por que razão Abrantes não consegue fixar população e captar indústrias”

Bastonário da Ordem dos Engenheiros, Carlos Mineiro Aires, diz que as potencialidades da região deveriam torná-la mais atractiva e competitiva. Na segunda parte da entrevista dada a O MIRANTE, este engenheiro civil fala também da massificação da construção e da necessidade de apostar na reabilitação urbana.

Edição de 20.10.2016 | Entrevista

É engenheiro civil de formação. Como foi possível chegar-se ao ponto do país ter hoje muito mais casas construídas do que famílias? Os números apontam para seis milhões de casas para cerca de 4 milhões de famílias.
E existem ainda mais uns milhões de fogos licenciados para construção... Houve um período em que a facilidade no acesso ao crédito e sobretudo o nível de vida que foi atingido em Portugal durante duas a três décadas levou a que houvesse um grande investimento nessa área. Juntou-se uma série de condimentos.
Não houve também grande responsabilidade por parte de quem licencia, nomeadamente das autarquias?
Uma das principais fontes de receitas dos municípios era efectivamente a dos licenciamentos urbanísticos. As câmaras municipais tinham interesse em ter receitas, os investidores em construir e os bancos corriam atrás dessa gente para emprestar dinheiro. Havia todo um ciclo que potenciava essas coisas. Até porque havia compradores. E depois deu no que deu.
A reabilitação do edificado é hoje o caminho apontado. É a aposta correcta?
Para já é uma obrigação cultural que temos. Nós não tínhamos o direito de deixar degradar os centros históricos. Basta ir ali ao Rossio (Lisboa) e ver como aquilo está. Uma das coisas de que temos obrigação, até para manter o nosso património, é apostar na reabilitação urbana.
Não houve também aí algum laxismo por parte dos municípios?
Acho que foram mais os interesses do mercado que motivaram o abandono dessas zonas em detrimento da compra de habitação em zonas mais periféricas. Havia muita habitação nova e as pessoas preferiam comprar um apartamento com garagem, com parque de estacionamento.
Como é que se convencem os jovens a irem viver para as zonas antigas?
Primeiro há que fixar os jovens, esse é o problema básico. Quais são as alternativas de emprego que se podem oferecer aos jovens para eles não saírem.
Em Abrantes isso tem sido complicado. O concelho tem vindo a perder habitantes nos últimos 50 anos.
Exactamente, mas há outros que têm conseguido contrariar essa tendência de perda demográfica, como Castelo Branco, por exemplo. É um caso que conheço particularmente. Castelo Branco tem capacidade de cativar jovens e tem uma vida fantástica. É uma cidade com animação, com vida.
Por que é que o mesmo não se passa em Abrantes, cidade e concelho que até tem algumas unidades industriais importantes, boas acessibilidades, bons equipamentos públicos e ensino superior?
Sem querer fazer comparações, acho que houve um ciclo político em Castelo Branco que foi muito capaz de motivar a fixação de jovens. Deu-se uma grande reviravolta nas mentalidades, na fixação de investimentos. Como abrantino, questiono-me por que razão Abrantes, com as condições que tem hoje, não consegue fixar a população nem captar mais indústrias. É problemático.
Que ideia tem da presidente da Câmara de Abrantes, Maria do Céu Albuquerque (PS)?
Só estive com ela uma vez pessoalmente e pareceu-me uma pessoa muito simpática. Vou acompanhando a actividade autárquica pela comunicação social, mas não estou em condições de fazer qualquer juízo sobre a sua actuação. Isso compete aos eleitores.
Abrantes está a celebrar 100 anos de elevação a cidade. Que prenda gostaria que a cidade recebesse?
A instalação de uma ou duas grandes indústrias de referência, para que pudesse ter outra vitalidade e criar emprego. Abrantes é uma cidade muito bonita.
A cidade tem perdido preponderância no contexto regional?
Suponho que ela nunca a chegou a ter. Aliás, diga-se em boa verdade que o distrito de Santarém tem sido um pouco maltratado no meio disto tudo. As poucas coisas inquestionáveis e com visibilidade a nível nacional são a Feira da Agricultura em Santarém, o Convento de Cristo em Tomar e a Feira do Cavalo na Golegã. Acho que valia a pena pensar-se aquela região em conjunto.
Faltam líderes regionais, pessoas que agreguem?
Aquela região tem tido um défice de qualquer coisa, não sei... Acho que podiam ser feitas mais coisas para valorizar aquela comunidade.

“Os engenheiros faltam em muito lado, nomeadamente nos governos”

Gosta do que foi feito nestas últimas décadas em termos urbanísticos nas cidades ribatejanas que conhece, nomeadamente em Abrantes? É discutível, tem também a ver com as modas. Quando entro numa qualquer cidade deste país percebo logo se houve ali uma intervenção recente ou não. Os passeios com os ferrinhos, as bolas no chão ou as correntes a atravessar as zonas pedonais são marcas de um determinado tempo, tal como há as marcas dos tempos do marquês de Pombal ou do Estado Novo.
Para si é uma questão pacífica. Confesso que desde que cumpra objectivos de tornar a cidade mais vivida, habitada, mais bonita e mais limpa já é virtuoso. A seguir podemos discutir o resto. É questionável se tem alguma lógica numa cidade que nunca teve essas tradições de repente aparecerem bolas de ferro no chão, correntes penduradas, uns candeeiros que não têm nada a ver...
É uma questão de mau gosto? Pode ser. Conforme também posso dizer que nada tenho contra as rotundas mas choca-me encontrar em pleno Alentejo uma rotunda no meio de nenhures a mudar de cor a toda a hora.
E o que pensa de projectos como o cemitério à americana em Abrantes, que entretanto deu problemas, ou a construção de um campo de basebol onde praticamente ninguém joga? Um campo de basebol pode ter outras utilidades. Pode ser que pelo menos sirva para outras coisas. Os cemitérios à americana são modas. Em Lisboa também os há. São opções. Um cemitério à americana, em boa verdade, não tem investimento nenhum. Na prática é um relvado que tem que ser mantido.
O problema é se o solo não é compatível para o efeito, como aconteceu em Abrantes. E também aconteceu em Lisboa. Houve um cemitério teve que ser abandonado porque passado um ano foi-se ver que os corpos estavam incorruptos.
Se calhar nesses casos faltaram os engenheiros. Acho que os engenheiros faltam em muito lado, nomeadamente nos governos. Nota-se perfeitamente quando um governo tem engenheiros e quando não tem. A conversa é outra, a apreciação e a visão são outras. Não tenho dúvidas nenhumas que isso é uma lacuna. Nós engenheiros temos dificuldade em falar com quem não é engenheiro.
Porquê? Porque o caminho mais curto entre dois pontos para nós é uma recta e para os outros, por vezes, é uma curva muito complexa.
A Ordem dos Engenheiros alertou recentemente para o facto de a construção anti-sísmica não ter vindo a ser observada nas obras de reabilitação urbana, pois a lei não o exige. Andamos a brincar com o fogo? A lei não o exige. Houve um diploma que veio isentar a reabilitação urbana de uma série de obrigações durante um período de sete anos. E durante esse período uma das coisas que é dispensável é o reforço sísmico. Fomos altamente críticos em relação a isso.
Porquê? A dispensa de reforço sísmico numa obra de reabilitação urbana pode ser opção do próprio dono, caso não queira gastar dinheiro. Agora quando estamos a falar de reabilitação urbana para ser colocada no circuito comercial e para ser usada para outros fins, nomeadamente para “hostels”, que estão muito em moda, acho que o mínimo exigível é que quem compra tenha a certeza que não está a comprar um imóvel que não foi apenas objecto de uma operação cosmética. Se é para fazer reabilitação urbana, que se faça em condições. E o reforço sísmico é fundamental. Vivemos num país com zonas altamente expostas a risco sísmico.
Teve uma diversidade de cargos com alguma relevância na administração pública. A política nunca o atraiu? Não. Nunca tive filiação partidária, a política nunca me atraiu. A única ambição que poderia equacionar na vida era ser presidente de junta ou presidente da câmara da minha terra. Tenho dito isso a muita gente. A proximidade às pessoas, o servir as pessoas são coisas que apaixonam, embora também cansem.
E nunca o tentaram atrair? Já. Tenho as minhas convicções políticas, que têm variado ao longo da vida. Mas ser político não é coisa que me atraia. Estou dedicado à Ordem dos Engenheiros durante três anos. Depois verei se me recandidato ou não. Isto é uma causa que requer muito empenho e não me recordo de trabalhar tanto na vida como agora.

Rectificação

Carlos Mineiro Aires e não Alves

Na primeira parte da entrevista com o bastonário da Ordem dos Engenheiros, publicada na edição de 13 de Outubro de 2016, trocámos o apelido Aires por Alves ao nosso entrevistado. Um erro lamentável de que pedimos desculpa a Carlos Mineiro Aires e aos nossos leitores.

“Não percebo por que razão Abrantes não consegue fixar população e captar indústrias”

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